quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Autoconhecimento , Mudança e Transformação

Por Rosangela Brunet


"Conhecer a si mesmo é o maior desafio, é a nossa maior viagem , nossa maior loucura e, ao mesmo tempo, nossa maior sanidade"Carlos Hilsdorf
Considerando que “A psique é o eixo do mundo”. (JUNG, C. G., VIII/2, § 423), pode se entender a importância de se desenvolver e transformar-se em direção ao encontro de "Si Mesmo" através do outro
Você pode se perguntar a razão desse " eixo do mundo" ser tão importante.O conhecimento esta na relação do "Ser em busca de sua Integração " e na relação com o outro. Se você esta em contato com você mesmo, tendo consciência dos seus sentimentos e pensamentos, aprendendo a gerenciá-los e canalizá-los para o objeto certo na hora certa, e isso , através da sua relação com o outro que atravessa seu caminho; então ninguém precisará apontar o caminho ou mostrar nenhuma verdade,pois a verdade aparecerá para você , e tu mesmo a sentirás.Como disse Jung: "Nossa tendência é supor que qualquer conhecimento provém ,em última análise,do exterior .Mas hoje sabemos com certeza que o inconsciente possui conteúdos que, se pudessem tornar-se conscientes , constituiriam um aumento imenso de conhecimentos " 
É acessando este eixo que poderemos nos conhecer mais e resgatar as partes que não foram integradas em nossa personalidade,as quais nos fazem falta para nos ornar plenos e felizes. Algumas partes destas se encontram imersas e é necessário entrar em contato com elas, á fim de obter verdadeira sabedoria que promove a felicidade que tanto buscamos e , a criatividade tão necessário a transformação do mundo.Esta sabedoria é que nos faz livres e felizes. E, é acessada em um local submerso , um local distante de tudo que aprendemos através da experiência adquirida. É algo inato. Este local esta imerso no inconsciente coletivo.Apesar de coletivo, ele é a fonte da individualidade libertária e criativa que podemos conquistar .Este local se chama "inconsciente coletivo"
"Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo. Eu optei pelo termo "coletivo"pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são 'cum grano salis' os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo.Uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados. Só podemos falar, portanto,de um inconsciente na medida em que comprovarmos os seus conteúdos.Os conteúdos do inconsciente pessoal são principalmente os complexosde tonalidade emocional, que constituem a intimidade pessoal davida anímica. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, sào chamados arquétipos."C.G.Jung, In "Os Arquétipo e O Inconsciente Coletivo"
Se "Uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados", não se pode falar de "eixo do mundo", sem falar em psique, sem falar em arquétipo e sem falar em Inconsciente coletivo.E, para que possamos sermos reconhecidos como existindo psiquicamente é necessário entrar em contato com esta realidade submersa e acessar conteúdos inconsciente, á fim de integrar as partes que nos cabe como Ser.E, como se faz isso? Vou te responder de forma poética,pois teoricamente seria mais chato e pouco prático. 


   Obra de Autor Desconhecido.
Trabalho em Azuleijo



Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
 Fernando Pessoa

Fernando Pessoa foi muito feliz no uso dessa metáfora.Primeiro porque roupa, corpo e este processo de travessia tem tudo a ver com transformação. Por exemplo, para a Psicologia Analítica de C.G. Jung , a roupa é um símbolo que esta ligado ao arquétipo "persona" , que se manifesta na forma como nos apresentamos em sociedade.A nossa aparência. Segundo Ana Cristina Curi "Persona ,como arquétipo, é uma predisposição psíquica universal que estrutura a experiência da adaptação ao meio. A Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo.A origem dessa palavra é um termo grego que Jung introduziu em sua obra psicológica e designa a máscara, a forma como nos apresentamos socialmente. Esse termo, utilizado pelo fundador da Psicologia Analítica, tem sua origem nas máscaras utilizadas pelos atores gregos em encenações das tragédias."
E, nessa linha de pensamento, nas tramas de vida que vamos vivendo e tecendo nossa história, essas roupas vão ficando velhas, inadequadas e sujas. Por isso, é fundamental não deixarmos de acompanhar as mudanças sociais, porém sempre respeitando a individualidade e o espaço vital de cada um. O ponto crítico nesse processo é saber exatamente a hora de mudar, o que mudar, e substituir pelo o que? Ainda que essa jornada seja uma aventura,muitas vezes assustadora, essa mudança é essencial a qualidade de vida e a saúde emocional. Veja o que diz Whitmont: "Em sociedade, é importante desenvolvermos nossas personas assim como um ego adequado para que possamos nos relacionar com o coletivo. Devemos ter em mente, a necessidade dessa exigência, não deixando de lado, porém, aquilo que realmente somos. "Temos de descobrir que usamos nossas vestimentas representacionais para proteção e aparência, mas que também podemos nos trocar e vestir algo mais confortável quando é apropriado, e que podemos ficar nus em outros momentos. Se as nossas vestes grudam em nós ou parecem substituir a nossa pele é bem provável que nos tornemos doentes"[1]

Persona tem uma ligação semântica com a palavra personalidade, que significa máscara. C.G. Jung dizia que a psique tem uma recurso muito próprio que possibilita o indivíduo esconder ou revelar os pensamentos e sentimentos conscientes . Esse recurso é uma defesa do ego. A máscara, ou a persona é essa utilização egoica utilizada para isso,pois permite o indivíduo ao mesmo que observa o outro, se protege dele e de si mesmo. O problema é que enquanto nos defendemos do outro, ficamos cegos para nos ver também.Por isso, Fernando Pessoa se utiliza bem da metáfora quando se refere a trocar a roupa usada,pois só assim será possível enfrentar o fundo de nossas mascaras. Por um tempo pode ser saudável nos utilizar de máscaras ou nos vestir com roupagens pouco confortável ,mas fora de tempo essa roupa corre o risco de se "tornar nossa pele" ou se esgarçar.
A pele é o maior órgão de nossos corpo, e ele tem uma grande função de defesa , expressão e aparência.Muitas doenças psicossomáticas aparecem na pele,pois é um dos lugares mais suscetível a tensão psíquica. Trocar a pele natural por uma roupa ou máscara pode nos tornar um artefato social incapaz de enxergar o mundo e, até mesmo nos tornar um indivíduo incapaz de viver de forma espontânea até chegar no limite de produzir sintomas físicos. Essa mesma pele que protege também pode influenciar a nossa visão de mundo e, nos impedir de ver a dimensão invisível que existe dentro de nós e além de nós. Por isso, é tão fundamental esse processo de trabalhar essas personas no tempo certo de cada um ,pois o processo de adaptação é como um recurso de defesa psíquica, e funciona como um sensor que não pode ser desregulado. Nessa regulação que o organismo vai se desenvolvendo e buscando sua integração e plenitude. Mas o grande vilão dessa história são as demandas sociais que quase nos engolem diariamente , e esta sempre nos enfrentando tentando nos tirar desse equilíbrio, nos seduzindo a nos mascarar no nosso dia-a-dia mais do que o necessário.E nesses traços desviantes da rotina corremos o risco de nos apegarmos a papéis que acabamos priorizando e deixando nossa maior missão de lado : viver na vasta amplitude do Ser que existe em nós ,ainda que desconhecido .

"...se não ousarmos fazer esta travessia teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa
Mas porque essa travessia é tão difícil ,dolorosa, assustadora e muitas vezes, até impossível de acontecer ?
Há múltiplas respostas,mas me arriscarei a refletir sobre algumas questões importantes. Em primeiro lugar já explicamos que enxergar o interior de nossas máscaras é um processo difícil e profundo, pois teremos que enfrentar conteúdos dolorosos de lidar, os quais durante a vida toda rejeitamos ver. São conteúdos que foram recalcados, reprimidos, "esquecidos", jogados no porão, para não ser enfrentado. E, é importante dizer que esse enfrentamento não pode acontecer sem a presença do outro , e, é nesse instante que este processo se trona mais difícil e complexo ainda,pois exige coragem e disposição de se expor e se denudar. Essa coragem e disposição se torna necessária devido aos sentimento que se apresentam a nós neste momento tais como: ansiedade, angústia, medo, culpa, vergonha, alegria , confusão, etc.Cada pessoa, com sua história de vida vai vivenciar esta experiência com sua particularidade. Mas o fenômeno mais comum diante desse enfrentamento é a ansiedade. Uma das causas da ansiedade é o medo que se sente quando se esta enfrentando algo desconhecido.

A ansiedade é uma agitação provocada pelo medo, que faz a pessoa agir impulsivamente, sem organização e disciplina. Uma pessoa ansiosa costuma lidar com as coisas de maneira precipitada, movimentando-se freneticamente quando deveria manter a calma. O medo e a ansiedade são os grandes inimigos da transformação.Causam estagnação ou desvios perigosos e, de uma forma ou de outra, impedem o fluxo natural da vida, afastando você da sua capacidade de crescimento pessoal " Roberto Shinyashiki
"Rashad Alakbarov mostra que é possível fazer “pinturas” em paredes, com luzes e sombras. Ele que ficou famoso por sua arte um tanto peculiar, pois suas obras trazem um novo conceito aos nossos olhos. Mas o que faz o sua arte efetivamente provocativa são as oposições: não só no caso da luz contra a sombra, mas também por existir beleza no caos originado a partir da sua reflexão. Suas obras já foram exibidas na Phillips de Pury Gallery, em Londres, mostrando suas ideias, criatividade e originalidade.Ao invés de usar óleo ou aquarelas para fazer pinturas,Alakbarov usa luz, sombras e objetos comuns para formar incríveis paisagens nas paredes.Vários artistas já criaram obras muito interessantes com sombras. Mas desta vez quem surpreendeu com seu talento e criatividade foi Rashad Alakbarov nos mostrando que a arte pode estar em quaisquer coisas e lugares...São obras que ganham vida, e o que parecia apenas lixo e restos de produtos se transforma em paisagens complexas e retratos, através de sombras projetadas na parede, onde, aparecem imagens que variam desde horizontes urbanos até palavras, frases e rostos."{6]

Obra de Rashad Alakbarov
O Mestre das Sombras
Estas obras é um caso exemplar de Sombras e Transformações. O que esta aparentemente escondido e em desuso se torna um show de beleza significativa. O mais curioso é que por serem sombras s podem ser vistas "de um determinado ponto de vista A partir de projeções indiretas de luz".Isso me lembra a parcialidade de visão que se adquire ao longo da vida, que reverbera numa forma de enxergar apenas sob uma 


perspectiva.As sombras são fundamentais na busca plenitude e integração do Ser.Por isso, gosto tanto de falar sobre ambos os temas:Sombra e Busca de Integração.                     
E não há nada mais desconhecido do que nossas sombras. Segundo Guimarães "a sombra é um elemento fantasmático ou uma região do espaço cuja penumbra é provocada quando a luz é impedida de fluir por um objeto... a sombra possui os contornos do mesmo objeto, sendo sua projeção negativa, inevitavelmente ligada a ele... Na psicologia junguiana a sombra é a representação arquetípica de tudo o que temos, potenciais bons e maus, que não reconhecemos como sendo nosso, mas que nos segue onde quer que vamos e que geralmente projetamos em outras pessoas."[2]
Essa ansiedade citada Shinyashiki realmente impede a expansão do pensamento e o crescimento, mas também nos chega diante desse mesmo processo. Nessa ampliação de horizontes em direção a uma nova visão de mundo o medo do novo e do desconhecido vem nos afrontar. Neste momento é essencial que a pessoa não se renda ou fuja desse caminho de autoconhecimento. O trabalho de tornar-se consciente de si mesmo é uma caminho para sair desse ciclo de energia desperdiçada.Como disse Carl Gustav Jung: " Não podemos mudar nada sem que primeiro a aceitemos"
Quando olho para dentro passo a me ver, a me conhecer e abre-se, então, a possibilidade de aprendizagem e expansão de pensamento. Sair do lado de fora em direção a introspecção me leva a ser um ser ativo no mundo agindo de forma responsável, ou seja, passo a ter a capacidade de responder aos estímulos externos e internos que me chegam .Abandono todo o silêncio de um espectador para me tornar um agente transformador. E,nessas tentativas de (des)mascarar-se ou despir-se o que esta velado pode produzir uma ansiedade insuportável e, é muito comum o indivíduo correr desesperadamente em direção a alguma atividade que possa aliviar essa tensão, expectativa,angústias, culpas , medos,etc.
Há algumas atividades bem importantes que ajudam transferir nessa hora energias deslocadas erroneamente para alvos mais produtivos. Mas estas atividades não serão citadas aqui agora. Neste artigo eu gostaria de exemplificar uma atividade muito interessante que encontro em muitos pacientes que relatam ser mais relaxante e confortantes para eles neste momento : a arrumação de seus armários .Escolhi esta atividade em parceria com aquele trecho de Fernando Pessoa.
Obra de Rashad Alakbarov
Normalmente na psicoterapia o paciente vive intensamente esta ansiedade no processo de autoconhecimento e, muitas vezes, essa ansiedade é acompanhada de angústia , agitação e descontrole. Alguns pacientes relatam que arrumar o armário o ajuda a organizar seus pensamentos e colocar em perspectivas o que eles ainda não conseguem enxergar em sua totalidade . Então eles arrumam seus armários, suas gavetas, seus documentos ou qualquer coisa pendente que "deixou para depois". e, é justamente essas "pendências" que estão cobrando e pesando no processo de integração. 
Tem coisas que todos nós deixamos para fazer outra hora porque não consideramos tão essencial assim; mas ,se formos postergando depois, e abrindo uma caixa 2, numa gaveta, numa das partes do armário, ou até mesmo um quartinho inteiro de bagunça , esse "depois" poder-se-á tornar-se horas, dias e até anos de atraso de qualidade de vida e saúde mental.
Observo que sempre que as pessoas recorrem a este artifício de "arrumar suas bagunças" e "coisas pendentes" , elas vão ficando mais calmas.Na medida que vão organizando os papéis, colocando-os em pastas separadas, arrumando as roupas de forma mais prática, eles vão descobrindo que sempre tem algumas coisas que sobrou , que estava pesando mais e eles não percebiam;sempre descobrem que eles não tinham mais necessidade de guardar tanta coisa assim; que aquelas coisas estavam ali por puro apego.
Quando alguém me traz esse tipo de questão eu faço dela um exercício , levando-a a vivenciar essa prática na vida real. Levo a pessoa "para frente" do guarda-roupa, e procuro fazê-la vivenciar esse processo de "arrumação de bagunça" na prática levando-a a relacionar esses objetos que serão arrumados aos conteúdos esquecidos, reprimidos e recalcados. Peço que ela jogue fora tudo que não serve mais, tudo que esta pesando , que a prende, que a atrasa, que cega ela pro dentro. Nessa hora sempre existe aqueles papéis que nunca foram lido mas a pessoa guardou porque achava que iria ler um dia; tem as notinhas de compras que ficaram no fundo da bolsa e já faz meses que o produto acabou ; tem as roupas que já não cabem mais nelas,mas elas insistem em esperar emagrecer.Tem as roupas que já se acostumaram muito com o corpo da pessoa e perdeu o caimento,mas o paciente continua usando as mesmas roupas para ir a lugares novos. Tem as bolsas que saíram de moda ou ficaram velhas ,mas a pessoa não faz nenhuma questão de se atualizar; tem aqueles bilhetinhos do chefe que sempre se guarda pra não esquecer a tarefa importante que priorizou,mas a tarefa foi cumprida com êxito e pessoa ainda fica com ele ; tem os bilhetes de teatro ou algum show que ficaram lá como lembrança daqueles dias maravilhosos que foram vividos ,mas a pessoa nunca consegue guardar ;tem os cartões de aniversário que ficaram registrados na memória,mas a pessoa esqueceu no fundo da bolsa ; tem as sujeirinhas e as pedras que caíram do colar,mas a pessoa insiste em manter aqueles resíduos do passado; tem os papéis com telefones anotados que se esqueceu de passar para a agenda,e o indivíduo ainda nem conseguiu se livrar da agenda da anterior. Enfim, nessa hora a pessoa tem que decidir se vai se livrar de tudo isso ou não. Será um processo de priorizar, de luto e resignificação de conceitos, reconstrução de caminho e descobrimento de novos espaços e terras .Mas para isso será fundamental o indivíduo aprender discernir o que é essencial do inútil. Do contrário, o lixo e objetos continuarão se acumulando e pesando desnecessariamente.
A vida da gente é bem assim mesmo .Se a gente não tomar cuidado, ás vezes, tem coisas demais sobrando dentro de nós , ou atrás nos puxando , ou pesando em cima .Ainda tem aquelas coisas roubando a nossa esperança e tirando a nossa fé; e, tudo isso nos impede de vivenciar novas experiências. O fato é que o equilíbrio entre o apego e o desapego e, a capacidade de gerenciar nossas vidas são questões fundamentais para nossa saúde mental e qualidade de vida
Todo excesso de peso e lixo guardado dentro de nós nos faz mal emocionalmente.É uma ameaça para nossa qualidade de vida. Desapegar é uma dificuldade para muitas pessoas. A capacidade de organização e estabelecimento de prioridades e, o equilíbrio para lidar com as angústias, ansiedades e culpas que são geradas nesta hora do desapego é como enfrentar uma batalha armada que evitamos desesperadamente.Organizar nossas "bagunças" é um caminho para a harmonia interna e o equilíbrio sistêmico do indivíduo. E nele a pessoa vai arrumando seu quarto,organizando sua vida,revendo seus conceitos, repensando suas escolhas, resignificando seus pensamentos, e reparando seus erros. E, no fim, pode acreditar ,você sempre acabará encontrando coisas lindas, brilhantes e preciosas no meio dessa bagunça do guarda-roupa,basta ter coragem e paciência de procurar.
Desde a infância aprendemos a nos apegar,a fazer vínculos, a guardar o que tinha valor e a jogar fora o que não servia. O ódio e o amor por um objeto ou pessoa é um conceito construído desde a tenra infância , na fase oral, quando temos contato com o seio materno. O conceito de organização vai se desenvolvendo mais tarde na fase anal,onde a criança aprende o controle dos esfincteres. Nestas duas fases estão canalizadas energias importantes para que o adulto conquiste uma vida mais saudável em suas relações com o outro e com o gerenciamento da vida em geral.Por isso, para quem é pai ou mãe sugiro investir uma atenção especial para seus bebês nesse período. Pois, se o indivíduo ficou fixado numa destas fases ele voltará sempre nelas para obter prazer na hora da ansiedade,angústia ou culpa. Vai buscar um tamponamento qualquer para se livrar das mesmas angústias das quais se escondeu na tenra infância, e por isso, continua a se esconder se apegando demais ao que é desnecessário ou ao que é ofensivo a saúde mental e física, ou organizando demais de forma sistemática Claro que este exemplo de arrumar armários é um caso simples e cotidiano , mas pode ser o reflexo do que esta acontecendo dentro da pessoa. Por isso, me utilizo dele para tentar comentar sobre a dificuldade que muitos indivíduos possuem de se desapegar de objetos ou pessoas causando transtornos falta de direcionamento na hora de se sentir realizado e pleno enquanto sujeito no mundo. 
O hábito que muitos possuem de exigir tudo arrumado compulsivamente, ou em outro extremo, não conseguir organizar nada na sua vida compromete a qualidade de vida de uma pessoa produzindo impacto em seu ambiente familiar ou ambiente de trabalho. No primeiro caso a pessoa esta tão apegada a coisas ou objeto exigindo perfeição, que perde a capacidade de criação e espontaneidade . No segundo caso ,o indivíduo se torna tão confuso e sem critério de ação que não consegue atingir meta alguma, pois não consegue planejar nada e, não enxergar nenhuma estratégica na hora de elaborar um plano de vida. 
Para clarear um um pouco mais este assunto gostaria de refletir sobre o que Freud e Fritz falam sobre pensamento.Porque não tem como separar o processo de reconstrução, resignificação e transformação do processo de pensar
Nosso querido Sigmund Freud diz,por exemplo, que "O pensamento é o ensaio da ação".Mais tarde Fritz Perls vai afirmar que a "A ação é inimiga do pensamento"Porque? Você pensa antes sua ação para antecipar, planejar, e prever soluções possíveis. Aqui o pensamento pode ser incluir também a ilusão onde a "verdade" de cada uma esta sem experimentação. Ou você pensa para agir, ou você age e sofre as consequências de ações mal planejadas.Há uma grande importância em se abrir para o processo de pensamento para que possamos conhecer a diferença entre o que é legítimo para mim mesmo, e o que é demandando pelo social ou pelo outro.
Por isso , o investimento no processo de pensar nos poupa de erros na hora de agir. O neurótico falha no agir porque sua forma de pensar esta engessada , robotizada ou desorganizada incapacitando -o a ser espontâneo e criativo .Sua forma de ver o mundo e se ver o impede de estar em contato consigo mesmo e com o mundo de forma eficaz, e assim ele não consegue atuar no meio para obter satisfação plena .
Quando estamos pensando, estamos economizando energia futura de ação, pois estamos planejando o que fazer com critério, ordem e perspectiva. Sem isso sairíamos sem direção e desperdiçaríamos muito tempo e energia para chegar onde queremos e atingir algum objetivo.
Por exemplo, quando estamos planejando uma viagem primeiro pensamos no que vamos precisar para que a viagem seja um sucesso.Depois começamos a traçar planos de ação em direção aquilo que planejamos e depois entramos a ação .Organizamos as roupas, compramos as passagens, reservamos o hotel,fazemos as malas, deixamos a casa preparada para ficar vazia, deixamos o cachorro com a vovó, etc.E ,então partimos para o sucesso de nosso empreendimento. 
Nesse processo de pensar explica a dificuldade que algumas pessoas possuem de lidar com suas "bagunças" . Nesse exercício de "arrumação" observa-se o quanto é possível projetar os objetos internos na atividade ou nas ações que ela executa. O reflexo do pensamento é a ação. O nível de organização e desapego reflete o estado emocional de cada um nas ações do dia-a-dia
Se um dia você estiver passando por esta experiência observe se tem alguma coisa que te dói se desfazer, que te custa doar. Se pergunte quais as tarefas você procrastinou por tanto tempo e porque ? É muito comum também cair na armadilha de arrumar uma "caixa extra" para as coisas "diversas" que não se sabe nomear, dar sentido, ou encontrar uma função. Então elas ficam lá naquela caixa por anos a fio porque não se consegue desapegar ou organizar. Porque não se encontra lugar para aquilo? Porque se valoriza demais aquilo outro?
Tem um trecho da música da Tina Turner que diz: "você tem que deixar tudo ir embora -se limpar. Se você está infeliz com alguma coisa que faz você ficar pra baixo,livre-se disso. Você verá que quando você estiver livre, sua verdadeira criatividade e seu verdadeiro eu virá para fora "
Esse trecho é um exemplo de prática incentivadora que gosto de ter.Mas sabe-se que nem sempre isso é tão fácil assim, pois na vida os sapatos e bolsas podem ter adquirido cargas carregadas de afetos que demoram anos para se gerenciar. Muitas vezes um objeto nem sempre poderá ser substituídos tão rapidamente por outro . Há bilhetes rasgados que podem custar a uma fortuna , até a assinatura de um divórcio. Há roupas velhas que podem se tornar preciosas e confortáveis para um recomeço , pois diminuem a ansiedade na hora de pagar a conta.
No entanto, segundo Renato Dias Martino: "Desapegar-se da realidade é uma tarefa simples comparada à empreitada de desfazer-se de uma ilusão(...)A ilusão é tão importante quanto a realidade, para aquele que se dedica ao exercício do pensar" 
Se eu me desapego devo saber que tenho que deixar para trás muitos afetos, ilusões e sentimentos desconhecidos não elaborados juntamento com o objeto ou pessoa abandonada .Apesar da bolsa estar velha , ela fez parte um momento importante que deve ser deixado para trás, mas isso inclui enfrentar o medo do novo , encarar a ansiedade e se encorajar a vivenciar culpa disfarçada de amor e de apego até que ela seja desmascarada.É essencial que possamos aprender a reconhecer raivas pelas dores que foram registradas, as angústias de não se saber como viver sem aquilo ou sem a pessoa agora. O fato é, que o desapego deve ser tomado na dose certa sempre que for necessário!E isso é uma arte marcial,mas um caminho de saída em direção a vida saudável. Essa atitude vai ajudar você a andar com mais força e firmeza .É um ato decisivo para o crescimento e maturidade.
O trecho de Pessoa é incontestável."Tire o velho para que venha o novo".Mas o que se faz com os afetos que também deverão ser abandonados ? O que fazer com a angústia gerada pela dúvida e medo do desconhecido, o que fazer com a dor do luto,da perda. Mesmo o menor dos objeto carregam com ele sua importância.Como refazer um caminho quando ainda não conseguimos entender o que estamos deixando para trás?
Não há uma resposta pronta para ensinar alguém a arrumar suas " bagunças " sem que ela sofra e viva o luto necessário. Mas há algumas direções que se pode sugerir .
A primeira é aprender a aquilatar o valor de cada objeto, bem como sua função. Claro, que não existe nehuma praticidade nessa hora , mas é possível aprender a colocar cada roupa em seu devido lugar mesmo que não seja mais do nosso lado .Em segundo lugar, é mister redirecionar nossas energias para os objetos necessários para a nossa legítima necessidade e desejo. E nesse momento há uma gatilho fundamental que precisa ser acionado.O autoconhecimento. Do contrário não se pode saber o que se deseja ,o que se necessita, o que não tem mais valor ou o que é útil , se não houver o mínimo de introspecção e autoconhecimento
A questão importante e essencial contida nessas prática me remete a quarta direção: saber reconhecer em nós os sentimentos que realmente devem ser perpetuados e outros que devem ser extintos.
Porém, essas direções fatalmente desembocarão em algumas fundamentais questões: Você aprendeu a reconhecer um sentimento quando ele surge? E se reconhece, você sabe lidar com ele? E se sabe lidar , você foi amparado com os afetos essenciais que te sustentaram o suficiente para vivenciar uma perda,por menor que seja? 
Ir embora, deixar o "objeto mal" e, odiá-lo por ter te pesado é um processo que reproduzem afetos antigos como culpa , angústia e ansiedade diante da perda necessário para o amadurecimento. Mas se no desenvolvimento psíquico você não teve suporte para partir, então você estará ancorado nesse refúgio psíquico como alguém parado numa estação esperando o mesmo trem voltar.Mas o trem nunca volta o mesmo, mesmo que seja o mesmo trem. E a estação também já não é a mais a mesma ainda que você fique parado lá por toda a sua vida. O rio corre e nunca é o mesmo, e a mudança é uma das únicas certezas que temos na vida. Por isso, é necessário ter sempre em mente que toda crise tem em si mesmo a semente de sua solução. Quando uma crise se instala podemos ter duas atitudes: Crescer ou estagnar. Se escolhermos a primeira opção veremos velhas estruturas de pensamento serem demolidas.Tudo que não nos serve mais, tudo que esta em excesso impedindo nosso crescimento será desestruturado para dar lugar ao novo. Virá a desorganização sim, mas para depois chegar o novo solo, o novo espaço apropriado para novas construções criativas. E, então estaremos prontos , pois a expansão de pensamento promove abertura de visão de mundo, faz-nos resignificar nossos conceitos trazendo uma nova mentalidade que servirá de base para novas atitudes nos dando suporte para um recomeço.
Mas você pode estar se perguntando: tudo isso é muito bonito, mas como colocar isso em prática? 
Realmente passar por este processo é bem complicado e exige muita disposição e energia.Mas além de energia e disposição, é necessário a relação com a verdade do outro para que o pensamento aconteça, as ilusões se desfaçam, e a pessoa consiga reorganizar seus conteúdos de forma legítima, sem base em ilusões ou fantasia. Uma pessoa sozinha dificilmente conseguirá alcançar este estágio de maturidade emocional, pois quando nos dispomos a pensar é necessário que haja duas pessoas refletindo, do contrário acabamos nos perdendo em nossas ilusões,fantasias e imaginações.Veja o que Renato Dias Martino nos explica sobre isso 
"O grande prejuízo da razão é que quanto mais enriquecidos de saberes inquestionáveis ,tanto mais empobrecidos das faculdades de pensar,nos tornamos (...) O pensamento é por assim dizer, a capacitação do ‘eu’ (compreendendo o mundo interno) na ligação afetiva com o mundo (externo). O exercício do pensar só se efetiva na experiência, como já se tomou por entendido. Experiência que compreende a ação junto do outro. Depende-se do outro para se pensar Quando não se inclui o outro, o movimento mental não pode levar o nome de pensar, pois ainda conserva características imaginarias.Ainda se encontra como ilusão que só será quebrada na introdução da verdade externa.Dessa forma, sou forçado a depositar meu descrédito em qualquer tentativa de batizar como pensamento, experiências que não compreendam o outro, ou o encontro com a verdade do outro(...) te desejo a verdade. ... A verdade que nos faz eternos pesquisadores do mundo e da vida. A verdade que não sossega.A que nos acorda de manhã cobrando um tipo de resposta que , talvez, não servirá mais depois de amanhã.A verdade que nos vira a cara a cada encontro.Aquela pela qual só podemos nos ver orientados,mas nunca possuídos " [3]
E essa verdade só me chega se eu for continente para o outro, se estiver disposta a receber a verdade do outro para que seja material de enfrentamento e reflexão para mim.
A necessidade da intervenção do outro acontece porque grande parte daquilo que falamos e escutamos passa por nosso inconsciente, e o inconsciente é responsável por construções psíquicas que dão ao seu criador a capacidade de gerar , organizar formas pensamento que interferem diretamente na forma de intervir no mundo. E isso acontece como uma espécie de respostas à partir de demandas e inquietações inconsciente, angústias e medos. Por isso é tão difícil desorganizar nossas bagunças, refazer nossos caminhos já tanto tempo estabelecido. É extremamente complexo repensar alguma ação, reconstruir uma história.E, pior do que estar disposto a vivenciar este processo, o mais difícil ainda é chegar a uma tomada de consciência que nos alavanque para uma atitude de transformação autêntica.Se não houver uma interferência do outro, raramente uma pessoa se da conta de que "suas verdade" necessitam ser revistas. Veja o Mito da Caverna de Platão
"Platão viu a maioria da humanidade condenada a uma infeliz condição. Imaginou (no Livro VII de A República, um diálogo escrito entre 380-370 a.C.) todos presos desde a infância no fundo de uma caverna, imobilizados, obrigados pelas correntes que os atavam a olharem sempre a parede em frente.O que veriam então?Supondo a seguir que existissem algumas pessoas, uns prisioneiros, carregando para lá para cá, sobre suas cabeças, estatuetas de homens, de animais, vasos, bacias e outros vasilhames, por detrás do muro onde os demais estavam encadeados, havendo ainda uma escassa iluminação vindo do fundo do subterrâneo, disse que os habitantes daquele triste lugar só poderiam enxergar o bruxuleio das sombras daqueles objetos, surgindo e se desafazendo diante deles.Era assim que viviam os homens, concluiu ele.Acreditavam que as imagens fantasmagóricas que apareciam aos seus olhos (que Platão chama de ídolos) eram verdadeiras, tomando o espectro pela realidade. A sua existência era pois inteiramente dominada pela ignorância (agnóia).Mas, se por um acaso, segue Platão na sua narrativa, alguém resolvesse libertar um daqueles pobres diabos da sua pesarosa ignorância e o levasse ainda que arrastado para longe daquela caverna, o que poderia então suceder-lhe? Num primeiro momento, chegando do lado de fora, ele nada enxergaria, ofuscado pela extrema luminosidade do exuberante Hélio, o Sol, que tudo pode, que tudo provê e vê.Mas, depois, aclimatado, ele iria desvendando aos poucos, como se fosse alguém que lentamente recuperasse a visão, as manchas, as imagens, e, finalmente, uma infinidade outra de objetos maravilhosos que o cercavam. Assim, ainda estupefato, ele se depararia com a existência de um outro mundo, totalmente oposto ao do subterrâneo em que fora criado.O universo da ciência (gnose) e o do conhecimento (espiteme), por inteiro, se escancarava perante ele, podendo então vislumbrar e embevecer-se com o mundo das formas perfeitas."[4]
Nesse Mito da Caverna - Platão deseja mostrar que sempre é doloroso se chegar ao (auto)conhecimento, ou conhecimento da verdade, pois esse processo exige sair do "Status Quo" , do lugar de conforto para romper com tudo que é corrente existencial e inercia da ignorância .Mas se alguém se dispões a pagar este preço o resultado será o prazer da descoberta de tudo que poderá tornar essa pessoa realizada e capacitada a ser aquilo que ela foi constituída para ser.
No início o indivíduo pode se deparar ainda com imagens distorcidas.A fase de adaptação pode ser longa e confusa. Atingir as profundezas de suas sombras é uma virtude que se adquire com precisão, persistência, coragem e humildade. Todos que passam por este processo aprendem a conviver como seus "nada, seus vazios e com a falta de explicação, pois entende que nem tudo pode ser explicado,pelo menos, naquela hora.Na verdade, o auto(conhecimento) é uma busca pela vida inteira. É uma Ode existencial à contemplação do Desconhecido tão temido e desejado ao mesmo tempo.É ir além do estabelecido e ultrapassar limites pessoais e sociais se arriscando a rupturas que levará o indivíduo a vivenciar o bem (agathón) , o belo (tokalón) , a verdade e a justiça (dikaiosyne). Sair dessa inconsistência e mergulhar na consciência de si mesmo e do outro , faz a pessoa adquirir novos modos de se apropriarmos de uma forma de vida estéril e alcançar um saber maior .
Para concluir,enfim, meu raciocínio devo admitir que a fantasia, as máscaras e as roupas em excesso podem ser bastante necessárias no carnaval, nas festas de fantasias ou até mesmo num período de adaptação a uma nova situação , pois nos caracterizamos com traços que sustentam e nos defendem de possíveis investidas inapropriadas e fora do tempo . Mas se esconder sempre diante de ameças apenas revela que o indivíduo esta impossibilitado de assumir responsabilidades, de engajar-se numa transformação legítima e não pode,portanto, se adaptar; o que poderá levar esse indivíduo a viver muito abaixo de seu potencial e, em casos extremos, até adquirir hábitos sintomáticos e formas patológicas de viver no mundo



Referencias:
[1] Whitmont,Edward C. p.140).( BOLETIM CLÍNICO - número 20- julho/2005 - PUC-SP)

[ 2]Carlos Antonio Fragoso Guimarães ,In Análise junguiana sobre o filme "Cisne Negro".


[5]Isabelle Fernandes Vieira de Matos Rocha - Acadêmica do 6º período do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, campus Betim.
[6]© obvious: http://lounge.obviousmag.org/de_dentro_da_cartola/2013/12/rashad-alakbarov-mestre-das-sombras.html#ixzz2qlKxkFsC Follow us: obviousmagazine on Facebook

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