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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Transtorno de Ansiedade Generalizada

Por Rosângela Brunet




Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja"Mario Quintana

A ansiedade é um dos transtornos psiquiátricos com maior número de sintomas físicos.Como já foi dito a ansiedade pode ser uma resposta fisiológica normal diante algum de uma situação ameaçadora (estímulo externo/ estressor , ou seja, é o corpo reagindo diante de alguma ameça("predador").Ela é chamada bio-adaptativa.O nosso cérebro se adaptou a se preparar para uma fuga diante de algo que pode ameaçar a espécie. Então, ela caba sendo um propulsor que ajuda na sobrevivência da espécie.O corpo reagindo pra fugir daquilo que pode lhe causar dano- Aumento do ritmo cardíaco , contração de vasos periféricos para que se concentre sangue em áreas vitais e aumento da frequência cardíaca respiratória)
Mas ela pode também ser reação não-adaptativa com sentimento de medo sem aparente razão, uma expectativa de que algo ruim esta para acontecer, uma apreensão e um preocupação excessiva. [1]

"O poder de tolerar dificuldades é a habilidade de ir além da influência de situações negativas. É ser capaz de não reagir, mesmo em pensamentos. Se alguém me oferece insultos, críticas ou raiva, eu posso permanecer pacífico e feliz com o poder da tolerância. Assim como a árvore que é atingida por pedras dá seus frutos em retorno, eu sou capaz de dar amor." Autor Desconhecido

Eu chamaria essa atitude de "Descanso Resiliente".É uma competência que precisamos desenvolver ,á fim de que possamos obter uma saúde mental de maior qualidade.
A ansiedade pode se manifestar em três níveis:Neuroendócrino, visceral e de consciência.O primeiro esta relacionado produção de adrenalina, noradrenalina, glucagon, hormônio antidiurético e cortisol. O nível visceral tem a ver com o Sistema Nervoso Autônomo (SNA) que reage a essas substâncias , e por último ,obviamente os resultados que isso provoca no nível de consciência/emocional/psicológica.se manifesta fisicamente na forma de sensações físicas como palpitações, dor no peito e/ou falta de ar. Se ela permanece por um tempo mais extenso pode pode dar origem a casos mais graves como : transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, fobia social e fobias específicas,transtorno obsessivo compulsivo e transtorno de estresse pós-traumático. .[2]

A ansiedade se torna patológica quando o indivíduo desenvolve uma reação não-adaptativa sob a forma desproporcional em direção a algum estímulo externo .Este estímulo pode ser realmente ameaçador,mas a reação é desproporcional; ou o estímulo pode não ser ameaçador e o indivíduo reage como se fosse.Em ambos os casos há uma reação não-adaptativa. Outra forma de manifestação é quando o indivíduo reage frente a um estímulo não ameaçador. Neste caso , ele já se condicionou a um estado de alerta, e não consegue relaxar frente a vida. Pessoas com este transtorno são sempre extremamente preocupadas com situações cotidianas, existindo ou não uma razão plausível para tal reação.Em geral viver o dia a dia já é um fator estressante, pois estão sempre na espera de algo ruim.

Segundo o DSM IV :Critérios Diagnósticos para F41.1 - 300.02 Transtorno de Ansiedade Generalizada



A. Ansiedade é uma preocupação excessivas (expectativa apreensiva), ocorrendo na maioria dos dias por pelo menos 6 meses, com diversos eventos ou atividades (tais como desempenho escolar ou profissional).
B. O indivíduo considera difícil controlar a preocupação.

C. A ansiedade e a preocupação estão associadas com três (ou mais) dos seguintes seis sintomas (com pelo menos alguns deles presentes na maioria dos dias nos últimos 6 meses). Nota: Apenas um item é exigido para crianças.

(1) inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele
(2) fatigabilidade
(3) dificuldade em concentrar-se ou sensações de "branco" na mente(4) irritabilidade(5) tensão muscular(6) perturbação do sono (dificuldades em conciliar ou manter o sono, ou sono insatisfatório e inquieto)
D. O foco da ansiedade ou preocupação não está confinado a aspectos de um transtorno do Eixo I; por ex., a ansiedade ou preocupação não se refere a ter um Ataque de Pânico (como no Transtorno de Pânico), ser embaraçado em público (como na Fobia Social), ser contaminado (como no Transtorno Obsessivo-Compulsivo), ficar afastado de casa ou de parentes próximos (como no Transtorno de Ansiedade de Separação), ganhar peso (como na Anorexia Nervosa), ter múltiplas queixas físicas (como no Transtorno de Somatização) ou ter uma doença grave (como na Hipocondria), e a ansiedade ou preocupação não ocorre exclusivamente durante o Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

E. A ansiedade, a preocupação ou os sintomas físicos causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

F. A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral (por ex., hipertiroidismo) nem ocorre exclusivamente durante um Transtorno do Humor, Transtorno Psicótico ou Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.





Condições Médicas Gerais Associadas~

Uma variedade de condições médicas gerais pode causar sintomas de ansiedade, incluindo condições endócrinas (por ex., hiper e hipotiroidismo, feocromocitoma, hipoglicemia, hiperadrenocorticismo), condições cardiovasculares (por ex., insuficiência cardíaca congestiva, embolia pulmonar, arritmia), condições respiratórias (por ex., doença pulmonar obstrutiva crônica, pneumonia, hiperventilação), condições metabólicas (por ex., deficiência de vitamina B12, porfiria) e condições neurológicas (por ex., neoplasmas, disfunção vestibular, encefalite). Os achados associados do exame físico, achados laboratoriais e padrões de prevalência ou início refletem a condição médica geral etiológica.

Diagnóstico Diferencial

Um diagnóstico separado de Transtorno de Ansiedade Devido a uma Condição Médica Geral não é dado se o distúrbio de ansiedade ocorre exclusivamente durante o curso de um delirium. Se a apresentação inclui um misto de diferentes tipos de sintomas (por ex., humor e ansiedade), o Transtorno Mental Devido a uma Condição Médica Geral específico depende dos sintomas predominantes no quadro clínico. Se existem evidências de uso recente ou prolongado de substância (incluindo medicamentos com efeitos psicoativos), abstinência de uma substância ou exposição a uma toxina, um Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância deve ser considerado. Pode ser útil obter um exame de urina ou sangue ou outra avaliação laboratorial apropriada. Os sintomas que ocorrem durante ou logo após (isto é, em 4 semanas) a Intoxicação ou Abstinência de Substância ou após o uso de medicamentos podem ser especialmente indicativos de um Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância, dependendo do tipo, duração ou quantidade da substância usada. Se o clínico determinar que a perturbação se deve tanto a uma condição médica geral quanto ao uso de uma substância, ambos os diagnósticos (isto é, Transtorno de Ansiedade Devido a uma Condição Médica Geral e Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância) podem ser dados. O Transtorno de Ansiedade Devido a uma Condição Médica Geral deve ser diferenciado de um Transtorno de Ansiedade primário (especialmente Transtorno de Pânico, Transtorno de Ansiedade Generalizada ou Transtorno Obsessivo-Compulsivo) e de um Transtorno de Ajustamento Misto de Ansiedade e Depressão (por ex., uma resposta mal-adaptativa ao estresse de ter uma condição médica geral). Nos transtornos mentais primários, não é possível demonstrar quaisquer mecanismos fisiológicos específicos e causadores associados com a condição médica geral. Uma idade de início tardia e ausência de história pessoal ou familial de Transtornos de Ansiedade sugerem a necessidade de uma completa avaliação para descartar o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Devido a uma Condição Médica Geral. Além disso, sintomas de ansiedade podem ser um aspecto associado de um outro transtorno mental (por ex., Esquizofrenia, Anorexia Nervosa). O diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Sem Outra Especificação aplica-se quando o clínico não consegue determinar se o distúrbio de ansiedade é primário, induzido por substância ou devido a uma condição médica geral."[3]
Segundo o CID 10 "O transtorno de ansiedade generalizada ou desordem de ansiedade generalizada caracteriza-se por um estado de ansiedade excessiva persistente que não depende do contexto e é desproporcional aos fatos que ocorrem na maior parte dos dias por um período de pelo menos 6 meses. O transtorno é diagnosticado segundo os critérios do DSM-IV.2
Essa preocupação excessiva interfere na vida de quem sofre da doença em diversas atividades (como profissional, social e acadêmica), antecipam desastres e estão superpreocupadas com questões da vida, como saúde, dinheiro, morte, problemas de família, problemas sociais, etc".

Este transtorno é diagnosticado segundo os critérios do CID 10(OMS,1993) :

Os Principais sintomas são:
  • Preocupação excessiva sobre coisas corriqueiras por pelo menos 6 meses, mesmo que exista pouca ou nenhuma razão para preocupação 
  • Não poder controlar suas preocupações constantes. 
  • Saber que se preocupa mais do que deveria. 
  • Não conseguir relaxar. 
  •  Dificuldade de concentração. 
  • Assustar-se facilmente. 
  • Ter problemas para dormir. 
  • Irritação. 
  • inquietação 
Sintomas Físicos 

Cansaço sem ração. 
Palpitação,opressão no peito 
Dor de cabeça. 
Tensão e dores musculares. 
Tremores e espasmos, tensão muscular 
Sudorese. 
Náusea,vômitos , diarreia (Sintomas gastrointestinais) 
Tontura. 
Falta de ar 
Ter que ir muito ao banheiro 
Ondas de calor. 

Enfim,os sintomas físicos e viscerais variam de pessoa para pessoa 

Diagnóstico:
Inicialmente conhecer a história do paciente é importante ,pois em geral pessoas cuja família possui algum quadro de doença psiquiátrica tem maior probabilidade de desenvolver ansiedade.Conhecer o quadro atual deste paciente em relação a sua vida psico-sócio-econômica também é necessário .Mas o exames físicos são extremamente importantes para descartar qualquer possibilidade de algum caso com base orgânica.

Tratamento:

Muitos tratamento tem sido utilizado para a ansiedade normal como caminhar, relaxar através de técnicas de relaxamento.Mas em casos de ansiedade patológica é necessário medidas cientificamente comprovadas.como
  • Medicação Adequada e prescrita por um psiquiatra 
  • Psicoterapia: 
  • Mudança de hábitos: exercícios físicos, equilíbrio de seus horários de trabalho, higiene do sono, criação de "áreas de lazer" na grade horária semanal. 
Max Lucado falou uma vez; "Precisamos ser pacientes, mas não ao ponto de perder o desejo; devemos ser ansiosos, mas não ao ponto de não sabermos esperar.Enfim, deixar Ser aquilo que é pra ficar .Deixa ir aquilo que não é pra viver.Como disse Cecília Meireles"Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim... Eu deixo aroma até nos meus espinhos ao longe, o vento vai falando de mim. E por perder-me é que vão me lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim." Cecília Meireles"
Segundo Ballone "A revisão sobre esse tema acaba sempre contrapondo trabalhos de autores que defendem três tendências diversas; a unidade dos distúrbios ansiosos e depressivos como sendo o mesmo fenômeno, a dualidade entre esses dois estados afirmando tratar-se de distúrbios diferentes e as formas mistas como uma entidade específica com sintomas depressivos e ansiosos.
Tais diferenças são, sem dúvida, decorrentes das diversas maneiras de se conceituar esses estados emocionais e das diversas metodologias dos trabalhos científicos. As diferenças vão da conceituação semântica, calcada na multiplicidade de conceitos de Ansiedade e Depressão, até a interpretação metodológica das observações.
As diferentes pesquisas têm demonstrado não existir até agora uma posição inequívoca para o problema das relações entre Depressão e Ansiedade. Diante dessa polêmica vamos encontrar sempre circunstâncias onde estes quadros se associam.
Embora não possamos saber ainda, com certeza, se Ansiedade e Depressão são a mesma doença, ao menos tem sido consensual o fato dos antidepressivos atuarem satisfatoriamente nos quadros ansiosos tanto quanto nos depressivos (Feighner, 1996). Ainda que o termo comorbidade de Ansiedade e Depressão satisfaça uma postura politicamente correta, a pouca diferença de resultados no tratamento desses quadros com antidepressivos, notadamente os ISRS, aponta para uma satisfatória solução clínica (Rodney e cols, 1997, Kuzel RJ, 1996).

Ballone exlica:





Ansiedade e Depressão: comorbidade, causa ou conseqüência?


Atualmente tem-se enfatizado muito a teoria unitária, pela qual a Ansiedade e aDepressão seriam duas modalidades sintomáticas da mesma afecção. As atuais escalas internacionais de Hamilton para avaliação de Depressão e de Ansiedade, não separaram nitidamente os dois tipos de manifestações. Outras escalas anteriores também mostravam a mesma indiferenciação entre os dois quadros emocionais (Johnstone e cols, 1986, Mendels, 1972).
A tendência unitária Ansiedade-Depressão se reforça ainda na eficácia do tratamento com antidepressivos, tanto para quadros ansiosos, como é o caso do Pânico, Fobia Social, do Transtorno Obsessivo-Compulsivo e mesmo da Ansiedade Generalizada, quanto para os casos de Depressão, com ou sem componente ansioso importante.
O número de autores que não acreditam na Ansiedade e Depressão como sendo a mesma coisa, aos quais nos juntamos, é expressiva maioria, entretanto, quase todos reconhecem existir alguma coisa em comum nesses dois fenômenos. Acreditamos, pois, na necessidade quase imperiosa de um substrato afetivo e de carater depressivo para que a ansiedade se manifeste patologicamente. O mesmo requisito afetivo não se necessita para a ansiedade normal e fisiológica. Talves seja por isso que os quadros ansiosos respondem tão bem à terapêutica antidepressiva.

Causa ou Conseqüência ?

O estudo de, Stavrakaki e Vargo (1986), onde são reavaliadas pesquisas dos últimos 15 anos, sugere três tipos de abordagem da questão Ansiedade versus Depressão:

1- Ansiedade e Depressão diferem qualitativamente;
2- Ansiedade e Depressão diferem quantitativamente e;
3- Ansiedade se associa à Depressão.

Saber com certeza se a Ansiedade pode ser uma das causas de Depressão ou se, ao contrário, pode surgir como conseqüência desta ou, ainda, se uma nova entidade clínica independente se constitui quando ambos fenômenos coexistem num mesmo paciente, tem sido uma questão aberta à pesquisas e reflexões.
Strian e Klicpera (1984) consideram um quadro unitário de Depressão-Ansiedade eClancy e cols (1978) constata que o humor depressivo antecede com freqüência ao primeiro ataque de pânico. Há observações do Transtorno Ansioso aparecer em pessoas com caráter predominantemente depressivo (Lader, 1975), e considera o paciente ansioso como portador de um tipo de Depressão endógena (Salomon, 1978). Ansiedadee Depressão são cogitados também como aspectos diferentes do mesmo Transtomo Afetivo por Downing e Rikels (1974).
O atual Transtorno Depressivo Persistente (Distimia), com ou sem a sintomatologia somática, foi cogitado como reflexo de sintomas depressivos mais francos e profundos, enquanto os quadros ansiosos seriam os casos onde o afeto depressivo se manifestaria atipicamente (Gersh e Fowles, 1979).

Componente Biológico da Ansiedade e Depressão

A serotonina tem um papel chave na regulação do humor (ou afeto) e da ansiedade. Tentando explicar porque os antidepressivos atuam brilhantemente nos transtornos da ansiedade, estudos com voluntários no Reino Unido medicados com antidepressivos inibidores seletivos de recaptação da serotonina – ISRSs, apresentaram modificação importante na percepção dos sinais de ameaça (Hammer e cols., 2006). Isso indica que a medicação afeta, inicialmente, como percebemos o perigo e, como conseqüência, a reatividade emocional em termos de Ansiedade diminui.
A preocupação que é típica daAnsiedade resulta em uma baixa capacidade em tomar decisões, relacionamentos disfuncionais, diminuição do desempenho no trabalho e tendência ao isolamento social.
OTranstorno de Ansiedade Generalizada aumenta o risco deDepressão e abuso de álcool subseqüentes e, possivelmente, de doença cardiovascular"[4]

Referência:


[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_da_ansiedade
[2]http://www.psiq.med.br/index.php?opcao=ver_tema&id_tema=18&id_cat=3
[3[ DSM IV :Critérios Diagnósticos para F41.1 - 300.02 Transtorno de Ansiedade Generalizada
[4]Ballone GJ - Depressão e Ansiedade - in. PsiqWeb, Internet, disponível emhttp://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2007.:http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=76

domingo, 1 de setembro de 2019

Violência Psicológica ou Emocional é crime. Está no artigo 7 da Lei Maria da Penha

Por Rosangela Brunet

Violência Psicológica . Você SABE O QUE É?




Eu reuni alguns autores como referência para falar do conceito e das evidências. Em primeiro lugar é necessário falar sobre os vários tipos de violência. 
De acordo com as definições da Unesco (apud ABRAMOVAY, 2002), existem diferentes tipos de violência a citar:
a) Violência direta (física, sexual, negligência): pode resultar em danos irreparáveis à vida do indivíduo, como na saúde, na liberdade e conseqüentemente na vida;
b) Violência indireta: representada por ações coercitivas ou agressivas que impliquem em prejuízo psicológico ou emocional;
c) Violência econômica: abrange prejuízos causados ao patrimônio, à propriedade, principalmente os resultantes dos atos de delinquência e criminalidade contra os bens, tais como o vandalismo;
d) Violência moral ou simbólica: alcança as relações de poder interpessoais ou institucionais que cerceiam a livre ação, pensamento e consciência do indivíduo. É centrado na ideia da violência pela autoridade." (1)

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) "a violência é  o “uso intencional da força ou poder em uma forma de ameaça ou efetivamente, contra si mesmo, outra pessoa ou grupo ou comunidade, que ocasiona ou tem grandes probabilidades de ocasionar lesão, morte, dano psíquico, alterações do desenvolvimento ou privações”.Definiremos também a violência psicológica. No trecho abaixo ela foi utilizada para as crianças, mas pode ser estendida para qualquer raça, gênero, etnia.Constitui toda forma de rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, cobranças exageradas, punições humilhantes e utilização da criança ou do adolescente para atender às necessidades psíquicas dos adultos. Todas essas formas de maus – tratos psicológicos causam danos ao desenvolvimento e ao crescimento biopsicossocial da criança ou do adolescente, podendo provocar efeitos muito deletérios na formação de sua personalidade e na sua forma de encarar a vida. Pela falta de materialidade do ato que atinge, sobretudo, o campo emocional e espiritual da vítima e pela falta de evidências imediatas de maus – tratos, esse tipo de violência é dos mais difíceis de serem identificados (Brasil, 2002, citado por Signorini & Brandão, 2004, p.298-299)A violência é uma questão social e, portanto, não é objeto próprio de nenhum setor específico. Segundo Minayo (2004), ela se torna um tema mais ligado à saúde por estar associada à qualidade de vida; pelas lesões físicas, psíquicas e morais que acarreta e pelas exigências de atenção e cuidados dos serviços médico-hospitalares e também, pela concepção ampliada do conceito de saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde seria o completo bem – estar físico, mental, social e espiritual dos indivíduos.De acordo com Schraiber e D"oliveira (1999), mesmo nos dias atuais, em que, de fato, estamos nos voltando para a violência como grande problema social, esta não encontra um adequado e profícuo canal de publicidade: não existe ainda um lugar social e um campo de intervenção e saberes que a reconheça como objeto próprio: como seu alvo de estudos e de atuação. Sem reconhecimento e definição de seu lugar no mundo da ciência se torna difícil o relato e a exposição de seus detalhamentos. Ainda de acordo com Schraiber e D"oliveira (1999), é por este motivo que muitos que estudam o fenômeno apontam para sua invisibilidade social. Ou seja, esta impossibilidade de ter um lugar no discurso da ciência e nas práticas sociais, bem como não haver uma linguagem apropriada para nomeá-la e lidar com suas questões internas – dos seus determinantes, antecedentes, das suas conseqüências, no âmbito da vida e da saúde da população.(2)
Enfim, violência psicológica é um dano emocional enorme causado por humilhação, constrangimento, censura e critica sistemática, acusações , culpas constantes e cobranças de algo além da "capacidade" do indivíduo e palavras que diminuem ou envergonhem uma pessoa.
Quando me refiro "capacidade " na frase acima quero dizer sobre o estado emocional da pessoa naquele momento, habilidades ainda não desenvolvidas, e até mesmo funções que não dizem respeito aquela pessoa.
Segundo (Day & colaboradores, 2003): (...) toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um membro da família. Pode ser cometida dentro e fora de casa, por qualquer integrante da família que esteja em relação de poder com a pessoa agredida. Inclui também as pessoas que estão exercendo a função de pai ou mãe, mesmo sem laços de sangue."

Quando falamos de violência psicológica é preciso levar em conta que não são apenas mulheres que sofrem esse tipo de abuso. As crianças, os doentes, os idosos, os mais frágeis emocionalmente ou financeiramente ou o os dois.
Isso tudo produz muita dor e faz com que as pessoas se sintam desprezadas, ,envergonhadas,humilhadas, desvalorizadas, culpadas,etc. E, assim, comprometendo sua auto estima ,  autoconfiança e perdendo a noção de sua identidade e direitos como sujeito e cidadão.
Se , se conscientizar a família ou o parceiro(a) não for suficiente para reprimir este ato de covardia , a única forma de resolver estes casos de abuso emocional é enquadrando a pessoa no artigo 7 da Lei Maria da Penha . Ainda que a pessoa seja o marido, pai, mãe, irmã,etc. A vítima tem que ser amparada.
Mas é preciso começar a fazer estes casos diminuírem. Em meus atendimentos uma porcentagem assustadora inclui violência Psicológica sofrida na infância por famílias que possuem relacionamentos abusivos, e consequentemente a pessoa perpetua isso até a vida adulta


Mas como denunciar esse tipo de crime? Você não verá hematoma no corpo e nem olho roxo, mas. vc vai encontrar uma pessoa despedaça por dentro e que não sabe como. provar que está sendo vítima desse crime.
Há ainda alguns casos em que a pessoa nem sabe que está sendo abusada emocionalmente. 90% das pessoas q já atendi até hoje sofreram abuso psicológico e não sabiam.
Ajude a a mudar esta mentalidade ao divulgar essa postagem. A ignorância está fazendo vitimas e reféns .
Segundo Iara Biderman e Filipe Oliveira em um artigo para Folha de São Paulo explica: "Nao há flagrante. Não há, tampouco, marcas roxas lá no corpo para provar a agressão.Fala-se "Psicológica" porque é o adjetivo usado para tentar definir uma forma de violência silenciosa --por mais que o silêncio seja feito de palavras, acusações, cobranças. Ou gestos, olhares, sarcasmo, piadas.A complexidade da violência psicológica não impede que esse crime tenha uma definição legal. Está no artigo 7 da Lei Maria da Penha, que descreve muito bem constrangimentos, ridicularização e perseguição, entre outras ações causadoras de danos emocionais.Onde procurar ajuda se você é vítima de violência psicológica
"É difícil explicar aos outros onde está a sua dor", diz o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.
É difícil perceber quando, no relacionamento, seja afetivo ou familiar, o jogo do amor vira o da dominação e de poder. O pano de fundo é a vontade de anular o outro, torná-lo refém dos próprios desejos...." (3)

EVIDÊNCIAS
"Violência psicológica é toda ação ou omissão que causa ou visa causar dano à auto-estima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. Inclui: ameaças, humilhações, chantagem, cobranças de comportamento, discriminação, exploração, crítica pelo desempenho sexual, não deixar a pessoa sair de casa, provocando o isolamento de amigos e familiares, ou impedir que ela utilize o seu próprio dinheiro. Dentre as modalidades de violência, é a mais difícil de ser identificada. Apesar de ser bastante freqüente, ela pode levar a pessoa a se sentir desvalorizada, sofrer de ansiedade e adoecer com facilidade, situações que se arrastam durante muito tempo e, se agravadas, podem levar a pessoa a provocar suicídio. (Brasil, 2001)" (4)

"A violência psicológica é caracterizada por atitudes, comportamentos e expressões que procuram rebaixar e/ou negar a maneira de ser de uma outra pessoa. É normal que tenhamos momentos de irritação, raiva e revolta. Mas a questão na violência psicológica é que isto não é algo eventual. Trata-se de maneira que o (a) agressor (a) costuma estabelecer com uma pessoa que têm como objetivos: manter o controle, o poder e subordinação da pessoa agredida.
As mais frequentes e conhecidas violências de natureza psicológica são: controle, desqualificação e o isolamento. O controle é exercido por práticas de monitoramento através de perguntas e pesquisas continuas, repetitivas e inquisidoras sobre atitudes, comportamentos, sentimentos, deslocamentos, intenções e interações com mundo realizados pela pessoa controlada.
O controlador (a) precisa ter certeza de que a pessoa não sairá do seu domínio e para isso, adentrará no espaço psíquico e nos objetos pessoais da pessoa controlada (o). A vítima deste tipo de violência se sente invadido (a), sufocado (a) e aprisionado (a).
Para evitar confrontos e divergências, a pessoa controlada aceita as práticas uma vez que este tipo de prática se instala em relações assimétricas em que um detém o poder dentro da relação.
Já a desqualificação se faz através de palavras e atos que visam menosprezar, desqualificar e desconsiderar habilidades, sentimentos, palavras, a maneira de ser e pensar da pessoa controlada.
Este tipo de violência causa prejuízos para autoestima trazendo sentimentos de inutilidade e insegurança em relação ao que você é e/ou faz. Estas consequências fazem com que a pessoa recorra ao juízo de quem desqualifica o que só reforça as consequências deste violento." (5)

REFERÊNCIAS:

1Evidências sobre violência e deficiência: implicações para futuras pesquisas http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382007000100009
2Violências: lembrando alguns conceitos: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-
3 IARA BIDERMAN, DE SÃO PAULOe FILIPE OLIVEIRA, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
4Violência silenciosa: violência psicológica como condição da violência física doméstica* http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832007000100009
5 Violência Psicológica: Quando Palavras Machucam https://opsicologoonline.com.br/violencia-psicologica-quando-palavras-machucam/
6 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/95552/lei-maria-da-penha-lei-11340-06#art-7


LEIS QUE AMAPARAM

"Há uma Lei nº 10.778/03, que estabelece a notificação compulsória da violência contra a mulher atendida nos serviços de saúde, sejam eles públicos ou privados. Este fato também é previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (Brasil, 1990). E antes pela Constituição Federal de 1988 (Art. 227), sendo obrigatória a notificação de casos suspeitos ou confirmados, prevendo penas para quem não o fizer.
Para evitar mais distorções, a Conferência de Direitos Humanos de 1993 gerou uma definição oficial das Nações Unidas sobre a violência contra a mulher: “todo ato de violência de gênero que resulte em, ou possa resultar em dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico da mulher, incluindo a ameaça de tais atos, a coerção ou a privação arbitrária da liberdade, tanto na vida pública como na vida privada” (p. 3)."(4)

Lei Maria da Penha artigo 7.II

" a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; Ver tópico (24739 documentos)" (6)





segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Alexitimia.



Às vezes nós não encontram as palavras para expressar nossa dor e, em troca, nosso corpo o faz. Nós não sabemos exatamente o que acontece conosco para que o resto possa nos entender. Essa incapacidade de combinar nossas palavras com as emoções é conhecida no campo da psicologia como alexitimia.


Normalmente essa deficiência tem sua origem em um sistema de comunicação familiar inexistente ou deficitário. Muitas das doenças psicossomáticas atuais nos dão uma pista sobre as necessidades não satisfeitas da população: escuta, empatia, amor.


Somatizar significa transformar uma dor emocional em física, talvez devido à incapacidade de expressar corretamente a primeira. Uma incapacidade que deve ser entendida e tratada como a origem de um problema que cumpre uma função: comunicar com o corpo o que nossa mente quer expressar e nossa voz não é capaz de reproduzir.






Origem psicológica, sintomas físicos reais em nosso corpo


O fato de os distúrbios psicossomáticos terem origem psicológica não significa que eles não se manifestam em sintomas físicos reais. Sintomas que doem, incomodam e que acabam interferindo na vida de uma pessoa e no seu desenvolvimento satisfatório.


Não é de surpreender que nos transtornos de humor, como depressão, estados vegetativos sejam observados, uma mudança no padrão de sono habitual e muitas queixas somáticas: a tristeza está sendo somatizada.


Existem muitos tipos de depressão, algumas sr caracterização porque o paciente adota uma atitude agressiva e outras porque se adota uma atitude passiva. Em ambas, não se comunica o que se sente ou não se comunica adequadamente e esta sensação se transforma em mal estar psicológico e físico.



O preço de ser forte a todo custo leva à somatização


Quando não nos comunicamos, assumimos implicitamente que não seremos ouvidos, que não temos estratégias sociais para nos fazer entender ou que seremos rejeitados de imediato. Em um mundo onde nos é dito que ser forte é a qualidade de ouro, ninguém quer usar barras de ferro nos pés.


Muitas das pessoas não expressam seu desconforto porque não encontram as palavras para isso ou simplesmente aprenderam que, se o fazem, “serão expostas”. Isso por si só não vai culpar os pais ou responsáveis, mas a sociedade em geral. Somos ensinados sobre todos os tipos de assuntos, mas o assunto de nos conhecermos emocionalmente permanece pendente.


“De repente, um dia nos sentimos paralisados. Nós nos perguntamos de onde vem tanta dor e por que meu corpo não dá razões claras para explicá-la. As razões estão na mente; mas eles são anestesiados.”


O resultado dessa ideia é bastante evidente: evitamos expressar como nos sentimos e quando queremos nos dar conta, já não sabemos por que nos sentimos mal, temos uma amnésia retrógrada que nos impede de chegar à raiz real do problema, por que dói tanto e de onde isso veio?
Tratamento de pacientes que somatizam por parte dos profissionais de saúde




A atenção integral da pessoa que consulta uma desordem de somatização é bastante deficiente às vezes. Essas pessoas precisam de atenção médica e psicológica . Às vezes, eles são acusados ​​de histriônicos , simuladores ou fictícios quando não têm nada a ver com isso.


Diferentemente dos hipocondríacos, aqui a pessoa não está convencida de que tem uma doença, e não sabe o que está acontecendo com ela.


Talvez seja verdade que elas têm um sistema amplificador de sintomas e um foco muito centrado nisso. Por exemplo, uma pessoa com alto grau de neuroticismo pode apresentar esse padrão de busca e verificação excessiva dos sintomas.





Portanto, essa pessoa pode estar mais focada em seus sintomas e, por isso, seu estilo ansioso está encrudescendo. Mas os sintomas estão aí, são reais: dores de cabeça, desconforto gastrointestinal, fadiga crônica persistente, etc.
Tratamento de doenças somáticas


O paciente deve ser tratado INTEGRALMENTE, levando em conta as características psicológicas que podem estar influenciando seus sintomas físicos e também avaliar como seus sintomas físicos agravam o quadro psicológico.


Em muitos casos, quando uma doença somática não é tratada corretamente, ela se torna crônica e uma consequência lógica e terrível pode aparecer para a pessoa que a sofre. A doença, já crônica, faz com que a pessoa evite qualquer atividade social ou altere sua rotina, acreditando que evita o desconforto e que seus sintomas serão mais controlados em sua rotina diária. Pouco a pouco, a pessoa está deixando de lado sua vida por seus sintomas.


As doenças psicossomáticas são reais e necessitam de tratamento específico e ajustadas às características do paciente. Uma vez que as patologias orgânicas foram descartadas, os profissionais devem ser capazes de entender o que o corpo está dizendo, porque a boca se cala, sem dar razão a uma causa específica. Você quer saber mais sobre doenças psicossomáticas?



Ilustração: césar biojo

Tradução do texto Pensamento Contemporâneo https://www.pensarcontemporaneo.com/quando-a-boca-cala-o-corpo-fala/?fbclid=IwAR2wP5MBaqXsPOpJuP720YX-i1ZUqfBJ8xm-oFAeEranDI7jLwGFw9oLdXY





































terça-feira, 20 de novembro de 2018

Um caso Clínico sobre TAB- Transtorno Afetivo Bipolar



Por Rosangela Brunet

Para falar sobre esse caso clínico    é necessário falarmos um pouco sobre o que é o TAB- Transtorno Afetivo Bipolar ,cujo  quadro clínico apresenta  o transtorno de humor e do afeto.   o qual interfere na forma de sentir e de pensar do indivíduo
 Nesse quadro há uma oscilação sucessiva de humor que pode variar de intensidade, frequência e duração.

Como os sintomas do humor depressivo pertencente tb a este quadro já é conhecido de muitos , aqui falarei dos   sintomas mais frequentes na fase da hipomania, os quais são baseados no aumento de energia excessiva:


Esses sintomas  constam no DSM V e no CID-10

1. Euforia Exuberante  e Agitação psicomotora : Percepção de muita energia, onde a pessoa sente muita disposição e não tem vontade de dormir. É capaz de passar a noite em claro e continuar o dia com muita energia.Diferente da insônia,onde a pessoa ,depois de uma noite sem dormir se sente muito mal
2. Excesso de Autoconfiança: Devido a excessiva autoconfiança e autoestima exagerada  mostra muita desinibição e expansividade no trato em suas relações sociais. conversa com desconhecidos e é capaz de falar coisas constrangedoras sem limite. Fala sobre assuntos que são íntimos ou até conversam sobre assuntos de família onde colocam as pessoas em situações constrangedoras
3. Irritabilidade e impaciência crescente podendo   apresentar hostilidade e agressividade
4.Comunicabilidade exaltada Fala excessivamente e pensa de forma acelerada.Seu pensamento pode também ser fugaz. Começa com uma ideia e vai pulando para outra com muita rapidez.
5. Descontrole ao coordenar ideias e desvio de atenção: Muda de atividade sem terminar a que esta executando baseado em algum estímulo visual sonoro ou olfativo
6. Delírio de grandeza que varia de intensidade em função de cada tipo. Por exemplo , no caso um a pessoa pode apresentar delírio de ser muito rico, pode sofrer de alucinações devido a alta sensibilidade aos estímulos externos de cores, sons ,etc. No caso do tipo II , a pessoa pode apresentar um delírio mais leve,porém também comprometedor em função das relações sociais, pois a pessoas acreditar ter habilidades e capacidades além da realidade.Isso ocorre em função de sua percepção excessiva de energia. Há casos em que a pessoa pode se comprometer em projetos megalomaníacos  na a´rea financeira ou em qualquer a´rea trazendo grandes prejuízos para si mesmo e para a família. Na melhor das hipóteses compram excessivamente.
7. É um transtorno que afeta o convívio da pessoa na sociedade..Causa impacto nas relações altera sua produtividade: Todas essas mudanças comportamentais podem comprometer os relacionamentos familiares ,afetivos, sociais, profissional, , posição econômica e segurança do indivíduo.

O TAB pode se apresentar de forma leve,moderada e grave. Temos o Tipo I,II e misto. Veja abaixo uma gráfico de oscilação que representa as curvas referente a estas variações de humor depressivo , hipomania e mania

Para exemplificar esse transtorno eu trouxe   um caso clínico  para melhor entendimento. Neste caso , a pessoa em terapia tem um Transtorno depressivo Maior,  se recuperando de um quadro de dependência emocional e co-dependência.
Se trata de uma mulher de 41  anos , divorciada, sem filhos que iniciou um relacionamento com uma pessoa com TAB após dois anos de psicoterapia. Nesse relacionamento ela mostra através de seus relatos a dinâmica dessa relação entre duas pessoas que se encontram em um estado imaturidade do Eu.

Sabe-se que há relacionamentos que não se suportam por não haver maturidade emocional. Como disse Renato Dias Martino "escolhemos nossos pares em relação a maturidade do nosso Eu"
 Por mais que se possa empenhar esforços e grande energia para se manter uma relação, quando ambos não se tornam maduros suficientes emocionalmente ,  o que o casal  chamava de amor logo se constata que não  passava de uma ilusão do ego.
Como disse, vou ampliar  esse assunto usando esse caso cujo nome fictício será Anabelle, a qual depois de algum tempo de terapia abandona a ilusão de estar vivendo um grande amor e começa a aceitar sua verdade entrando em contato com sua realidade externa e tomando consciência de suas reais  necessidades     
Antes devo lembrar e me solidarizar com Anabelle , considerando  que não é fácil se desvencilhar de uma fantasia, já que para abrir mão dela     é preciso estar pronta para admitir sua própria verdade, cujo processo é sempre muito doloroso ,além de ter que abrir mão de um grande prazer temporário, o  qual serve como tamponamento de um possível vazio ou de uma grande dor que o sujeito não quer enfrentar. Após algum tempo trabalhando esses conteúdos internos com   essa pessoa ,  esse relacionamento chegou ao fim.


Obra de Harding Meyer
Segue um trecho sobre Anabelle


"Todos os dias ela tentava superar aquela nuvem negra que atravessava sua alma.
Ela não sabia pular daquela Ponte que a levava ao futuro. Tudo que Anabelle conhecia era dor e angústia.
Ela usava todos os dias seu trampolim de emoções e caía no vão de seu próprio inferno. Ela só se sentia viva em seu tobogã de.....
Seus olhos, longes de si mesmo, gritavam por alguma migalha de paz. Mas o mundo sempre parecia lhe dizer :não
Em cada esquina buscava um amor. Talvez esbarrasse em si mesmo no espelho. Talvez tropeçasse em seus pedaços perdidos.
Mas no fundo sempre sussurrava para ela quando a dor aumentava : fuja . Não ha saída.
Mas ela havia lido que nunca se sabe em que beco da vida o mundo seria gentil e colocaria seu bálsamo para curar aquele pássaro ferido que habitava nela.
Nunca se sabe em que chão de verdade alguém a encontraria para a libertar aquela alma perdida.
Ela pensava: - Há rumores de que alguém chegaria com sua espada e traria justiça para seu coração quebrado.
Um mito de outro mundo que viria com seu cetro e restauraria seus sonhos
Mas no meio da noite Anabelle acordava ,corria para sua janela,olhava angustiada o trajeto escuro de sua rua, e tudo que via era chuva caindo no frio intenso do corredor de seu ser.
Tudo que conseguia tocá-la era o ríspido e duro inverno de alguém que morreu de tanto esperar.
Era Ana que esperava ser bela. Era uma ilusão que cortava seus pulsos.
Era um espanto que não achava descanso. Era uma estrada sem Luz,um chão sem raiz,uma Primavera que não chegou
.

Segue abaixo a parte inicial da carta que faz parte da fase de encantamento da paixão,onde ambos estão vivendo uma grande confluência* , onde nada e ninguém pode macular essa imagem que um faz do outro.

"Quando te conheci você me encantou com sua bondade, amor, delicadeza e humanidade. Eu me abri para você como semente que caiu da terra pronta para fecundar ,após muitos  muitos anos estéril  Entreguei-me de forma incondicional por acreditar em um ser humano maravilhoso que vi em você. Nesse momento eu desejei você na minha vida em todas as instâncias.  E ter você como amigo para sempre me fez resgatar minha esperança na vida e nas pessoas Tem uma música que diz : “O meu amor é o meu melhor amigo.”Achei, então, que tivesse encontrado meu grande amor. Acreditei que pudesse confiar em você, me abrir sem medo, me entregar sem  hesitação."
Após esse relato se inicia o momento em que a pessoa começa a perceber a realidade. Ela agora saiu de seu estado de paixão e chegou a hora do teste de realidade,onde as diferenças começam a aparecer. E   nesse momento ela terá que decidir entre viver um   amor ou uma fantasia. 
   Com o tempo ela  foi descobrindo que ele ganhava um pouco mais de um salário mínimo. Apesar de ser trabalhador não tinha muita expectativa de conseguir um emprego melhor, pois além de estar  com  um problema cardíaco  que sem tratamento poderia levá-lo a morte, ele  sem condições de se tratar adequadamente por questões financeiras, e ela, impossibilitada de   ajudar também por várias razões. Descobriu também que  ele  havia sido diagnosticado de TAB. e não estava se tratando . No início do relacionamento procurara saber por alto o que seria aquilo, mas fez vista grossa para tudo isso.
Agora ela sabia que não  poderia mais investir em um relacionamento sem futuro

No caso de Anabelle   encontramos um caso clássico de carência afetiva, dependência emocional e imaturidade do Eu.


"A dependência emocional é um transtorno caracterizado por comportamentos aditivos em relacionamentos amorosos. Entretanto, ainda há debate se esta dependência seria considerada uma patologia, como denominá-la e quais sintomas a definiriam..." 1

Anabelle começa s sentir  um grande desconforto e sua insatisfação com relação em relação a esse  relacionamento  


"Antes de continuar gostaria de dizer que você esta muito enganado quando diz que eu nunca tive alguém que me entendesse e me amasse assim como você. Eu já tive sim, um homem que me entendia muito bem e me amava.   Foi uma experiência muito bonita e eu a guardo com muito carinho.   
Com o tempo compreendi sua narrativa. Percebi como você funcionava. Comecei a juntar os pontos , e o que para mim era encantamento ,se tornou um sintoma claro de um quadro clínico que eu fiz questão de negar. Como vc disse eu fui cega mesmo, mas cega de crer. 
 Uma coisa que me chamou a atenção foi o fato de vc ter me contado que sempre se relacionava com alguém onde vc ajudava a pessoa, se doava e depois ela te deixava.
Eu comecei a ficar com medo que isso se repetisse comigo também ,pois eu estava apaixonada por você e não queira te perder.(dependência emocional)
Comumente você tinha esse discurso de ser “o salvador” de alguém que foi uma vítima de outro alguém, de alguma situação injusta, de alguma fatalidade; ou até estivesse passando por um processo ,onde não possuísse uma resposta para suas crises. Você era aquele que entrava na vida dessas pessoas para salvá-la. Um caso clássico de co- pendência
Comecei a me sentir muito mal e invadida quando vi esse mesmo discurso comigo. Desde o início em que eu comecei me abrir com vc esse discurso de salvador se iniciou. Eu fui ficando reticente, mas continuei me abrindo. 
 O romantismo acabou, minha fé ficou abalada, comecei a fazer intervenções em nossas conversas que começaram a se tornar nocivas para nós, pois saímos da nossa “zona de conforto”
Deixei claro que eu não preciso de um Salvador, que eu posso conquistar minhas coisas sozinhas sem dever nada a você. Eu desejava que vc me visse como uma mulher, e não como uma presa a ser salva de outros homens que me machucaram, ou de algum tipo de situação mal resolvida em mina vida.
Você me fazia sentir sempre diminuída ,com baixa auto estima.Só percebi isso quando resolvi terminar esse relacionamento. Você sempre me fez sentir   uma pessoa problemática, a qual você estava  generosamente se empenhando para salvar  de mim mesma. Depois dessa carta me sento mais livre e mais autoconfiante para continuar minha vida 
  
 Meu tempo é diferente do teu e eu percebo em mim uma necessidade de  ter minha própria experiência de conquista e de superação  dos meus desafios. Depois de conseguir sozinha eu poderei compartilhar com qq um meus projetos,meus sonhos, minha vida.Mas    antes eu preciso me testar ,me   conhecer , me desafiar e me transcender. Por isso, recuo e me arrependo de ter te incluído na minha vida"
 Aqui a autora da carta relata que sempre era vista por seu parceiro como alguém que deveria ser salva por ele, já que ela havia sido vítima de outro relacionamentos negativos,os quais a deixou sem fé e sem confiança no amor.
O excesso de autoconfiança e autoestima exagerada se apresentava sempre que ela falava de seu passado e ela se sentia vulnerável ou insegura diante alguma coisa. 
Mas na tomada de consciência de que estava sendo vítima de um clássico caso de co-dependência ela começou  a reagir  e resolveu contar o lado bonito de sua história
Nesse caso de TAB a pessoa tinha um tipo de transtorno leve,mas apresentava muitos sintomas que poderia prejudicá-lo mais tarde.  
Nesse fragmento da carta pode-se observar um sintoma por parte do parceiro um   excesso de Autoconfiança e autoestima como percepção exagerada da realidade de si mesmo compensando alguma dor e se defendendo olhando o outro como aquele que tem o problema.  
  
Outro sintoma evidenciado pela paciente é essa energia que vai aumentando após uma noite sem dormir, o que é uma constante nesse quadro clínico, e que depois de um tempo leva a pessoa a exaustão e a oscilação para humor depressivo, onde a energia acaba e entra no quadro depressivo .Veja no texto abaixo>

"  No entanto, o fato de sua energia ir aumentando ao longo do dia após uma noite sem dormir, por conta dessa   sua percepção de muita energia, isso te  faz  ficar cansado e te desgasta ao longo do tempo , gerando um  trabalho excessivo do cérebro, que também é um sintoma desse quadro clínico. Tudo   pois é doloroso  saber que esse desequilíbrio te impede de usar todo teu potencial para construir um caminho no presente em direção dos teus sonhos e construir um futuro. Você tem um potencial enorme, mas precisa ser tratado  por medicamentos e por terapias."
 Outro sintoma encontrado nesse relato é Falar demais, fuga de ideias, pensamento acelerado". Tudo isso dificulta o diálogo e a comunicação fica comprometida,pois o transtorno TAB é um transtorno do sentir e do pensar.Percebe-se que seu ex-parceiro não aceitava também fazer terapia por se achar autoconfiante e desafiava os próprios terapeutas.
"  viramos a noite brigando e nosso diálogo nesse momentos de crise não nos levou a lugar algum. Eu via nitidamente a fuga de ideias, a aceleração no falar e a falta de sentido nos argumento usados em forma de transferência como forma de se esconder de você mesmo e usando minhas fragilidades e defeitos como justificativa para atos que poderiam visto de forma mais igualitária e equilibrada.Para mim tudo isso esteve presente durante o tempo em que tivemos juntos. Mas o pior é o fato de uma autoconfiança exagerada que esconde alguma dor, mas que também se utiliza da projeção e da transferência para me condenar. Acabamos fazendo um jogo de culpa onde ninguém sai ganhando e nos perdemos uma ao outro " 
 Outra característica desta relação que esta intimamente ligada a autoconfiança exagerada e sem realidade é a Co-dependência, onde um deve ser a vítima e o outro precisa exercer o papel de salvador da mesma . 

Isso é mais comum do que se imagina. Dessa dinâmica eu entendo muito bem. Encontro sempre no meu consultório pessoas enganadas e manipuladas por não enxergarem essa realidade

 Segundo esse fragmento da carta abaixo, essa pessoa que sofre desse transtorno, tem uma visão exagerada a respeito de si mesmo acreditando ter uma capacidade ilusória.
"Percebi ao longo desse tempo que Você repete esse padrão o tempo todo em suas amizades e em seus relacionamentos .Mas comigo eu tentei não exercer esse papel que vc me ofereceu, Por isso, tudo deu errado. A menos que eu ficasse quietinha, calada, e continuasse permitindo que você entrasse na minha vida, invadisse minha mente para me fazer cada vez mais me sentir dependente de você, esse relacionamento ainda estaria patologicamente existindo.Com as brigas foi ficando claro que eu me abria e você  usava minhas feiuras para se defender de você mesmo. Você se sente seguro  com pessoas que estão em momentos de fragilidades, ou  quando estão passando por um processo de mudança onde elas ainda não sabem o que querem em alguma área de sua vida . Com o tempo foi ficando claro que você precisa de pessoas frágeis, inseguras, perdidas para poder entrar na cabeça delas e analisá-las .Isso te da poder.  Sua  pretensão de ser tão sagaz com  seus ex terapeutas te fez cair em uma emboscada. Eu  Você   usa suas habilidades, na maioria das vezes, para se afirmar, fortalecer sua autoconfiança exagerada e se esconder de si mesmo. Você se super estima para esconder uma baita   inferioridade"
 Sobre Maturidade Emocional  do Eu 
“Par ser par precisamos ser   Ímpar . 


Durante o tratamento vinhamos trabalhando seu sentimento de desamparo, de solidão, de menos valia e de incapacidade, o que a levou novamente a repetir o mesmo padrão de relações autodestrutivas. Sua resposta a esse novo relacionamento me pareceu uma ato de maturidade. Nesse momento houve a virada ,onde ela pode sair de uma situação de impasse. Um passo a mais em direção dela mesma, uma oportunidade de aprender a ser ímpar para poder entrar em uma relação mais inteira com auto-respeito, amor próprio e auto-estima.

e, ela termina escrevendo....

"Mas diferentemente do que vc acha, estou constantemente revendo minhas prioridades, me conhecendo e me enfrentando todos os dias. E pode acreditar é  muito difícil olhar no espelho e me enfrentar com minhas  feiuras internas....no entanto estou mais forte agora e muito melhor sem você. vou ficar em paz comigo e e com muito mais auto respeito estou melhorando cada dia mais em direção a minha autonomia e emancipação.Eu busco meu auto-suporte. Não quero mais  que nada me possua, exceto o Amor que hoje cultivo dentro de mim

  


1. Dependência Emocional: uma revisão sistemática da literatura. Denise Catricala ButionI i; Amanda Muglia WechslerII ii Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.   Centro Universitário UNIFAFIBE. Link: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072016000100006

* Confluência, segundo a gestalterapia é um mecanismo de defesa do ego.
 Referência do artista Harding Meyer: . Detail of (35-2105)-120x150cm oil on canvas .


 

















terça-feira, 19 de junho de 2018

Transtorno de Personalidade Dependente F60.7 - 301.6

Fonte: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V)

Características Diagnósticas

A característica essencial do Transtorno da Personalidade Dependente é uma necessidade invasiva e excessiva de ser cuidado, que leva a um comportamento submisso e aderente e ao medo da separação. Este padrão começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos. Os comportamentos dependentes e submissos visam a obter atenção e cuidados e surgem de uma percepção de si mesmo como incapaz de funcionar adequadamente sem o auxílio de outras pessoas. Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Dependente têm grande dificuldade em tomar decisões corriqueiras (por ex., que cor de camisa usar para ir ao trabalho ou se devem levar o guarda-chuva) sem uma quantidade excessiva de conselhos e reasseguramento da parte dos outros (Critério 1). Esses indivíduos tendem a ser passivos e a permitir que outras pessoas (freqüentemente uma única pessoa) tomem iniciativas e assumam a responsabilidade pela maioria das áreas importantes de suas vidas (Critério 2). Os adultos com este transtorno tipicamente dependem de um dos pais ou do cônjuge para decidir onde devem viver, que tipo de trabalho devem ter e com que vizinhos devem fazer amizade. Os adolescentes com o transtorno podem permitir que seus pais decidam o que devem vestir, com quem devem sair, como devem passar seu tempo livre e que faculdade devem cursar. Esta necessidade de que os outros assumam a responsabilidade extrapola os pedidos de auxílio adequados à idade e à situação (por ex., as necessidades específicas de crianças, pessoas idosas e pessoas deficientes).

La implorante
Obra de Camille Claudel

 O Transtorno da Personalidade Dependente pode ocorrer em um indivíduo que possui uma séria condição médica geral ou deficiência, mas nestes casos a dificuldade em assumir responsabilidades deve ir além daquela que normalmente estaria associada a esta condição ou deficiência. Como temem perder o apoio ou aprovação, os indivíduos com Transtorno da Personalidade Dependente muitas vezes têm dificuldade em expressar discordância de outras pessoas, especialmente aquelas das quais dependem (Critério 3). Esses indivíduos sentem-se tão incapazes de funcionar sozinhos que preferem concordar com coisas que consideram erradas, a se arriscarem à perda da ajuda daqueles em quem buscam orientação. Eles não ficam zangados quando seria adequado com as pessoas cujo apoio e atenção necessitam, por medo de afastá-las. Se as preocupações do indivíduo relativas às conseqüências de expressar discordância são realistas (por ex., temores realistas de retribuição de um cônjuge abusivo), o comportamento não deve ser considerado uma evidência de Transtorno da Personalidade Dependente. Os indivíduos com este transtorno têm dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas de maneira independente (Critério 4). Eles carecem de autoconfiança e acreditam que precisam de auxílio para iniciar e realizar suas tarefas. Eles esperam que os outros "dêem a partida", por acreditarem que, via de regra, os outros sabem fazer melhor. [628]Estes indivíduos têm a convicção de serem incapazes de funcionar de modo independente e se apresentam como ineptos e carentes de constante auxílio. Entretanto, tendem a funcionar adequadamente quando recebem a garantia de que receberão supervisão e aprovação de outra pessoa. Eles podem ter medo de parecer ou de tornar-se mais competentes, por acreditar que isto levará ao abandono. Uma vez que confiam nos outros para a solução de seus problemas, freqüentemente não aprendem as habilidades de uma vida independente, desta forma perpetuando a dependência. Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Dependente podem ir a extremos para obterem carinho e apoio, chegando ao ponto de se oferecerem para realizar tarefas desagradáveis, se este comportamento for capaz de trazer-lhes os cuidados de que necessitam (Critério 5). Eles dispõem-se a fazer as vontades dos outros, mesmo que as exigências sejam irracionais. 


Camille Claudel, L’Âge mur, 1898-1913


Sua necessidade de manter um vínculo emocional importante freqüentemente resulta em relacionamentos desequilibrados ou distorcidos. Eles podem fazer sacrifícios extraordinários ou tolerar abuso verbal, físico ou sexual (cabe notar que este comportamento deve ser considerado evidência de Transtorno da Personalidade Dependente apenas quando for claramente estabelecido que o indivíduo não dispõem de outras opções). Os indivíduos com este transtorno sentem desconforto ou desamparo quando estão sozinhos, pelo medo exagerado de serem incapazes de cuidar de si próprios (Critério 6). Eles podem "ficar colados" em outras pessoas importantes em suas vidas apenas para não ficar sozinhos, mesmo que não tenham interesse ou envolvimento no que está acontecendo. Quando um relacionamento significativo termina (por ex., rompimento de um namoro; morte de um dos pais), os indivíduos com Transtorno da Personalidade Dependente podem sair urgentemente em busca de outro relacionamento que ofereça os cuidados e o apoio de que necessitam (Critério 7). A crença em sua incapacidade de funcionar na ausência de um relacionamento íntimo motiva estes indivíduos a se envolverem rápida e indiscriminadamente com outra pessoa. Os indivíduos com este transtorno em geral se preocupam com temores de que serão abandonados à própria sorte (Critério 8). Eles se vêem como tão dependentes dos conselhos e ajuda de outra pessoa, que se preocupam com um abandono da parte desta, mesmo quando não há justificativa para esses temores. Para serem considerados evidências deste critério, os temores devem ser excessivos e irrealistas. Por exemplo, um homem idoso com câncer que se muda para a casa de um filho para obter auxílio apresenta um comportamento dependente adequado, dadas as suas circunstâncias de vida.


Características e Transtornos Associados

Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Dependente muitas vezes se caracterizam por pessimismo e insegurança, tendem a menosprezar suas capacidades e realizações e podem constantemente referir a si mesmos como "tolos". Eles tomam críticas e reprimendas como provas de sua inutilidade e perdem a autoconfiança. Eles podem procurar ser superprotegidos e dominados pelos outros. O funcionamento ocupacional pode ficar comprometido se exigir a iniciativa independente. Eles podem evitar posições de responsabilidade e ficar ansiosos quando existe a necessidade inadiável de tomar uma decisão. As relações sociais tendem a se limitar àquelas poucas pessoas das quais o indivíduo é dependente. Pode haver um maior risco de Transtornos do Humor, Transtornos de Ansiedade e Transtorno de Ajustamento. O Transtorno da Personalidade Dependente muitas vezes co-ocorre com outros Transtornos da Personalidade, especialmente Transtornos da Personalidade Borderline, Esquiva e Histriônica. Uma doença física crônica ou um Transtorno de Ansiedade de Separação na infância ou adolescência podem predispor o indivíduo ao desenvolvimento deste transtorno.




Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero

O grau em que os comportamentos dependentes são considerados adequados varia substancialmente entre os diferentes grupos etários e sócio-culturais. Fatores etários e culturais precisam ser considerados na avaliação do limiar diagnóstico. O comportamento dependente deve ser considerado característico do transtorno apenas quando nitidamente excede as normas culturais do indivíduo ou reflete preocupações irrealistas. Uma ênfase na passividade, delicadeza e tratamento respeitoso é característica de algumas sociedades e pode ser interpretada erroneamente como traços de Transtorno da Personalidade Dependente. Da mesma forma, as sociedades podem apoiar e desencorajar de modo diferenciado o comportamento dependente em homens e mulheres. Este diagnóstico deve ser usado com grande cautela, se é que se aplica, em crianças e adolescentes, para os quais um comportamento dependente pode ser adequado em termos evolutivos. Em contextos clínicos, este transtorno é diagnosticado com maior freqüência em mulheres; entretanto, a taxa deste transtorno entre os sexos não difere significativamente da proporção geral do sexo feminino dentro do respectivo contexto clínico. Além disso, alguns estudos usando avaliações estruturadas relatam taxas similares de prevalência entre homens e mulheres.


Prevalência

O Transtorno da Personalidade Dependente está entre os Transtornos da Personalidade mais freqüentemente relatados em clínicas de saúde mental.


Diagnóstico Diferencial

O Transtorno da Personalidade Dependente deve ser diferenciado da dependência que surge como conseqüência de transtornos do Eixo I (por ex., Transtornos do Humor, Transtorno de Pânico e Agorafobia) e em decorrência de condições médicas gerais. O Transtorno da Personalidade Dependente tem um início precoce, um curso crônico e um padrão de comportamento que não ocorre exclusivamente durante um transtorno do Eixo I ou do Eixo III. Outros Transtornos da Personalidade podem ser confundidos com o Transtorno da Personalidade Dependente por terem certos aspectos em comum, de modo que é importante distinguir esses transtornos com base nas diferenças em seus aspectos característicos. Entretanto, se um indivíduo apresenta características de personalidade que satisfazem os critérios para um ou mais Transtornos da Personalidade além do Transtorno da Personalidade Dependente, todos podem ser diagnosticados. Embora muitos Transtornos da Personalidade se caracterizem por aspectos de dependência, o Transtorno da Personalidade Dependente pode ser diferenciado por seu comportamento predominantemente submisso, reativo e aderente. Tanto o Transtorno da Personalidade Dependente quanto o Transtorno da Personalidade Borderline caracterizam-se pelo medo do abandono; entretanto, o indivíduo com Transtorno da Personalidade Borderline reage ao abandono com sentimentos de vazio emocional, raiva e exigências, ao passo que o indivíduo com Transtorno da Personalidade Dependente reage com crescente humildade e submissão e busca urgentemente um relacionamento substituto, que lhe ofereça atenção e apoio. O Transtorno da Personalidade Borderline pode ainda ser distinguido do Transtorno da Personalidade Dependente por um padrão típico de relacionamentos instáveis e intensos. Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Histriônica, como no Transtorno da Personalidade Dependente, têm uma forte necessidade de reasseguramento e aprovação, podendo parecer infantis e demasiadamente apegados. Entretanto, à diferença do Transtorno da Personalidade Dependente, que se caracteriza por uma auto-anulação e comportamento dócil, o Transtorno da Personalidade Histriônica caracteriza-se por uma exuberância gregária, com exigência ativa de atenção. Tanto o Transtorno da Personalidade Dependente quanto o Transtorno da Personalidade Esquiva caracterizam-se por sentimentos de inadequação, hipersensibilidade a críticas e necessidade de reasseguramento; contudo, os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquiva têm um medo tão grande da humilhação e rejeição, que se retraem até terem certeza de que serão aceitos. Em contrapardida, os indivíduos com Transtorno da Personalidade Dependente têm um padrão de busca e manutenção de conexões com outras pessoas que lhes são importantes, ao invés de evitarem e se absterem de relacionamentos. O Transtorno da Personalidade Dependente deve ser diferenciado de uma Alteração da Personalidade Devido a uma Condição Médica Geral, na qual os traços emergem devido aos efeitos diretos de uma condição médica geral sobre o sistema nervoso central. Ele também deve ser diferenciado de sintomas que podem desenvolver-se em associação com o uso crônico de substâncias (por ex., Transtorno Relacionado à Cocaína Sem Outra Especificação). Muitos indivíduos exibem traços de personalidade dependente, mas estes traços apenas constituem um Transtorno da Personalidade Dependente quando são inflexíveis, mal-adaptativos e persistentes e causam prejuízo funcional significativo ou sofrimento subjetivo.

Veja um exemplo na prática quando a dependência emocional se manifesta


"Simplesmente aconteceu
Não tem mais você e eu
No jardim dos sonhos
No primeiro raio de luar
Simplesmente amanheceu
Tudo volta a ser só eu
Nos espelhos
Nas paredes de qualquer lugar
Não tem segredo
Não tenha medo de querer voltar
A culpa é minha
Eu tenho o vício de me machucar
De me machucar
Lentamente aconteceu
Seu olhar largou do meu
Sem destino
Sem caminho certo pra voltar
Não tem segredo
Não tenha medo de querer voltar
A culpa é minha
Eu tenho o vício de me machucar
De me machucar
Ninguém ama porque quer"

Simplesmente aconteceu
Ana Carolina 


 

Critérios Diagnósticos para F60.7 - 301.6 Transtorno da Personalidade Dependente 



Uma necessidade invasiva e excessiva de ser cuidado, que leva a um comportamento submisso e aderente e a temores de separação, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, indicado por pelo menos cinco dos seguintes critérios:
(1) dificuldade em tomar decisões do dia-a-dia sem uma quantidade excessiva de conselhos e reasseguramento da parte de outras pessoas
(2) necessidade de que os outros assumam a responsabilidade pelas principais áreas de sua vida
(3) dificuldade em expressar discordância de outros, pelo medo de perder o apoio ou aprovação. Nota: Não incluir temores realistas de retaliação
(4) dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria (em vista de uma falta de autoconfiança em seu julgamento ou capacidades, não por falta de motivação ou energia)
(5) vai a extremos para obter carinho e apoio de outros, a ponto de voluntariar-se para fazer coisas desagradáveis
(6) sente desconforto ou desamparo quando só, em razão de temores exagerados de ser incapaz de cuidar de si próprio
(7) busca urgentemente um novo relacionamento como fonte de carinho e amparo, quando um relacionamento íntimo é rompido
(8) preocupação irrealista com temores de ser abandonado à sua própria sorte. 



Fonte: 
Texto :  https://blogs.sapo.pt/cloud/file/b37dfc58aad8cd477904b9bb2ba8a75b/obaudoeducador/2015/DSM%20V.pdf

Obras : https://awarewomenartists.com/en/artiste/camille-claudel/