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quarta-feira, 20 de maio de 2015

A função transformadora do ódio .Christian Ingo Lenz Dunker

A função transformadora do ódio

Afeto nos convida à separação e ao ajuste de contas – mas que não se confunda com a utilização da justiça como pretexto para praticar a vingança
Em maio de 2015
Por Christian Ingo Lenz Dunker


O antigo filósofo estoico chamado Sêneca dizia que a cólera é o afeto dos impotentes, ou seja, daqueles que acham que têm mais poder do que de fato têm. É assim que nós representamos os tiranos e seus tiranetes, sempre impacientes, insatisfeitos e coléricos. Mas isso não quer dizer que o ódio é um afeto do qual deveríamos nos ver livres. .
Mihoko Ogaki
Ademais a cólera assim como a indignação e o respeito são sentimentos que modulam nosso ódio, substituindo sua orientação destrutiva por ideais simbólicos de regulação social. Quando vejo o ódio ser elevado à condição de um sentimento social intolerável, nessa cultura da animosidade e do desentendimento generalizado, que tomou conta do Brasil, penso que há certa injustiça sendo cometida contra este afeto

Michal Mozolewski
 O ódio é um afeto muito importante. Diariamente encontramos pacientes que se queixam de injustiças cometidas contra si, de maus-tratos ou de desprezos sofridos. Frequentemente percebemos um personagem ausente: a raiva. Pensemos naquele marido violento, que chega em casa, chuta o cachorro e resmunga com os filhos, mas cuja esposa só consegue dizer “não é culpa dele, é da bebida” ou “no fundo ele é uma pessoa boa”. Ambos sofrem de uma patologia do ódio: ele do excesso, ela da falta.
Michal Mozolewski
 Nenhum afeto deve ser considerado um vilão do ponto de vista clínico, nem mesmo o ciúmes, ou a inveja, mas a impossibilidade de experimentá-lo ou, ao contrário, a sua perseverança, deslocamento e intensificação, sim. E cada afeto possui uma espécie de matriz funcional, um clichê experiencial, segundo a expressão de Freud, que explica a sua gênese e determina a sua série histórica. Ou seja, os afetos não têm uma memória, por isso se diz que não existem afetos inconscientes, mas eles têm um traçado, uma recorrência que une suas diferentes situações de incidência. É por isso que cada experiência de amor recapitula todas as anteriores, e cada experiência de perda nos chama para todas as perdas anteriores. Lacan dizia que todos os sentimentos são mentirosos, com exceção da angústia, porque eles nos levam a criar contextos semelhantes para acontecimentos diferentes.
Michal Mozolewski
 O ódio é um afeto fundamental para os processos de separação. Sem ele, o sofrimento pode ser infinito, e mesmo assim nenhuma transformação é ensejada. Sem uma pitada de ódio nenhum luto termina. Sem um grama de ódio muitos casais se tornam apenas irmãos e bons amigos. Mas uma pitada ou uma grama, não é uma libra nem uma tonelada. Neste caso o ódio não está a serviço da separação e de um processo transformativo, mas da manutenção de uma unidade, ainda mais poderosa, ainda mais odiosa. Ódio que não se vive sozinho, mas que covardemente cria grupos imaginários contra inimigos imaginários, é tipicamente dirigido ao poder que se tem a mais ou a menos que o outro (inferioridade ou superioridade). É assim que ele deixa de estar a serviço da circulação e da distribuição do ter e do não ter e passa a se concentrar sobre o que o outro é, ou o sobre o que não suportamos ser.
Michal Mozolewski
 É este ódio ao ser que aparece na homofobia e na formação de grupos cujo unidade depende apenas do ódio dirigido a um grupo oposto. Ele não quer redefinir o contrato, nem fazê-lo valer, mas tudo o que ele quer é transformar uma libra de carne em um infinito de ódio, para que tudo continue como antes, no quartel de Abrantes.
Este artigo foi originalmente publicado na edição de maio de Mente e Cérebro 2015, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1DKrwmD
Leia mais de Christian Dunker:
A angústia da teseUma coisa louca começa a crescer nos nossos ombros, como um Daimon socrático, berrando impropérios sobre a qualidade, relevância e sentido do que estamos fazendo

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Desejo de Mulher:o que um homem tem a ver com isso?

Por Claudia Riolfi 

Ao meu pai, Silvio Riolfi

Chorei, de lágrimas, ao ler a dedicatória que Matthew Vaughn (sim, aquele que tem uma Claudia para chamar de sua, no caso, a Schiffer) fez no filme Kingsman: The Secret Service (Fox Filmes, 2015), em cartaz, em várias salas de cinema, a partir de fevereiro. Podem zoar: sim, eu me emocionei com a dedicatória feita para a mãe dos outros. Para além da zoeira (também eu ri de mim), a surpresa das lágrimas pediu psicanálise. Por que a escolha do cineasta foi capaz de me tocar tanto?

Vaughn dedicou o filme a sua mãe Kathy Ceaton, morta em julho de 2013. Inicialmente, sua escolha pode parecer estranha, pois, à primeira vista, estamos comentando um filme "de homens", no qual as mulheres têm pequeno protagonismo. Não teria sido mais “natural” homenagear a mãe morta com um filme que tivesse uma grande dama como seu centro? Não seria mais “adequado”, por exemplo, filmar a biografia de uma personagem feminina histórica e, assim, homenagear a mãe de modo mais evidente?

Para quem (ainda) não assistiu, Kingsman é um filme de superespiões ingleses que salvam o mundo enquanto sustentam os mais altos valores morais e éticos. Ao contrário de alguns homens de ação que parecem obter prazer em uma postura mais “cafajeste”, os membros do Kingsman trabalham duro como se não estivessem fazendo nada. Não querem louvores. Não buscam o reconhecimento do outro. Não expõem ninguém. Não se vangloriam. Você não consegue imaginar um deles bisbilhotando, fofocando, intrigando, cedendo a qualquer tipo de coisa que os coloque à mercê do gozo alheio. Um Kingsman nada de braçada no campo do desejo. Sua posição subjetiva está expressa em seus codinomes, retirados das novelas de cavalarias.

Apaixonei, perdida e irrevogavelmente, pelo personagem Harry-Galahad (Ufa! Interpretado com o sotaque de Colin Firth, para acrescentar sal e pimenta). Pareceu-me, de fato, a versão contemporânea do retrato que Alfred Tennyson fez, em 1842, em Sir Galahad.

(Só para dar o gostinho, vão as primeiras quatro linhas:

My good blade carves the casques of men,

My tough lance thrusteth sure,

My strength is as the strength of ten

Because my heart is pure.). 

Em minha opinião, muito personalíssima, o espião é tudo o que se poderia esperar de um homem e de um pai. Sua acolhida ao jovem que o substituirá na ordem das gerações é irretocável. Ele está seguro de seu lugar. Não rivaliza. Não cede aos empuxos do gozo. Sabe de sua mortalidade e da necessidade de ocupar um lugar na ordem das gerações. O resultado de sua escolha é que Harry-Galahad pode oferecer ao jovem que o substituirá o luxo de poder fazer escolhas.

Ao se tornar um Kingsman, Egsy-Galahad (o jovem) funda sua singularidade, sustenta sua diferença e não abre mão, em nada, das regras comuns do cavalheirismo e da gentileza. Ao não deixar de ser homem, Harry-Galahad soube fazer nascer outro homem, para o deleite das mocinhas, que não vão precisar ficar perguntando, perplexas: - Onde estão os machos desse planeta?

Posto isso, voltemos às minhas lágrimas. Por que chorei? Por que, para explicar sua dedicatória, o diretor agradeceu a sua mãe, por, no dia-a-dia, ter feito com que ele compreendesse o que ser um Kingsman significa. Dessa declaração, podemos inferir que Kathy Ceaton sabia apreciar os cavalheiros. Sabia, ainda, da necessidade de trabalhar para que o mundo não fosse privado da presença deles. Como ela, por sua vez, pôde aprender essa lição? Entendi: talvez, de um jeito muito retorcido, meu choro fosse uma homenagem ao meu pai, morto em maio de 2014. Sem dúvida, devo a ele poder apreciar os filmes, os espiões, as obras, essas coisas de homem.

Claudia Riolfi é Psicanalista e Professora Livre-docente da Universidade de São Paulo.
Fonte: Instituto de Psicanálise Lacaniana: :http://www.ipla.com.br/editorias/educacao/desejo-de-mulher-o-que-um-homem-tem-a-ver-com-isso.html

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O Ato

No "Ato Psicanalítico" Lacan faz um trabalho que ele chamou de 'varredura'."É necessário fazer, no início do que introduzimos, uma operação, chamem-na como quiserem, de simples elucidação ou de varredura, mas ela é essencial."
Refere-se ele a todo o recorrido necessário à elaboração de um conceito.


Ao corte, que é 'ato em ato', daquilo que é excesso, para a depuração final do objeto.
E o objeto não é dado a priori, mas refere-se àquilo a que, a posteriori, se tenha chegado, esvaziado todo o caminho significante.
Vazio.

Daí, quem sabe, 
o saber viver, 
o saber fazer 
pode nascer a um momento dado, de uma experiência, da qual, dos seus pressupostos, o sujeito nada sabe...
Tal não seria a 'varredura' necessária ao processo de análise, na sua direção, desde o ato inaugural, que a institui na sua articulação significante à transferência, até o seu final, quando, pela 'operância psicanalítica', de ato em ato, o psicanalista a comanda, até a sua queda, cambalhota, báscula final?
Angela Porto
                                       Möbius; for Madame Butterfly at La Fenice in Venice

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A Arte e o Real

" Toda arte é uma forma de literatura, porque toda arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projeções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama."Fernando Pessoa 
           Edvard Munch.The Voice Summer Night, 1896


A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do  artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos 

naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social.O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades fatuais. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro.

A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana."(Afrânio Coutinho In : http://www.ufjf.br/cursinho/files/2012/05/Apostila-de-Literatura-Silvia-Souza-Gomes-UFJF-2012.01.139.pdf)