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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Psicoterapia e Autoconhecimento


Por Rosangela Brunet


O ego não consegue distinguir entre uma situação e sua interpretação de uma reação a essa situação. Podemos dizer "Que dia horrível!" sem atentarmos para o fato de que o frio, o vento e a chuva ou qualquer elemento ao qual estejamos reagindo não são horríveis. Eles são como são. O que é horrível é nossa reação, a resistência subjetiva a eles e a emoção que é criada por essa resistência. ...o ego sempre interpreta mal o sofrimento como um prazer porque, até determinado ponto, ele se fortalece por meio desse estado negativo(...) Quanto mais forte o ego, maior a probabilidade de vermos as pessoas como a principal fonte dos nossos problemas.

Há também uma grande chance de que tornemos a vida difícil para os outros.(...) O medo e a desconfiança que o ego tem das pessoas, sua tendência a enfati zar a alteridade concentrando-se nas falhas e tornando-as a identidade do outro, ganham uma proporção maior e transformam todos em monstros desumanos. O ego precisa das pessoas, porém seu dilema é que, no fundo, ele as odeia e as teme. Na afirmação de Jean-Paul Sartre em "O inferno são os outros" é a voz do ego forte falando " (Eckhart Tolle)

Baseado no texto acima podemos entender a importância do Autoconhecimento promovendo uma Melhor Percepção do mundo interno para que o mundo externo seja percebido de forma que indivíduo possa atuar no meio de forma saudável e eficaz.

"Não podemos mudar, não podemos nos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos"Carl Rogers ,Tornar-se Pessoa)

Carl Rogers acreditava que "o ser humano tem a capacidade manifesta ou latente de compreender-se a si mesmo e resolver seus problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessária ao funcionamento adequado” Mas essa não é uma tarefa fácil.É uma jornada longa e trabalhosa.

"Normalmente a pessoa não pergunta :Quem sou eu? A identidade de cada um é tida como certa.Toda pessoa traz consigo na carteira documentos que servem para identificá-las....mas a quando a insatisfação se transforma em desespero, e a insegurança dá lugar ao pânico o indivíduo começa a se perguntar:Quem sou eu?" Alexander Lowen (O Corpo Traído, p.15)

É preciso coragem para enfrentar aquilo que não conhecemos."Torna-te quem tu és" é uma frase desafiadora e a gente tem a vida toda para entender seu significado. Por isso, a Psicoterapia se faz necessário.Nossa forma de entender o mundo, avaliar os fatos e formar opinião sobre qualquer assunto esta muito ligado a nossa percepção .Isso,obviamente afeta nossas relações interpessoais e afetivas.Por isso, julgar um fato pode ser uma oportunidade de refletir sobre quais as novas perspectivas podemos obter dele.A imagem ao lado é um exemplo clássico de que o todo não é a soma das partes.O todo para ser entendido é necessário um critério subjetivo.

Cada um vê uma parte ou duas, e paulatinamente vamos expandindo nossa percepção .Em cada momento da nossa vida vamos sendo mais capazes de enxergar algo , que antes não víamos,ou então podemos deformar os fatos ,enxergando-os segundo a nossas forma de organização , segundo nossa experiência e referencial de vida .Olhe a figuras e veja o que você enxerga.Uma mulher velha ou jovem ? 
Pois é.Assim é nossa percepção de mundo. Há que se empenhar na ampliação da consciência .Para isso a Psicoterapia é fundamental ,pois trabalha o autoconhecimento em direção ao desenvolvimento Pessoal.


Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. .." Rainer Rilke

Pensar em psicoterapia é pensar no processo de autoconhecimento em direção ao Desenvolvimento Pessoal. Uma coisa esta ligada a outra. Não se pode falar em crescimento pessoal se o indivíduo não se conhece. Não se pode falar em ter auto estima se uma pessoa não se conhece.Como amar o que não se conhece. Como valorizar o que não se sabe, como desenvolver o que não se pode enxergar. A forma como você vê o mudo revela quem você é. Na medida em que sua visão de mundo se amplia as possibilidades de se transformar aumentam.

A psicoterapia é um meio utilizado por psicólogos no sentido de facilitar esse processo auxiliando as pessoas a lidar com seus conflitos, enxergar os pontos cegos e sua visão distorcidas de mundo. O resultado será uma capacitação maior no enfrentamento de seus conflitos, melhoria em sua relações interpessoais, afetivas e familiares, e conseqüentemente maior criatividade para encontrar soluções e saídas em suas atividades sociais ,profissionais e pessoais

A psicoterapia se faz necessária porque não conseguimos nos olhar de fora. Estamos sempre dentro e, então neste momento somos cegos.”Autor desconhecido

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Uma Carta da Minha Criança Interior

Mãe 
Eu gostaria de poder agradecer por me mostrar o que eu não mereço. Agradecer por me ensinar tantas lições de desgosto. Agradecer por me machucar.

Mas isso seria mentira.

Eu não acho que tudo o que você me fez me transformou em uma pessoa melhor. Eu acho que isso me fez uma pessoa mais irritada, uma pessoa amarga, uma pessoa quebrada.

Você bagunçou minha cabeça. Você me ensinou a agir de forma mais egoísta porque a única pessoa que cuidará de mim será eu mesma. Você me ensinou a fugir antes de chegar muito perto de alguém, porque eventualmente, eu temo que ele vá  embora. Você me ensinou a duvidar ....

Por sua causa, sou cética...

Eu não quero ser assim.   Você me transformou em uma concha de uma pessoa só. Você me transformou em alguém mais como você.

Eu queria ser grata pelo que você me fez passar, mas eu te odeio pelo que você me fez passar. Eu te odeio pela sua invasão. Eu te odeio pela sua manipulação. Eu te odeio por me forçar a construir defesas que hoje me impedem de me amar e acreditar no amor

Acima de tudo, eu odeio você por escolher a si mesmo sobre todos os outros, até mesmo aqueles que mais o amavam.

Mesmo se você me transformasse em alguém mais forte, alguém com uma espinha dorsal que leva menos merda, eu não iria agradecer por isso.

Eu não vou te agradecer por me envergonhar e me humilhar. Não vou te agradecer por me expor e me fazer   insegura Eu não vou te agradecer por me trair. Você deveria ser meu modelo e referência

Você não merece parabéns. O que você fez não está certo e eu não estou saindo bem  nos meus relacionamentos . 

Eu não sei como vou entrar em relacionamentos saudáveis ​​no futuro depois de lidar com você por tanto tempo. A bagagem que você me deu foi pesada demais    Sua voz sempre estará no fundo da minha mente. Eu  tenho dificuldade de   confiar totalmente em alguém por sua causa. Eu tenho medo de   deixar meu coração aberto, por sua causa. Você estragou tudo e nem se sente culpado por isso.

Talvez eu esteja agindo de forma infantil. Talvez eu precise crescer. Talvez eu seja muito imatura para ver o forro prateado, a beleza em minha própria dor. Mas eu não merecia passar por tudo o que você me forçou, então eu não vou te agradecer por arrancar meu coração do peito. Eu vou dizer “foda-se você” em vez disso.


Texto original de Holly Riordan, via Thought Catalog, traduzido pela equipe Coração de Elástico
OBS: o texto foi alterado por mim, Rosangela Brunet

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O DESENVOLVIMENTO DA RESILIÊNCIA DURANTE A INFÂNCIA


Publicado em maio 12, 2015 por Aliança pela Infância
Entrevista por Fernanda Ortega sobre o tema da Semana Mundial do Brincar “Para ter criatividade, resiliência e coragem é preciso brincar!”
Ricardo Ghelman – pesquisador, pediatra e médico da família, especialista em oncologia pediátrica e em medicina antroposófica – aborda, em entrevista para a Aliança pela Infância, o desenvolvimento da resiliência durante a infância e critica o modelo pedagógico predominante na educação básica atual
Médico e pesquisador Ricardo Ghelman (reprodução de namu.com.br)

Como você define resiliência?

Defino resiliência como uma capacidade de enfrentar criativamente a vida, especialmente situações de estresse. A questão é como a pessoa lida, no dia a dia, com os seus desafios. Uma pessoa bem compreensiva, que veja sentido no que está acontecendo, é alguém com maior resiliência, uma pessoa mimada pode se tornar pouco resiliente, por exemplo.

Qual é a importância de desenvolver a resiliência durante a infância?

Só se desenvolve a resiliência durante a infância, que, para mim, é o período de 0 até 21 anos de idade. Resiliência é uma construção até a vida adulta.

E como você caracteriza a infância?

Caracterizo a infância como três infâncias, cada uma é responsável por desenvolver uma das três áreas da psique humana. A primeira infância, de 0 a 7 anos, desenvolve a área motora, comportamental, de fantasia. A segunda infância, que vai dos 7 anos até a puberdade, é mais afetiva. É o período que se desenvolve a inteligência emocional, que é um dos aspectos fundamentais da resiliência. Durante a terceira infância, que corresponde à entrada no Ensino Médio até a faculdade, desenvolve-se absurdamente o lado cognitivo: a capacidade de compreensão.

Como é possível contribuir para o desenvolvimento da resiliência na criança?

Um dos aspectos da resiliência é a personalidade inata da criança. Tem criança que nasce com uma tendência a ser mais resiliente que outra. Isso não dá para educar, é uma pré-condição, não podemos fazer nada a respeito. A genética influencia a personalidade, mas a natureza da criança – que é o aspecto existencial do ser humano – transcende a genética. Essa natureza é a individualidade da criança. Defino esse aspecto existencial, espiritual ou da individualidade do ser humano, como aquilo que diferencia dois irmãos gêmeos univitelinos com a mesma genética. Sou um exemplo clássico, porque tenho um irmão gêmeo univitelino. É a mesma genética, mesmo pai, mesma mãe, mesma educação, mas são duas pessoas diferentes. Isso rompe completamente com a ideia de que o ser humano seria resultado apenas da genética e do meio ambiente. Há também uma outra personalidade, que é desenvolvida por influência ambiental. Essa é a personalidade educável, que tem a ver com cultura.

“Um adulto travado emocionalmente, pode ter certeza, teve dificuldades na segunda infância”

E o que é possível desenvolver durante a infância para que a pessoa se torne mais resiliente, independentemente de sua personalidade inata?

A resiliência envolve três inteligências: a inteligência comportamental – relacionada à força de vontade e à ação no mundo -, a inteligência emocional e a inteligência cognitiva – que tem a ver com QI, Quociente de Inteligência. É preciso passar por toda infância para desenvolver todas essas inteligências. A primeira inteligência, que tem a ver com a primeira infância – de 0 a 7 anos – dá capacidade de manuseio da vida: saber enfrentar situações e buscar ajuda. A inteligência emocional, ligada à segunda infância, dá significado e sentido às coisas. A terceira inteligência dá capacidade de compreender o mundo. São essas três inteligências que tornam as pessoas inteiramente resilientes.

As três infâncias desenvolvem as três inteligências, mas o lado cognitivo da criança pequena é muito pequeno se comparado o lado cognitivo de um rapaz de 15 anos de idade. O aspecto afetivo é muito forte aos 8, 9, 10 anos de idade, muito mais forte do que quando a criança tem 5 anos e depois quando ela tem 16. Então, um adulto travado emocionalmente, pode ter certeza, teve dificuldades na segunda infância.

Um adulto resiliente é uma pessoa bem formada nos três âmbitos de inteligência, nas três infâncias. Com isso, é possível enfrentar as situações da vida e não ficar mal. Ficar mal significa entrar em conflito por não saber lidar com recursos criativos, nem compreender as coisas, nem ter força de vontade. Essa pessoa fica estressada e adoece. Isso interfere na felicidade e na saúde.

“O grande canal dos professores é a arte, que é um caminho para os sentimentos”.

Que tipo de dificuldade durante a segunda infância tornaria uma pessoa travada?
A experiência de pais muito racionais que educam sem poder falar de sentimentos. O modelo mais tradicional de pais no mundo moderno ocidental é de pais muito inteligentes e sedentários, que, na primeira infância, não brincam com a criança e a deixam na realidade virtual, na televisão e no videogame. Na segunda infância, que é um período afetivo, eles têm dificuldade de falar de sentimentos e repreendem as crianças. Na terceira infância, eles querem explicar o mundo para as crianças, mas elas não são amigas deles. Então, um adulto travado pode ter tido pais que não sabem lidar com sentimentos.

Os professores podem ajudar a combater esse travamento?

O grande canal dos professores é a arte, que é um caminho para os sentimentos. A criança se expressa em pintura e em desenho, por exemplo. Uma criança com câncer não consegue falar sobre a morte, mas ela consegue fazer desenhos sobre a morte.

Isso acontece em todas as três infâncias que você citou mais cedo?

Em todas as infâncias, mas especialmente dos 5 anos e até a puberdade, que é a época que começa a desabrochar sentimentos de amor e ódio em relação ao mundo. O lado artístico aqui é fundamental. Na primeira infância, a arte é uma brincadeira, a criança pinta brincando. Aos 7 anos, a criança tem a parte motora desenvolvida de tal forma que pode aprender um instrumento musical. Nesse momento, a criança tem habilidade para expressar o que está pensando. Até sete anos, a criança não consegue fazer nenhum esporte ou arte direito, ela precisa ter experiências bem livres.

“Os nomes das coisas podem aparecer, mas o objetivo não é que a criança se torne uma nomeadora de coisas”.

O que é mais importante, na primeira infância (de 0 a 7 anos), para a criança desenvolver a resiliência, tendo em vista que durante essa etapa da vida ela desenvolve especialmente a motricidade a partir do brincar?
De 0 até 7 anos, a criança desenvolve principalmente os membros e a barriga. Ela come e dorme muito. As funções vegetativas são muito importantes. Quando a criança está acordada, a consciência dela não é racional. A pior coisa que os pais podem fazer nessa época é conceituar o mundo para a criança perguntando: “Filho, isso é um triângulo?”, “Filho, isso é cor vermelha?”, “Filho, o que é isso? É uma girafa?” Essa é a época da criança fantasiar. Os nomes das coisas podem aparecer, mas o objetivo não é que a criança se torne uma nomeadora de coisas. Isso quebra com a criatividade dela.

“É fundamental desenvolver a percepção na primeira infância.”

Qual o problema de nomear as coisas para as crianças nesse período da vida?
Imagina se toda vez que uma criança vê um ser humano ela diz: “isso é um ser humano”. Se isso acontece, ela nunca vai poder perceber a singularidade de um ser humano. A mesma coisa acontece com as borboletas. A criança precisa ver que uma borboleta não é igual a outra, porque tem um azul especial, por exemplo. Se a criança adere ao conceito “borboleta”, ela nunca vai distinguir uma borboleta da outra. O mundo dela vai virar pastel, ela vai chamar as coisas de leão, borboleta e casinha.

É fundamental desenvolver a percepção na primeira infância. Os sentidos são uma experiência que não tem a ver com conceitos. Pais muito classificatórios têm filhos muito classificatórios.

“Você quer entrar no mundo do seu filho ou quer que ele entre no seu mundo?

Como não ser classificatório com a criança?
Você precisa entrar no mundo da criança. Por exemplo, uma criança de quatro anos pode, com a imaginação, entrar dentro de uma casinha de brinquedo e inventar uma história. Uma criança de 8 anos vai abrir a casinha no meio para ver do que é feita. Um adulto, para não ser classificatório, teria que entrar no mundo da fantasia, entrar na casinha também e inventar uma história. Quando um adulto está com uma criança pequena, ele tem que deixar de ser adulto e entrar no mundo da criança para poder dialogar.

A grande questão a se fazer para os pais é: “você quer entrar no mundo do seu filho ou quer que ele entre no seu mundo?”. Se a opção for a segunda, a criança vai virar um adultinho. Se você veste a camisa do seu filho, senta no chão, brinca junto e entra numa fantasia de horas e horas, ele fica muito mais feliz. O adultinho tem medo porque sabe tudo o que acontece acompanhando o noticiário do Jornal Nacional. Ele sabe dos perigos e fica antenadíssimo. Quando o pai entra no mundo da criança, ele rejuvenesce e fica mais feliz. Então, não classificar é sair do nosso mundo adulto, racional, pouco motor e pouco artista. Entender o desenvolvimento infantil é desacelerar um pouco e entrar no mundo da criança. É um desafio.

Existiria um passo a passo para os pais seguirem com seus filhos para que eles se tornem adultos resilientes?

Um adulto bem desenvolvido tem bastante capacidade criativa. Um adulto que teve, durante a infância, um impedimento de desenvolver seu lado criativo – que estudou, por exemplo, numa escola muito cognitivista e teve pais muito intelectuais -, não consegue brincar com a criança.

Não existe passo a passo, nem fórmulas, existe a compreensão do que deve ser desenvolvido durante a infância e do que o adulto deve ter para lidar com a infância. Se o adulto, por exemplo, tiver enorme dificuldade com matemática, ele vai lidar muito mal com o filho quando ele entrar no Ensino Médio: esse é o momento em que o filho entra no mundo da lógica, mas o pai não é lógico, não sabe ganhar dinheiro, só sabe criar. Então, esse pai brinca muito com o filho na primeira infância, mas, quando o filho virar mais racional, esse pai vai falar “filho, eu não te entendo”. Então, precisamos fugir das fórmulas.

Uma escola Waldorf privilegia muito o brincar e a arte, mas pode ter dificuldade de lidar com a racionalidade. Claro que isso depende da escola Waldorf. A maioria das escolas no Brasil são cognitivistas, bem conceituais. Nelas, a arte é apenas uma pincelada no currículo. Se os pais colocarem seus filhos nestas escolas, eles precisam se preocupar em desenvolver mais o lado artístico fora de sala de aula.

“A gente educa o que a gente é”.

Que trabalho é possível fazer com os pais para conscientiza-los sobre estas questões?

É importante perguntarmos para os pais: “você brinca?”, “Como está o convívio com os seus amigos?”, “Você só está focado em trabalho?”. Se os pais não tiverem amigos, eles não conseguem ensinar muito o filho a brincar, porque eles não brincam com ninguém.

Há esse lado motor, lúdico, de encontro pessoal, de saber conviver socialmente. Isso tudo é muito importante para os pais saberem conviver com o filho. Pais bem formados educam bem os seus filhos. A gente educa o que a gente é.

Para você, como seria uma educação escolar ideal para que a criança desenvolva a resiliência?

O ideal seria uma salada mista ou um suco misto dos modelos pedagógicos existentes para pegar o melhor de cada um. Não posso defender um método pedagógico, só posso dizer que o modelo cognitivista – que é o modelo das escolas tradicionais, baseadas em conceitos – leva à evasão escolar e a uma falta de vontade de aprender. Por que aprender o nome em latim de todos os dinossauros no século XXI? Isso significa sair da realidade e ir para um mundo pré-histórico em que nenhum homem viveu. Hoje, as pessoas querem saber um monte de coisas que não tem a ver com a realidade. Isso gera um grande distanciamento social.

É importante permitir que as crianças tenham experiências: ter contato com a natureza, observar o mundo e aprender por dedução. Há várias escolas que favorecem isso, como as escolas construtivistas, as escolas Waldorf, a escola da Ponte, entre outras. Esses são movimentos de contracultura ao cognitivismo.

“Só pensamos em mudar algo se estamos insatisfeitos”.

Como você acha que seria possível conscientizar o poder público, que em geral deixa a educação de base tão de lado, da importância de um modelo menos cognitivista, menos tradicional, e que trabalhe mais o brincar e a arte?

Um dos pontos fundamentais para influenciar o poder público é embasar essas questões tecnicamente a partir da neurociência. A neurociência mostra que o aprendizado não é só conceitual, o aprendizado envolve o corpo inteiro. A força de vontade – inclusive de aprender – está muito relacionada a neurotransmissores que estão no intestino e são estimulados muito na primeira infância (de 0 a 7 anos) por ritmos, movimentos e brincadeiras. Esse embasamento comprova que uma educação menos cognitivista não é uma ideia de hippies ou de um grupo louco. De outro lado, é importante fazer uma análise crítica do modelo atual. Só pensamos em mudar algo se estamos insatisfeitos.

“A proposta pedagógica não é que se tenha bom caráter, a proposta é formar uma pessoa inteligente para passar no vestibular”.

Qual a crítica que você faz ao modelo de educação atual?

O modelo atual é cognitivista. Quando um pai educa um filho, o que ele quer? Quer que se torne uma pessoa boa? Que tenha senso estético? Ou que seja inteligente? Ele quer que seu filho seja inteligente, esse é o valor da sociedade hoje. A proposta pedagógica não é que se tenha bom caráter, a proposta é formar uma pessoa inteligente para passar no vestibular.

Outro aspecto presente na escola tradicional é o de avaliar e comparar pessoas com notas. Existe a meta de se tornar um ótimo aluno. O modelo hoje forma pessoas inteligentes e competitivas. O que seria um jovem bem-sucedido aos 26 anos? Seria um empresário, ambicioso, que consegue fazer parte da sua formação nos Estados Unidos, mas que não necessariamente vai ter um bom relacionamento humano com as pessoas. Imagine se todo mundo quer se tornar o primeiro aluno da turma desde os sete anos de idade: é a guerra de todos contra todos. Então, temos que analisar qual é a consequência do ensino de hoje e pensar em modelos mais cooperativos e mais integradores. A escola precisa formar pessoas mais humanas.

Além disso, hoje em dia, muitas escolas pensam que o que é moderno é simplesmente colocar computadores para o alunos. Não sou contra o computador, ele pode ser uma ótima ferramenta de aprendizado, mas ele vem de um modelo que privilegia o lado cognitivo. Então, na mesma hora que se coloca o computador na escola, deveria ter aumento na carga horária de artes. O computador gera sedentarismo nas crianças. Tem estudos que mostram que crianças mais alérgicas têm tendência a piorar com falta atividades motoras e físicas. Então, esse modelo sedentarista muda, por exemplo, a constituição imunológica da criança e deixa a criança mais alérgica. As crianças alérgicas precisam suar.

Imagine que toda grade curricular escolar da infância fosse um cardápio de alimentação para tornar um adulto informado. O lado conceitual seria a carne e o lado artístico e motor seriam carboidratos, sementes, fibras e brotos. Hoje em dia, a alimentação básica escolar, fazendo um paralelo, privilegiaria a carne. A carne seria o prato principal e constituiria 70% da alimentação, sendo 30% perfumaria com poucas aulas de educação física e artes. Nessa grade curricular, os conceitos são privilegiados para que a criança chegue no Ensino Médio, passe no vestibular e, em seguida, esqueça tudo. Numa dieta ideal, quanto seria o ideal de carne? Seria 30% de carne, 70% deveria ser carboidrato e outros elementos com oleogenosas, que são gorduras com qualidade. Isso é a alimentação ideal. Existe uma inversão na alimentação e o mesmo acontece na educação escolar.

“Cada uma fica em sua casa assistindo televisão”.

Nesse contexto, qual é a importância de resgatar a importância do brincar?

Valorizo a política do brincar da Aliança pela Infância, por exemplo, porque o brincar é um antídoto contra o excesso de cognitivismo. Uma criança educada por pais muito intelectuais não sabe brincar. Eu vejo isso no consultório todos os dias. São crianças que não conseguem se desligar da conversa do pai com o médico e não conseguem entrar na brincadeira. Isso acontece porque a criança está em um ambiente alerta e intelectual. Estamos vivendo uma crise de infelicidade na infância. Uma criança que não consegue entrar nesse mundo da fantasia não é feliz. Ela é assustada e tem medo. É isso que a gente está formando hoje em dia.

Isso é supertriste. O que é modelo de uma criança feliz? É uma criança correndo, na natureza, rindo, com outras crianças junto, empinando uma pipa. Mas as crianças não têm um espaço público lúdico para brincar. Cada uma fica em sua casa assistindo televisão.


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[1] http://www.antroposofy.com.br/forum/o-desenvolvimento-da-resiliencia-durante-a-infancia/

sábado, 14 de novembro de 2015

Sobre Psicoterapia

Por Rosangela Brunet
Não preciso dizer que a técnica é necessária, disso todo mundo já esta convencido de há muito. Mas, por trás de todo método esta o homem, muito mais importante do que aquele, pois independente de qualquer técnica é ele que deve tomar as decisões humanas , que para o paciente são , no mínimo de importância tão vital quanto a técnica empregada com sabedoria e competência. Por isso o psicoterapeuta esta obrigado a um autoconhecimento e a uma crítica de suas convicções pessoais e filosóficas tanto quanto um cirurgião esta obrigado a uma perfeita assepsia .O médico deve conhecer sua equação pessoal para não violentar seu paciente “Carls Gustva Jung, In: " Civilização em Transição", 26 de julho de 1875, Kesswil, Suíça
Na  relação que estabeleço com o paciente, a cena inconsciente  me interessa.O diálogo acolhido .Um trabalho de acordos Uma  formação em processo .Valores pessoais e esquemas de referências estão ali,mas não podemos nos apropriar deles como nossos.
Há uma prática  se encontrando com o sujeito que foi barrado.Agora, nele, há uma intenção de Ser ,e nós como psicoterapeutas, entramos  com humildade nesse mar de solidão. Estamos diante de alguém que busca o encontro, ainda que não encontre meios de enfrentar  esse impasse.
Os padrões corporais cronicamente rígidos, juntamente com as representações mentais, crenças e valores que sustentam esses padrões, constituem a estrutura de carácter, que influencia a autopercepção física, a auto-estima, a auto-imagem e o intercâmbio com o ambiente. O terapeuta ... possui uma segunda linguagem, com o uso da terapia corporal, com a qual se pode comunicar com o seu cliente. Esta segunda linguagem possibilita reviver as relações primárias do cliente e alcançar mais facilmente um nível mais profundo de experiência do que aquele obtido com a abordagem puramente verbal....Na medida em que aumentamos a energia no corpo, ampliando nossa respiração, mobilizamos factos, imagens, recordações, que trazem um registro corporal , um significado, uma couraça muscular. Na terapia Bioenergética, o cliente irá repaginar sua vida criando um novo registro corporal que lhe trará mais liberdade e alegria de viver."(Susana Zaniolo Scotton)




O objetivo é a liberdade, o equilíbrio e a autonomia. Ser quem realmente se é com sua singularidade e sua essência .Cada um esta traçando sua  jornada , e esse caminho é solitário e sagrado. Não se pode tocar este solo. Nosso papel é sermos livres no olhar, sermos responsáveis nas intervenções, omissos nas regras.Não há certo ou errado. Bom ou ruim . Agimos como espelhos  e , se  for a hora,  entramos em cena como coadjuvantes.
Estamos lidando com um universo subjetivo , e ali, o respeito, o acolhimento e a aceitação incondicional são  leis irrevogáveis . A consciência do outro é apenas um sinal  possibilitando a  evidência de estarmos em contato com o Todo. Nada mais é absoluto. 
Os sentimentos, pensamentos e valores são registros a serem investigados para a   ampliação da consciência, promovendo uma   percepção de mundo e de si mesmo alargada. 
Nesse processo as relações se transformam, novos sentidos de vida surgem, os desejos se  alinham em paz com o mundo.  
No diálogo terapêutico há um mundo a se desbravar.A  permissividade e segurança se aprofundam. A compreensão entra em contato com o que não havia sentido. É como uma composição artística que agora esta pronta para ser exposta.Aberta aos  julgamentos e novos olhares, pois nesse instante do ato, o sujeito encontrou um caminho para ser  livremente. 
“A análise é árdua .... Mas quando se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável,o remédio é esse. Pelo menos, eu o experimentei (...) Não mais sentir vergonha de si mesmo é a realização da liberdade (…).Isso é o que uma (Psicoterapia) bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro”. Françoise Giroud.
Sua história ,agora, esta na vitrine , e há um scritp inesperado, um movimento (des)ensaiado, um ator em cena que não precisa decorar sua fala. Agora , ele improvisa, associa, fala. 

 O "insight",   acontece  no seu tempo. Ela percebe a si mesma enquanto fala , em suas  falas  ele desencadeia suas falhas e se esbarra em suas faltas. Um novo olhar  amanhece, o sol muda de lugar. A profundidade do mar se amplia
A  autenticidade  não parece mais uma ilusão. Ela existe, e fim. Os caminhos se abrem e os laços  presentes  são seus guias .Tomou consciência de si.Agora suas escolhas se encontram com seus desejos, indo em direção ao desenvolvimento e harmonia do seu ser 

"A vantagem principal da terapia é ajudar a pessoa a parar de lutar contra si mesma. Essa é uma luta autodestrutiva que esgotará a energia da pessoa e a nada a levará. Muitas pessoas querem mudar. É possível mudar; mas isto tem que começar pela auto-aceitação. A mudança faz parte da ordem natural. A vida não é estática, está constantemente evoluindo ou involuindo. Não é preciso fazermos nada para crescer. O crescimento acontece natural e espontaneamente quando a energia esta disponível. Mas quando usamos nossas energias numa luta contra o nosso caráter (destino), não nos resta energia para crescer nem para o processo de cura natural. Sempre me deparei com o fato de que, tão logo o paciente aceite, ocorre alteração em sua sensações, comportamento e personalidade."
(Alexander Lowen)