sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Principal Missão do Homem na vida, é Dar a luz a si mesmo e tornar-se aquilo que ele é potencialmente" ERICH FROMM

Por Rosangela Brunet
O arquétipo do Si-mesmo: AION. A origem deste nome é a palavra grega (éon) ou (era), e a intenção é fazer referência à era do cristianismo e ao desenvolvimento psíquico coletivo que o simbolismo cristão representa. Jung examina o simbolismo cristão, especialmente Cristo e o simbolismo do peixe tão intimamente associado a Cristo, como forma de obter uma visão mais clara do que ele chama de Si-mesmo, a imagem de Deus dentro da alma, a imagem arquetípica de totalidade e realização." Instituto C. G. Jung MG
Baseado no que  disse ERICH FROMM o homem tem como principal objetivo dar a luz a si mesmo, descobrir-se como ser.  Reconhecer os sentimentos ,sensações e percepções que fazem parte desta jornada em busca de si mesmo é impagável.Mas como disse Rodrigo Freitas dos Santos de São Gabriel /RS:
"Com frequência, quem sou eu senão aquela que aparece à frente do farol. Lançada por sobre o mundo das formas, e sobre as cabeças das pessoas, voltando contra eu próprio em manifestações de repressão e lapsos?...Com frequência, quem sou eu senão a escuridão das sombras? Sei que as outras sombras não me podem compreender, porque uma sombra só pode ser compreendida, jamais compreender"
O medo da não-existência é nosso castelo de horror.O maior pesadelo da humanidade é enfrentar cada cômodo deste lugar. Assistir cada registros de vida se desprendendo .Sentir a ruptura de ser sempre o mesmo.Se cindir de estar no mesmo caminho.Uma partida.Um novo olhar.
Obra de Poteet Victory
No ato de criação vou  dialogando comigo e me vejo  encharcada de encontros sinestésicos e eufemismos coloridos que absorveram meu ser em transformação. Assim ,então ,apresento meu diálogo neste processo de autoconhecimento e individuação: Sou leve e propício a voar,sair do chão ,me distanciar da realidade.Muitas vezes quero abandonar a razão.Sou cheia de energia.O que me impulsiona é a paixão.O enfrentamento do inferno.As sombras que reconheço em mim.Catarse desvelada.O Sonho navegando na ilusão ,enxergando o improvável, o impossível ,o inalcançável.É isso que me faz viver,me direciona e me liberta das regras cerradas e imposições sociais mascaradas de educação.É o instinto favorecendo a imagem, a pulsão á serviço da criatividade,sublime(ação) do sofrimento construindo a arte de viver.A fantasia me ajuda a criar. Escapar do sofrimento; da dor ou alguma pressão quando me atravessa se transforma é meu combustível.Elementos compostos de avanços que me sobressaltam e me fazem alcançar novos olhares. Levito sem pudor. Mola mestre dos meus revezes. Descubro ali novas viagens,enxergo novos horizontes, estendo meus limites, e desbravo novas terras para fora/dentro de mim.Essa odisseia é um encontro com ideias e universos.Vou em busca de mim num movimento rítmico de individuação.Música e poesia me arrastam nesse processo milagroso.Conectada em movimento. Integração. Meu espetáculo de vida.
Quando estou criando me movo com energia de me ser, uma magia de me fluir em forças diversas e improváveis saindo de mim. Sinto  um movimento de integração .Um processo se desenvolvendo em direção ao desconhecido, em busca da totalidade e não da perfeição.Vida fluindo. Adversidades , e eu me transformando diante dos cenários fascinante.Sou ordem e determinação em suaves e delicados pincéis de seda deslizantes.Então assim não me permito mais voltar ao plano que me limita.Liberdade de ser é meu horizonte.Energia móvel.Força motriz de um indivíduo que insiste em sonhar.Viver outros mundos saindo de um só horizonte.Ando em função da força dessa paixão.Carl Gustav Jung dizia: 
"Se compreendermos e sentirmos que nesta vida já temos um vínculo com o infinito, nosos desejos e nossas atitudes sofrem uma transformação. Numa análise final, só valemos alguma coisa por causa do essencial que personificamos, e se não personificarmos isso, a vida será desperdiçada"
Esse é o sangue que corre dentro de mim. A vida que tenho em minha veia é busca desse (Ser) .Não há horizonte que me limite.Vou em liberdade em direção ao que quero e me poupo do tédio de viver o que me anula.A minha indignação é o limite e as imposições que os opositores estabelecem, mas então eu incendeio e saio novamente para descobrir o que não entendo.Sou minha melhor companhia em dias de sofrimento.O que me rodeia de dor é o espaço que me sustenta em pé.E, é isso, que me diferencia dos que me querem colocar no chão.O contraditório do meu chão é ar, é o fogo da paixão que me levanta dentro de meu universo .Terra, ar, fogo e água.O equilíbrio esta no horizonte que alcanço em meus meus olhos, no fogo que me queima e na água que me submerge, e me faz renascer todos os dias.Preciso ver além nessa experiência de individuação, e nesse momento a experiência da razão é apenas uma parte da história, mas a intuição é onde me habito onde não me conheço, o desconhecido, o mar imerso,o inabitável, ,inalcançável, e o impronunciável é meu chão eterno.Ali me encontro com a Criação- Um Universo inalcançável.E nessa viagem vou me perdendo neste céu imensurável de não se sabe o que, atravessando desertos , avistando cenários de embarcações em mares jamais navegados.Aqui todos os elementos estão presentes numa consciência maior que eu chamo de Deus." Carl Gustav Jung disse uma vez: "Siga essa vontade e esse caminho que sua experiência confirma ser o seu próprio Eu ." E, na busca da verdade cito  André Silveira Sampaio
"O conceito de verdade não nasceu com a filosofia. É bem mais primal, entrelaçando-se com a própria gênese da linguagem e da cultura. Nomear, por si só, constitui ato que concede certa verdade às coisas do mundo. Porém, a filosofia traz a verdade para o foco das preocupações: de virtude a ser buscada, a critério do saber(...) Platão descreve, em sua alegoria da caverna, o confinamento dos homens ao mundo das aparências, onde acreditam serem as sombras imperfeitas, projetadas em uma parede, toda a realidade existente. Somente o sábio consegue aventurar-se no mundo exterior, o mundo das ideias, e, fora da caverna, vislumbra a verdade: as formas das quais, na visão do filósofo, a realidade só possui cópias imperfeitas. A verdade do mundo das ideias, na visão do ateniense, é forma e fôrma para o mundo sensível.A questão da verdade transita, tortuosamente, pelos séculos e pelos pensadores, até os dias atuais. "


sábado, 21 de junho de 2014

As escritoras mulheres também não estão imunes ao álcool

 Por Olívia Lainga, na Folha de S.Paulo [via The Guardian]

A escritora francesa Marguerite Duras

“O alcoolismo é escandaloso numa mulher”, escreveu Marguerite Duras


Se você escreve um livro sobre o álcool e os escritores homens, como eu fiz, a pergunta mais frequente que ouvirá é: “E as mulheres? Existem escritoras alcóolatras? As histórias delas são as mesmas ou são diferentes?” A resposta à primeira pergunta é fácil. Sim, é claro que existem, entre elas figuras brilhantes e inquietas como Jean Rhys, Jean Stafford, Marguerite Duras, Patricia Highsmith, Elizabeth Bishop, Jane Bowles, Anne Sexton, Carson McCullers, Dorothy Parker e Shirley Jackson.
O alcoolismo é mais prevalente entre os homens que entre as mulheres (em 2013 o NHS, o serviço nacional de saúde britânico, calculou que 9% dos homens e 4% das mulheres eram dependentes do álcool). Mesmo assim, não faltam mulheres que bebem muito; não faltam tardes em que elas caem prostradas, nem bebedeiras que se prolongam por dias. As escritoras mulheres não têm sido imunes à atração do álcool, nem ao envolvimento nos problemas de vários tipos que perseguiram seus colegas homens –as brigas e prisões, as escapadas humilhantes, o lento envenenar das amizades e relações familiares. Jean Rhys passou algum tempo detida na prisão de Holloway por agressão física; Elizabeth Bishop em mais de uma ocasião bebeu água de colônia, depois de esgotar as possibilidades do bar doméstico. Mas as razões pelas quais elas bebem são diferentes? E o que dizer das reações da sociedade, especialmente no século 20, regado a álcool –a era de ouro, se podemos chamá-lo assim, do álcool e do escritor?
Em seu livro de 1987 “La Vie Matérielle” (A vida material), a escritora e cineasta Marguerite Duras diz muitas coisas chocantes sobre o que significa ser mulher e escritora. Uma de suas afirmações mais surpreendentes é sobre a diferença entre o alcoolismo de homens e mulheres, ou melhor, sobre a diferença de percepções a seu respeito. “Quando uma mulher bebe”, ela escreve, “é como se um animal ou uma criança estivesse bebendo. O alcoolismo é escandaloso numa mulher, e uma alcoólatra mulher é algo raro, um problema sério. É uma mancha feita no divino em nossa natureza.” Pesarosa, ela acrescenta um adendo pessoal: “Tive consciência do escândalo que eu estava criando à minha volta”.
Duras refletiu que foi alcoólatra desde quando tomou seu primeiro drinque. Às vezes conseguia parar por anos a fio, mas em suas fases de bebedeira ela se excedia completamente: começava a beber assim que acordava, parava para vomitar os dois primeiros copos e então acabava com até oito litros de Bordeaux antes de desmaiar. “Eu bebia porque era alcoólatra”, Duras disse ao “New York Times” em 1991. “Eu era alcoólatra de verdade, como a escritora. Eu sou uma escritora de verdade, era uma alcoólatra de verdade. Bebia vinho tinto para adormecer. Depois, conhaque durante a noite. A cada hora um copo de vinho, e pela manhã, conhaque depois do café, e depois disso eu escrevia. O que é assombroso, quando olho para trás, é como consegui escrever.”
A escritora Patricia Highsmith (1921-1995)
 aos 21 anos, fotografada Rolf Tietgens
A escritora Patricia Highsmith (1921-1995) aos 21 anos, fotografada Rolf Tietgens
O que também é assombroso é quanto ela conseguiu escrever e como é alta a qualidade da maioria de seus escritos, elevando-se sem dificuldade sobre as condições às vezes árduas da produção. Duras escreveu dúzias de romances, entre eles “Barragem contra o Pacífico”, “Moderato Cantabile” e “O deslumbramento”. Seu trabalho é elegante, experimental, apaixonado, evocativo e visualmente notável –quase alucinatório no apelo que lança aos sentidos, em sua força rítmica. Precursora do “nouveau roman”, ela dispensou as convenções de personagens e trama, a mobília pesada do romance realista, ao mesmo tempo em que conservou uma austeridade quase clássica –uma clareza de estilo que era fruto de um trabalho obsessivo de revisão de seus textos.

Sua infância foi marcada pelo medo, a violência e a vergonha –um encadeamento comum na infância de um viciado. Nasceu como Marguerite Donnadieu (Marguerite Duras foi seu nome literário) em 1914, na então Saigon, filha de pais franceses, ambos professores. Seu pai morreu quando Marguerite tinha 7 anos, deixando a família na pobreza abjeta. Sua mãe economizou durante anos para adquirir um sítio, mas foi ludibriada no preço, comprando um terreno regularmente inundado pelo mar. A mãe e o irmão mais velho de Marguerite a espancavam. Ela lembrou que caçava aves na selva para cozinhar e comer e nadava em um rio que ficava cheio dos cadáveres de criaturas diversas que tinham morrido rio acima. Na escola, teve um relacionamento sexual –aparentemente incentivado por sua família por razões financeiras– com um chinês muito mais velho. Mais tarde, na França, se casou, teve um filho com outro homem, dirigiu filmes, viveu e escreveu com intensidade direcionada. Seu alcoolismo piorou com o passar das décadas, parando e recomeçando, ganhando força, até que, aos 68 anos, ela recebeu o diagnóstico de cirrose hepática e foi forçada a abrir mão completamente do álcool –uma experiência apavorante– no hospital americano de Paris.
Poucos escritores conseguem abandonar a bebida, e aqueles que o fazem com frequência sofrem um declínio em sua produção –algo que atesta não tanto o poder do álcool como estimulante da criatividade, mas como ele contribui para destruir a função cerebral, obliterar a memória e perturbar a capacidade de ex-alcoólicos de formular e expressar pensamentos. Mas Duras escreveu um de seus melhores romances, e com certeza o mais famoso, dois anos depois de ter parado de beber. “O Amante” conta a história de uma francesa de 15 anos na Indochina que tem um relacionamento erótico com –isso mesmo– um chinês muito mais velho. Boa parte do livro foi inspirado na violência e degradação das quais Duras emergiu.
Como deixam claro versões publicadas posteriormente, ela era capaz de retornar inúmeras vezes a essa cena primordial de infância, retraçando-a em uma variedade quase infinita de cores: às vezes erótica e romântica, às vezes brutal e grotesca. Narrar novamente as mesmas histórias, retornar repetidamente à substância que ela sabia que a estava destruindo: esses atos repetitivos, alguns deles geradores e outros profundamente destrutivos, levaram o crítico Edmund White a se perguntar se Duras não seria dominada por algo que Freud descreveu como a compulsão da repetição. “Conheço isso, o desejo de ser morta. Sei que ele existe”, Duras disse certa vez a um entrevistador, e é esse essa intensidade, essa visão absoluta e intransigente, que diferencia seu trabalho. Ao mesmo tempo, a afirmação parece lançar nova luz sobre como ela usou o álcool: como modo de ceder ao seu próprio masoquismo, à sua ideação suicida, ao mesmo tempo em que se anestesiava contra a selvageria que enxergava em ação em toda parte, preenchendo o mundo.
A infância de pesadelo da escritora suscita a questão das origens, do que causa a dependência alcoólatra e se a causa difere para homens e mulheres. Em cerca de 50% dos casos o alcoolismo pode ser herdado, uma questão de predisposição genética –o que significa que fatores ambientais como as experiências do início da vida e as pressões sociais exercem um papel considerável. Examinando as biografias de escritoras alcoólatras, encontramos repetidas vezes as mesmas histórias familiares sombrias que estão presentes na vida de seus colegas homens, de Ernest Hemingway a F. Scott Fitzgerald, de Tennessee Williams a John Cheever.
Elizabeth Bishop é um bom exemplo. Muitos de seus familiares foram alcoólatras, incluindo seu pai, que morreu quando ela era bebê. A vida de Bishop foi marcada adicionalmente pelo tipo de perda e insegurança física presente com frequência na história familiar de dependentes de álcool ou drogas. Quando ela tinha 5 anos, sua mãe foi internada em um hospital psiquiátrico. Elas nunca mais se viram. Em vez disso, Bishop foi encaminhada aos cuidados de diferentes tias; foi uma criança ansiosa e, quando se tornou estudante no liberal e exclusivamente feminino Smith College, de Massachusetts, descobriu com alívio a utilidade do álcool como facilitador social, só percebendo tarde demais que era também uma potencial fonte de
A poeta americana Elizabeth Bishop
vergonha, um motivo de isolamento.
Reprodução 
A poeta americana Elizabeth Bishop


No poema “A Drunkard”, Bishop emprega incidentes de sua própria vida para criar um retrato irônico de uma alcoólica, ansiosa para explicar sua sede incomum. “Eu tinha começado/ a beber & beber –nunca é o suficiente”, admite a narradora, um verso que lembra a declaração franca de John Berryman em “Dream Song: “A fome era parte integral dele/ vinho, cigarros, bebida, carência carência carência”.

O sentimento de vergonha foi um dos fatores principais que levavam Bishop a beber: primeiro, a vergonha internalizado que ela trazia desde a infância; mais tarde, a vergonha que se seguia às suas bebedeiras pavorosas. E havia também a questão da identidade sexual. Lésbica numa época em que a homossexualidade não era sancionada ou aceita, Bishop encontrou sua liberdade maior no Brasil, onde viveu com sua companheira, a arquiteta Lota de Macedo Soares. Passou seus anos mais pacíficos e produtivos no Brasil, embora tenham sido entremeados com bebedeiras, seguidas pelas inevitáveis brigas e confusões e pela assustadora deterioração de sua saúde física.

A vergonha é um fator também na vida de Patricia Highsmith, nascida Mary Patricia Plangman em 1921; seu sobrenome era uma lembrança indesejada do homem de quem sua mãe se divorciara nove dias antes de ela nascer. A própria Patricia não foi exatamente desejada. Sua mãe tinha tomado aguarrás quando ela tinha quatro meses, na esperança de abortar. “É estranho que você adore o cheiro de aguarrás, Pat”, dizia mais tarde. Essa piada soturna lembra Cheever, cujos pais também costumavam fazer piadas sobre o fato de terem tentado abortá-lo. Como Cheever, Highsmith tinha sentimentos complexos em relação à sua mãe, e, como Cheever, tinha um sentimento penetrante de ser fraudulenta, vazia, de algum modo fajuta. Diferentemente de Cheever, porém, ela foi corajosa ao seguir o rumo de seus desejos sexuais, embora tivesse um senso às vezes prazeroso, às vezes perturbador de desviar-se da norma, de andar na contramão da sociedade.

Ela foi uma criança ansiosa, chorosa, cheia de sentimentos de culpa –lúgubre, em suas próprias palavras. Aos 8 anos de idade, fantasiava assassinar seu padrasto, Stanley, e aos 12 se perturbava com as altercações violentas entre ele e sua mãe. Naquele outono, a mãe de Patricia a levou ao Texas, dizendo que ia se divorciar e viver no sul dos EUA com Pat e a avó desta. Mas, depois de algumas semanas dessa utopia exclusivamente feminina, Highsmith, mãe, voltou a Nova York, abandonando a filha sem explicações. Largada por um ano inteiro e sofrido, Patricia nunca superou o sentimento de ter sido traída e rejeitada.

Ela começou a beber quando era estudante no Barnard College, em Nova York. Numa anotação feita em seu diário na década de 1940, escreveu sobre sua ideia de que o álcool seria essencial para o artista, porque a fazia “enxergar outra vez a verdade, a simplicidade e as emoções primitivas”. Dez anos depois, descrevia dias em que ia para cama às quatro da tarde com uma garrafa de gim, antes de engolir sete martinis e dois copos de vinho. Nos anos 1960, Highsmith já precisava do álcool para continuar a funcionar e para conseguir sair da cama pela manhã. Ela mentia sobre seu consumo de álcool e também sobre toda espécie de detalhes maiores e menores –sobre ser ótima cozinheira e jardineira, embora seu jardim na época se resumisse a grama ressecada e ela frequentemente vivesse de cereal matinal e ovos fritos.

Muito do que ela sentia e de como se comportava entrou para suas obras, sendo transmitido para seu personagem mais famoso. Tom Ripley nem sempre bebe muito, mas compartilha com o alcoólatra completo a paranoia, o sentimento de culpa e o ódio por si mesmo, a necessidade de apagar seu próprio eu dolorosamente vazio e tênue ou escapar dele. Ripley vive se dividindo e mergulhando em outras identidades mais cômodas, embora esse próprio fato seja por si só vergonhoso e em muitos casos sirva como gatilho dos assassinatos casuais e medonhos que ele comete. Na realidade, toda a carreira de Ripley como assassino imita o alcoolismo, na medida em que é movida por uma necessidade de repetir uma atividade constantemente para apagar o problema que a atividade provocou. E há a atmosfera dos livros, o clima pesado de ansiedade e consciência de que as coisas não vão acabar bem, algo que é reconhecível instantaneamente de um sem-número de obras de alcoólatras. Considere este trecho de “O Talentoso Ripley”, em que Tom está em Roma, tentando convencer-se de que não será pego pelo assassinato de Dickie:

“Tom não sabia o que o atacaria, se fosse atacado. Não imaginava a polícia, necessariamente. Tinha medo de coisas sem nome, informes, que assombravam sua mente como as Fúrias. Conseguia caminhar confortavelmente por San Spiridione apenas depois de alguns coquetéis terem nocauteado seu medo. Então ele caminhava com andar confiante, assobiando.”

Bastaria trocar o nome para que o trecho pudesse ter saído diretamente de “The Lost Weekend”, de Charles Jackson [que inspirou o filme “Farrapo Humano”, ou de quase qualquer página dos diários de Tennessee Williams, obcecados pelo álcool.

Não há dúvida de que a infelicidade pessoal é parte da razão por que homens e mulheres criam o hábito de beber, mas essas histórias íntimas deixam de fora algo maior, menos fácil de ser contestado ou enfrentado por qualquer indivíduo. Como era a vida da mulher no Ocidente na maior parte do século 20 é resumido com aptidão e raiva por Elizabeth Young em sua introdução a “Plain Pleasures”, coletânea de contos de Jane Bowles. “Até os anos 1970 as mulheres eram descontadas e desprezadas”, ela escreve. “Eram, em massa, classificadas como crianças em termos de capacidade, mas, diferentemente das crianças, eram o alvo de virtualmente todas as piadas no repertório dos humoristas. Eram vistas como superficiais, fofoqueiras, vaidosas, pouco inteligentes e inúteis. As mulheres mais velhas eram barangas, megeras, sogras, solteironas. As mulheres eram visíveis no mundo real, o mundo dos homens, apenas enquanto eram sexualmente desejáveis. Depois disso, desapareciam por completo, enterradas vivas pela combinação repugnante de desprezo, aversão e sentimentalismo com que eram vistas.”

A título de ilustração, ela conta uma história sobre a escritora que Truman Capote, William Burroughs e Gore Vidal consideravam uma das maiores de sua época –uma gigante do modernismo, não obstante sua produção minúscula. Na meia-idade, depois de sofrer um derrame induzido pelo álcool, Jane Bowles foi encaminhada a um neurologista britânico que lhe disse em tom paternalista: “A senhora não está dando conta, minha cara sra. Bowles. Volte para seu fogão e suas panelas e procure dar conta de sua vida”.

Esse pouco-caso intenso com as mulheres, essa incapacidade de compreender os talentos ou a vida interior delas, era típico. Cenários semelhantes podem ser encontrados na vida de quase qualquer escritora notável do século 20. Tome-se o caso de Jean Stafford, que hoje tem mais chances de ser lembrada por ter sido casada com Robert Lowell que por seus contos, que lhe valeram um Prêmio Pulitzer, ou por seu romance extraordinário e selvagem “The Mountain Lion”. Esta obra foi publicada em 1947, quando ela se reabilitava do álcool no hospital psiquiátrico Payne Whitney, no interior de Nova York. Ali, seu psiquiatra estava menos interessado nas críticas de seu trabalho que em insistir que ela melhorasse sua aparência pessoal, trocando seus habituais suéter e calças folgadas por blusa, saia e colar de pérolas no jantar, “como uma estudante do Smith College”, como Stafford comentou ironicamente.

Não consigo pensar em nenhuma escritora que exprima essas pressões e hipocrisias melhor que a romancista Jean Rhys, que não pode ser descrita como feminista mas, mesmo assim, escreveu tão amargamente e em tom tão sombrio sobre a situação das mulheres que seu trabalho é perturbador, até hoje. Rhys nasceu na ilha de Dominica em 1890 com o nome de Gwen Williams, filha de pai britânico e mãe crioula. Como F. Scott Fitzgerald, foi uma filha de substituição, concebida nove meses após a morte de sua irmã. Como Fitzgerald, tinha uma sensação constante de estar do lado de fora, de não ser inteiramente real ou legitimamente digna de amor. Chegou a Londres aos 16 anos, uma menina bonita e completamente ignorante. Suas expectativas de uma vida nova e glamourosa foram frustradas pelo ar cinzento, o frio inclemente e as pessoas competentes, casualmente cruéis. Seu pai morreu enquanto ela cursava a escola de teatro, mas em vez de voltar para casa ela fugiu da escola, tornando-se bailarina do coro de espetáculos musicais e mudando seu nome para Ella Gray.

Ella Gray, Ella Lenglet, Jean Rhys, sra. Hamer: fosse qual fosse o nome que estivesse usando, Rhys estava sempre a ponto de se afogar, sempre desesperada para encontrar um homem que a salvasse e a levasse para o tipo de mundo de segurança e luxo pelo qual ansiava. Não acostumada a receber amor, ela escolheu mal, ou talvez simplesmente tenha tido má sorte, apostando em homens que a deixaram ou que de algum modo foram incapazes de lhe dar a espécie de segurança financeira e emocional pela qual ansiava. Ela teve um aborto, se casou, teve uma filha, teve um bebê que morreu e uma filha, Maryvonne (que passou a maior parte da infância sendo cuidada não apenas por outra pessoa, mas em outro país), casou-se uma segunda e uma terceira vez, e, ao longo de todas essas aventuras malfadadas, sempre esteve à beira da miséria.

O álcool não demorou a tornar-se uma maneira de ela enfrentar os problemas e a confusão, de apagar os elementos mais sombrios, preenchendo temporariamente um insuportável buraco negro de carência. Como diz sua biógrafa Carole Angier: “Seu passado a atormentava tanto que ela teve que escrever sobre ele, e então o escrever a atormentou: ela precisava beber para escrever e precisava beber para viver”.

Mas o que emergiu da confusão toda foi uma série de romances milagrosamente lúcidos: estranhas e escorregadias maravilhas do modernismo, sobre mulheres alienadas, desenraizadas, à deriva no “demi-monde” de Londres e Paris. Esses livros –”Quartet”, “After Leaving Mr. Mackenzie”, “Voyage in the Dark” e “Bom Dia, Meia Noite”– mostram o mundo como se apresenta desde a perspectiva dos despossuídos. Eles tratam de depressão e solidão, sim, mas também de dinheiro: dinheiro, classe social, esnobismo, e o que significa não ter dinheiro para comer, ou quando seus sapatos estão ficando gastos e você não consegue mais manter as pequenas aparências burguesas; as maneiras de se virar, de ser aceita na sociedade. Rhys é brutal no retrato que faz de uma sociedade em que não existe rede de segurança para uma mulher sozinha e que está envelhecendo, vendo esgotar-se a única moeda confiável que possui.

No magnificamente instável “Bom Dia, Meia Noite”, ela mostra precisamente por que uma mulher como essa pode voltar-se ao álcool, diante das opções limitadas de trabalho ou amor. Ao mesmo tempo, e como seu quase contemporâneo Fitzgerald, Rhys emprega a embriaguez como técnica do modernismo. O livro é escrito numa primeira pessoa maravilhosamente flexível, deslizando e escorregando entre os mutantes estados de ânimo de Sasha. “Já estou farta destas ruas que transpiram um lodo frio e amarelo, de pessoas hostis, de chorar até pegar no sono todas as noites. Estou farta de pensar, chega de recordações. Quero uísque, rum, gim, xerez, vermute, vinho com garrafas rotuladas ‘dum vivimus, vivamus ‘ Beber, beber, beber… Assim que fico sóbria, recomeço. Às vezes tenho que me forçar para engolir. Não sei por que não fico com ‘delirium tremens’ ou algo assim.”

Rhys desapareceu das vistas públicas novamente durante a guerra, reemergindo em 1956, depois que a BBC transmitiu um anúncio buscando informações sobre a escritora, que se acreditava que tivesse morrido. Passou a década de 1960 isolada num vilarejo em Devon, vivendo com seu terceiro marido, o nevrálgico Max Hamer, que tinha cumprido pena de prisão por fraude e se tornara inválido após um derrame. Nesse período tenebroso, Rhys foi atormentada por extremos de pobreza e também por seus vizinhos, que a julgavam bruxa. Chegou a ser internada brevemente num hospital psiquiátrico, depois de atacar um deles com uma tesoura. As bebedeiras continuaram, piores que antes. Mesmo assim, ela estava trabalhando sobre um novo romance, “Vasto Mar de Sargaços”, uma “prequela” (que relata a história anterior a) de “Jane Eyre”, inspirada em sua infância no Caribe, seu sentimento de ser uma “outsider”, isolada pelos frios e impenetráveis ingleses.

Diana Athill escreve em “Stet”: “Ninguém que tivesse lido os quatro primeiros romances de Jean Rhys poderia imaginar que ela fosse muito boa em viver a vida, mas ninguém que a conhecesse pessoalmente poderia saber até que ponto ela era ruim nisso”. Athill tornou-se editora de Rhys nessa época, virando sua amiga, como também fizeram Sonia Orwell e Francis Wyndham, protetoras e guardiãs de seu renascimento, o sucesso que chegou tarde demais e após sofrimento demais para fazer uma diferença real para o devastado mundo interior de Rhys.

Em seus escritos sobre Rhys, Athill debate internamente aquela que pode ser a questão central do escritor alcoólico, ou seja, como é que alguém que é tão incompetente quando se trata de viver, tão incapaz de encarar os problemas e assumir a responsabilidade por seus próprios erros, pode ser tão bom em escrever sobre isso, em focar a atenção diretamente sobre algo que, de outro modo, seriam pontos de total cegueira. “Seu credo –tão simples de declarar, tão difícil de seguir– era que ela devia dizer a verdade; devia colocar as coisas no papel como realmente eram. Esse empreendimento ferrenho lhe possibilitou chegar pela escrita à compreensão de sua própria natureza ferida.”

Esse caráter férreo está presente em toda parte na obra de Rhys, convertendo a autopiedade em crítica impiedosa. Ela mostra como funciona o poder e como as pessoas podem ser cruéis com aquelas que estão abaixo delas, revelando, também, como a pobreza e as regras sociais amarram as mulheres, limitando suas opções, até que uma cela no presídio de Holloway e um quarto de hotel em Paris tornam-se praticamente indistinguíveis. Não é de maneira alguma um feminismo de tipo triunfal, uma afirmação de independência e igualdade, mas um relato selvagem e obsessivo de manipulação, censura e injustiça que podem levar mesmo a mulher mais lúcida a beber, beber e beber.
OLIVIA LAING é autora de “The Trip to Echo Spring: On Writers and Drinking” (Picador).


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/06/1473142-as-escritoras-tambem-bebiam.shtml 
Tradução de CLARA ALLAIN

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Arquétipo Sombra

Por Rosangela Brunet


Todo mundo tem uma sombra e quanto menos ela se incorporar a sua vida consciente mais escura e densa ela será.Aquilo que não fazemos aflorar á consciência aparece em nossas vida como destino.De qualquer modo, ela forma uma trava inconsciente que frustra nossas melhores intenções" (Carl Gustav Jung)
O inconsciente é um universo habitado por um "outro" DESCONHECIDO" , e nele estão submersas lembranças, palavras estruturadas, representadas, esquecidas e significadas, Nele a infância ainda existe plena e intacta .É o paraíso dos significantes pairando sob o não-dito que denúncia um sujeito desconhecido de si mesmo.Ali desvenda-se as relações primárias vindas de um sistema familiar que forma hoje um mundo a ser revelado.Nesse lugar os costumes e os discursos se reverberam permeando as escolhas do sujeito ao longo de sua vida, fazendo-o percorrer caminhos nem sempre satisfatórios e com resultados muita vezes negativos..Isso ocorre,muitas vezes, por não estarmos conscientes desse "outro" e de seu poder sobre nós.
O inconsciente possui esta tecelagem interior compostas de traços genéticos transmitidos de geração a geração.Percorrer esse lugar é uma aventura corajosa para aqueles que estão dispostos a enfrentar seus fantasmas e encontrar o centro maior de sua potencialidade.
© Mancini Lorenzo. Tous droits réservés - All rights reserved.

Carl Gustav Jung diria que neste processo , as sombras estariam sendo desvendadas e integradas nos tornando mais plenos . A arte auxilia neste processo desbravando este caminho de mistérios .Acho que por isso o mesmo Gullar dizia que" a arte existe porque e vida não basta. Este processo é possível o fazer artístico se conecta com os arquétipos evocando imagens que revelam representações recalcadas e reprimidas, onde a pessoa preferiu esquecer.Se elas se tornam conscientes pelas imagens representadas na obra de arte, o sujeito integra suas sombras e se torna mais pleno e vai se aproximando mais de seu "verdadeiro eu"(Si Mesmo)
A frase de Ferreira Gullar poderia representar esta experiência de conscientização quando diz: "Se sabe de repente". Em seu fazer artístico " de repente ", ele se da conta de uma parte que lhe era desconhecida (inconsciente) .A Gestalt chama isso de "Awareness" : tomada de Consciência daquilo que estava no inconsciente ou fazia parte do pano de fundo de um cenário interno em nossas construções psíquicas ou do mundo externo.
Awareness é focar, virar a atença para, encontrar a forma que estava em aberto. Existe em todo ser humano uma hierarquia de necessidades que precisam ser satisfeitas.Todo organismo viver em busca de equilíbrio(homeostase), e essas necessidade vão se manifestando hierarquicamente na medida em que cada necessidade vai sendo satisfeita. Isso é fundamental no processo de desenvolvimento do indivíduo. A awareness não é estática, é um processo de orientação que se renova a cada instante na medida em que a pessoa vai entrando em contato com o mundo , com seu ambiente e com sua existência
Gerardo Nardiello - "Incomprensione"
"A awareness é eficaz apenas quando fundamentada e enrgizada pela necessidade atual dominante do organismo. Sem energia, entusiasmo e emocionalismo do organismo, sendo investido na figura emergente, a figura não tem significado, poder ou impacto.Expandir-se é estar consciente do que se passa dentro e fora de si no momento presente, em nível mental, corporal e emocional.Representa o autoconhecimento. A pessoa consciente sabe que tem alternativas e escolhe a melhor para o momento.É aceitação da realidade possível, realidade que ela pode contatar." César Galli

Segundo Carlos Antonio Fragoso Guimarães "a sombra é um  elemento fantasmático, região do espaço cuja penumbra é provocada quando a luz é impedida de fluir por um objeto... a sombra possui os contornos do mesmo objeto, sendo sua projeção negativa, inevitavelmente ligada a ele... Na psicologia junguiana a sombra é a representação arquetípica de tudo o que temos, potenciais bons e maus, que não reconhecemos como sendo nosso, mas que nos segue onde quer que vamos e que geralmente projetamos em outras pessoas...O psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) criou alguns dos conceitos de psicologia mais populares (apesar da resistência dos freudianos). Conceitos como “complexos”, indivíduos “introvertidos” e “extrovertidos” e “inconsciente coletivo” são de sua lavra. Ele também propôs que o comportamento humano possui linhas de reconhecimento universal e que são transcritas, metaforicamente, nos mitos e contos de todo o mundo, independente de tempo e cultura. A tendência do desenvolvimento de capacidades, dificuldades ou a possibilidade de uma clivagem polar que todos temos (bem e mal, sapiência e demência, etc.) são expressas figuradamente em histórias folclóricas, mitos, sagas religiosas e contos de fada.
Cena do Filme "O Cisne Negro "
Na história de “O Lago dos Cisnes”, que foi musicada e, assim, imortalizada pelo compositor russo Piotr Ilich Tchaikovsky (1843-1893), vemos essa polaridade na presença de Odette, a ingênua e romântica princesa que é transformada em um cisne branco, e Odile, sua irmã gêmea, a maliciosa, sedutora e malvada rainha dos cisnes, e que é o cisne negro. Uma e outra personagem são metáforas das polaridades internas extremas e dos potenciais que todos possuímos, mas que, aqui, se inserem mais na questão do desenvolvimento da psique feminina. A menina sonhadora que desperta para o desejo, à competitividade, ao processo de enfrentar desafios. Quanto mais conscientemente uma dessas polaridades é hipertrofiada, o mesmo ocorre com a outra, mas de modo inconsciente, o que pode causar um conflito psicológico que, em casos extremos, leva ao surto psicótico. Esta ocorrência, que Jung tão bem estudou, foi transposta para as telas em um dos mais notáveis (e raros, dentro do padrão comercial hollywoodiano) filmes dos últimos tempos: Cisne Negro (Black Swan), de Darren Aronofsky, com a esplêndida Natalie Portman no papel da, inicialmente, frágil bailarina Nina.
No filme, Nina é uma bailarina dominada pela mãe frustrada e que faz de tudo para se destacar no corpo de baile. Assim, quando surge a chance de interpretar as gêmeas opostas de “O Lago dos Cisnes”, Nina se entrega totalmente ao projeto. Super controlada pela mãe, insegura, emocionalmente reprimida e sem amigos, Nina dedica-se exclusivamente ao balé, buscando uma perfeição exagerada que se reflete no controle exacerbado da alimentação e do controle do corpo que ela trata como instrumento – a única forma de contato mais íntimo (e já sintoma neurótico da alienação que se estabeleceu entre o desejo consciente de perfeição e repressão dos sentimentos, que tentam gritar a partir do inconsciente) é a auto-mutilação que ela exerce inconscientemente sobre si mesma, por arranhões.
Pressionada por seu coreógrafo e diretor Thomas (Vincent Cassel), Nina será questionada, mais uma vez, a demonstrar suas capacidades, já que sua fragilidade ingênua - que é perfeita para o papel de Odette - comprometeria a interpretação de protagonista de “O Lago dos Cisnes”, pois Nina também deve desempenhar o papel da Rainha dos Cisnes, Odile. Nina, então, é desafiada pela própria vida, pelo seu próprio mundo, a entrar em um acordo com sua psique polarizada entre a “persona” consciente, o papel de menininha da mamãe, e a sua sombra: a mulher sedutora, violenta, que ela reprime no inconsciente. Nina é a atualização contemporânea da figura mítica de Perséfone: sua mãe é uma Démeter que tenta controlá-la e ver nela a bailaria que não foi e isso impede o desenvolvimento de Nina. Logo ela terá de enfrentar as forças psíquicas represadas em si, seu próprio Hades: Nina precisa integrar, reconhecer-se em sua própria profundidade, sentir seus elementos aparentemente “negativos” se quiser atingir a perfeição (metáfora da individuação). Ela tem de desempenhar simultaneamente o cisne branco (símbolo da pureza e ingenuidade) e o cisne negro (metáfora para a malícia, sensualidade e maldade). Ou seja, Nina teria de unir, na prática, sua própria psique fraturada entre a “menina” meiga e passiva, cujo quarto é cheio de ursinhos de pelúcia, e a mulher que é/foi reprimida pela mãe e por ela mesma, Nina. O desafio da individuação, contudo, não é isento de perigos.
O Cisne Negro é, portanto, o desafio do encontro de Nina com sua própria sombra, ou, seja, segundo Jung, com todos os elementos que possuímos mas que são reprimidos, que não reconhecemos como sendo nossos. A questão da projeção interna no meio externo fica sugerida várias vezes pela presença de espelhos sempre presentes ante Nina. Sua maior rival no corpo de baile, a sensual e desinibida Lily, papel desempenhado pela brilhante atriz Mila Kunis, é ao mesmo tempo seu alter-ego, a pessoa que estimula a eclosão do “Cisne Negro” em Nina. Na verdade, as duas belas bailarinas acabam sendo expressões de Odile o Odette ao nível da disputa real, embora, na mente conturbada de Nina, Lily acabe por apresentar traços mais fortes do que realmente possui.
Está claro que Aronofsky em seu filme discorre sobre a fragilidade e o tênue equilíbrio da mente humana, bem como as forças que se desencadeiam no palco psíquico quando uma perturbadora ambição a move em busca de um sonho, mas o faz de uma maneira ao mesmo tempo cruel e poética, o que mexe com a psique da maioria das pessoas que assistem o filme, atingidas, inconscientemente, pelos elementos expostos e que repercutem na própria sombra, na própria polaridade consciente/inconsciente, na dualidade do bem/mal de cada um.
Na busca pela perfeição e na tentativa de provar a Thomas que é capaz de desempenhar o papel (e, inconscientemente, de integrar e expor seu lado mais selvagem), Nina é conduzida de tal forma pelo enredo e pela busca da perfeição que não consegue perceber que isso está liberando todo o seu mundo de elementos reprimidos, que explode de tal modo que ela já não consegue perceber mais os limites entre sonho e realidade. Aos poucos, seu destino se sobrepõe ao enredo de “O Lago Dos Cisnes”. A música de Tchaikovsky, dramática e bela, é quase como uma expressiva contrapartida de sua metamorfose, elemento sonoro envolvente que “narra” e expressa a tempestade íntima de Nina, e que é indispensável à trama. A sombra de Nina, exemplificado pela essência de sua feminilidade, aflora e toma conta de sua personalidade sem que ela consiga controlá-lo. Dá-se inicio a uma metamorfose que expressa aquilo que acontece com muitas pessoas que sucumbem à emergência do material inconsciente pela psicose. No caso de Nina, vemos que tal emergência conduzirá a protagonista a conflitos que a levam a um destino perturbador e extraordinariamente poético, apesar de trágico, numa interpretação arrebatadora de Natalie Portman. O Filme “Cisne Negro” é uma aula de psicologia e cinema, de poesia dramática e filosofia, indispensável ao estímulo do pensar sobre a vida."[6]

O lado sombrio de nossa personalidade é a parte que normalmente fica escondida, mas às vezes ela salta e nos pega de surpresa. Por que é que pessoas mais calmas brigam e xingam ao dirigir no trânsito? Por que cidadãos bons e virtuosos comentem crimes passionais? - Jung tinha uma resposta: "Todos nós carregamos uma sombra".Instituto C. G. Jung M


Obra de Regina Silveira 


A luz da psicologia analítica sombra é um arquétipo construído através da experiência pessoal.É a parte do ego mais sombria e animalesca . Nelas estão contidas todos os atividades e desejos não aceitáveis pela sociedade e nem por nós mesmos. Mas é necessário que a sombra seja integrada ao nosso ser e não evitada, pois ela é responsável por parte do nosso 
desenvolvimento humano. 
Segundo Renato Santiago " Diferentemente da persona, a sombra é o nosso aspecto mais oculto e negro, são todas as experiências de cunho negativo a qual de uma forma ou de outra a reprimimos, porém apesar do nome talvez causar uma certa desconfiança ao leigo, devo clarificar que a sombra se refere ao nosso polo negativo, não necessariamente algo traumático.

"Confrontar uma pessoa com a própria sua sombra é mostrar-lhe sua própria luz. Uma vez que se tem experimentado algumas vezes o que é ficar julgando entre os opostos, a pessoa começa a compreender o que significar o si mesmo. Qualquer pessoa que percebe a sua sombra e sua luz simultaneamente vê a si próprio de dois lados e, assim, fica no meio" Carl Gustav Jung
Obra de Regina Silveira


  Outra  explicação sobre o tema é a  de Stein (2006, p. 97) quando diz que: "A Sombra é a imagem de nós próprios que desliza em nossa esteira quando caminhamos em direção a luz". Isso afirma o pressuposto paradoxal de que só caminhamos em direção a uma luz a partir da perspectiva de seu oposto, a sombra. Logo, é necessário tal experiencia, já que esta tem muitas vezes a função de colocar-nos em "nosso lugar", e mostrar que não somos deuses, e que temos nosso aspecto negativo, caso contrário pode ocorrer
uma inflação egoica ou até mesmo uma psicose.

Obra de  RashadAlakbarov
"As obras de Alakbarov só podem ser vistas de um determinado ponto de vista. A partir de projeções indiretas de luz, o aglomerado de objetos ganham formas nas paredes das instalações surpreendendo quem olha as imagens do ponto certo. A preferência do artista por objetos translúcidos torna ainda mais vivo o feito, que cresce em dimensão com a passagem da luz pelas garrafas plásticas e pedaços de acrílico usados por RashadAlakbarov(...) Mas o que faz o sua arte efetivamente provocativa são as oposições: não só no caso da luz contra a sombra, mas também por existir beleza no caos originado a partir da sua reflexão....SOMBRA: parte de uma superfície que deixou de receber luz porque entre ela e o foco luminoso se interpôs um corpo opaco (sombra projetada ou produzida por este corpo)"[4]
Obra de Rashad Alakbarov
"Jung entendia a psique simbolicamente como uma esfera, onde nossas fronteiras conscientes são delimitadas, mas nosso mundo interior é como um labirinto que possui muitas armadilhas, mas também onde se encontram os maiores tesouro traçando um paralelo na mitologia com a trajetória do herói. Logo, se a persona é a casca, a máscara, a sombra é um complexo opositor que se encontra mais a fundo, mas ainda sim na periferia(...)  Jung via que o confronto com o inconsciente diz respeito além de tudo, ha um impasse moral, onde a pessoa deve colocar em xeque todas as esferas de sua vida. Em outras palavras, o problema da moral se apresenta psicologicamente quando uma pessoa encara a questão de saber no que ela pode se tornar em comparação com que ela irá se tornar se determinadas atitudes forem mantidas, decisões tomadas ou ações estimuladas sem reflexão. Isso significa também entrar em contato com nossa dimensão mais obscura, encarando a verdadeira face de quem somos.Um filme que ilustra bem o poder que a sombra exerce sobre nossa vida, é o Amigo Oculto onde é descrito um caso de dissociação em que o sujeito pensa ser e agir de uma forma, mas em seus lapsos é e age sob o domínio da sombra. Tal evento segundo a ótica junguiana se dá a partir da enantiodromia (conceito usado por Heráclito que diz respeito a compensação energética onde os lados trocam de lugar temporariamente até que ocorra um reequilíbrio), onde o arquétipo quando muito recalcado, assume o controle da consciencia dominando-a. Isso significa, que não existe como eliminar nossa face oculta sem assim estarmos indiretamente tentando eliminar nossos ideais mais elevados. Por isso Jung expõe que sempre devemos manter um diálogo com nosso aspecto sombrio, não o deixando nos possuir mas dando sempre um caminho aceitável (do ponto de vista ético) a essa nossa dimensão, sendo o Self, muitas vezes o arquétipo de tal integração. Vemos assim que o confronto com nossa sombra diz respeito a estruturação de nosso caráter, e em uma dimensão mais ampla, de nossa personalidade, possibilitando assim que ocorra a individuação, o tornar-se aquilo que se é."[1]
Ao falar de sombra me lembro de Platão que utilizava a sombra para simbolizar aquilo que esta escondido, o que não é aparente, o que não se manifesta por estar debaixo da influência de outros objetos ou situações. É a dialética entre a a aparência e a verdade. Na alegoria da caverna de Platão se sairmos da caverna atingiremos o conhecimento. Sair da caverna, deixar as aparências, se despir de roupagens superficiais, se destituir das ideias ou pensamentos resistentes a mudanças.Confrontar os opostos, conviver com a dúvida, dar lugar ao vazio, e se abrir para o novo.


"Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente" Ferreira Gullar


O Arquétipo "Sombra " em Anjo Caído 
ANJO CAÍDO[3] 
"
Obra de Luis Royo e José Maria Honorato . - Anjo caído
Arte digital - Artista espanhol [1]
(José Maria Honorato . Dezembro de 2003)
"Recostei em meu ombro e aconcheguei minha vida,
Estiquei os passos e percorri minhas veias.Contemplei todo o nada
E andei pela fumaça;admirei cinzas quentes e consultei meu silêncio.
Risquei ninhos no papel e cocei verdades;
Aspirei música do ar e meu coração dançou.Toquei ventos e banhei meus olhos; dei-me um sorriso e gostei do espelho.O chuveiro insinuava, a noite chamava e o lençol seduzia.Arranjei meu dia e conversei com o tempo.A noite sonhou comigo!"
Na obra de Luís Royo Vê-se a figura do anjo que "caiu ", a sombra que não se mostra e se tema,Me parece exatamente a parte do ser que não foi assimilada e, que necessita de se integrada.Na tela é possível observar o quanto as partes se completam e sofrem por não poderem estar alinhadas.Então, ela chora e se agarra nele para reviver sua essência perdida." 
Supostamente, por serem opostos , o que é oculto e negro deveria ser afastado e "cair" como o anjo,mas isso não promoveria a integração deste ser.Os anjos pedidos precisam ser achados dentro de nós.Eles não podem ser evitados como demônios caídos. É preciso trazê-los de volta para podermos reviver enquanto ser. Reprimir não é a saída .O que é negativo pode se tornar material de uma obra prima ainda representada por imagens, letras ou vocações dirigidas pelas pulsões mais escondidas e recalcadas.
É necessário lembrar que "para a Física sombra é uma região escura formada pela ausência parcial da luz, proporcionada pela existência de um obstáculo. Uma sombra ocupa todo o espaço que está atrás de um objeto com uma fonte de luz em sua frente."[2]
E voltando a Stein , como disse Renato Santiago " a sombra funciona como um sistema de espionagem de um pais, onde existe mas ninguém vê, e nosso ego na maior parte do tempo a ignora. Na sombra reside todos aqueles conteúdos que nós não queremos ser pela busca de nosso ideal que é de extrema importância, porém quando uma pessoa se prende a esse ideal de forma a atravancar sua vida, isso pode significar uma defesa, ou resistência a um possível desenvolvimento."
Partindo destas colocações o movimento dinâmico entre persona, sombra e ego é fundamental para a vivência da plenitude.Insistir em negar, reprimir e não querer enfrentar estes conteúdos é ser tolido da mais ampla das experiências humanas: a felicidade de Ser.Então, numa releitura de Honorato "aconchegue mais sua vida esticando os passos e deixando estas impossibilidades percorrerem suas veias.Contemple o nada.Ande pela fumaça;admire as cinzas quentes e consulte seu silêncio. Deixe a verdade te tocar, ainda que ela coce. Seu coração quer dançar, pulsar nos ventos ,mas ele precisa banha seus olho s diante do espelho, nua chamando a noite ,seduzindo a madrugada e negociando com o tempo.Enfim, a noite sonha contigo!" Minha Releitura do Poema "Anjo Caído" na Abordagem Sobre o Arquétipo "Sombra".

Outro exemplo é Dexter, um personagem de uma série da TV americana.Ele investe neste conceito de sombra para dar corpo a suas ações .Ele se aproveita do fato de ser um especialista forense em análise sanguínea e de trabalhar no Departamento de Polícia de Miami,e de forma meticulosa e sem deixar pistas, mata criminosos que a polícia não consegue trazer à Justiça. "Ele organiza seus assassinatos em torno do "Código de Harry", um apanhado de regras e procedimentos desenvolvidos por seu pai adotivo, Harry, para garantir que seu filho nunca seja preso e assegurar que ele mate apenas outros assassinos. Harry também treinou Dexter quanto a interagir convincentemente com outras pessoas apesar de ser um sociopata."
Para Dexter " Todo mundo esconde quem é pelo menos por um tempo, as vezes você enterra alguma parte de si mesmo tão profundamente que precisa ser lembrado que ela ainda esta lá, e as vezes o que você quer, é só esquecer quem você é, por inteiro."
No caso de Dexter podemos abordar aqui dois conceitos Junguianos dominantes nesta sua fala. A "Persona e a "Sombra" .
Persona segundo Ana Cristina Curi "é um termo grego que Carl Gustav Jung introduziu em sua obra psicológica e designa a máscara, a forma como nos apresentamos socialmente. Esse termo, utilizado pelo fundador da Psicologia Analítica, tem sua origem nas máscaras utilizadas pelos atores gregos em encenações das tragédias. Como arquétipo, é uma predisposição psíquica universal que estrutura a experiência da adaptação ao meio. A Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo.
Segundo Jean Monbourquette abordando o conceito de Sombra como um arquétipo diz que "A sombra é um desses arquétipos fundamentais e sua formação é mordaz e desagregada.Sua natureza se assemelha avariadas constelações, cada uma delas constituindo um “complexo psíquico Por sua vez, cada complexo é composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autônoma e dissociada do eu consciente. Esta estrutura constitui uma “sub-personalidade” comparável a uma “personagem” de uma peça de teatro, autônoma, independente do encenador e dotada da sua própria personalidade.Estes complexos surgem muitas vezes nos sonhos do homem. Por vezes exercem sobre ele uma influência tão forte que ele se sente literalmente possuído. "
Termino esta reflexão com este show de violino com a música "Shadows"
"A sombra é a imagem de nós próprios que desliza em nossa esteira quando caminhamos em direção a luz".Stein (2006, p. 97)



"Confrontar uma pessoa com a própria sua sombra é mostrar-lhe sua própria luz. Uma vez que se tem experimentado algumas vezes o que é ficar julgando entre os opostos, a pessoa começa a compreender o que significar o si mesmo. Qualquer pessoa que percebe a sua sombra e sua luz simultaneamente vê a si próprio de dois lados e, assim, fica no meio" Carl Gustav Jung
Obra de Vladanovic , "Sombras de Permanência" 4
Conheça a série de Obras sobre 




Fonte de Referências
[1] Renato Santiago ,In http://psi-imaginacao.blogspot.com.br/2009/07/sobre-o-arquetipo-da-sombra.html
[5]http://extra.globo.com/tv-e-lazer/exposicao-de-regina-silveira-420589.html
[6] Carlos Antonio Fragoso Guimarães é professor da Universidade Federal de Campina Grande, psicólogo do Ministério Público (PB) e autor dos livros Carl Gustav Jung e os Fenômenos Psíquicos e Evidências da Sobrevivência.Análise junguiana, do Psicólogo Carlos Antonio Fragoso Guimarães (PB), sobre o filme "Cisne Negro".

terça-feira, 10 de junho de 2014

O Cisne Branco :Canto e (Re) nascimento

Por Rosangela Brunet


"Ópios, Édens, analgésicos.  Não me toquem nessa dor.Ela é tudo o que me restou
Sofrer vai ser a minha última obra" Paulo Leminsk,In:" Dor 
Elegante"

"Não obstante, a lenda, que foi prenunciado por Sócrates no seu último discurso1 , permaneceu através dos séculos e aparece em vários trabalhos artísticos.Por extensão, canção do cisne ou "canto do cisne" tornou-se uma metáfora, referindo-se a uma aparição final teatral e dramática, ou qualquer trabalho final ou conclusão. "[1]
DAVID Jacques Louis 1748-1825 - SÒCRATES

Segundo Sonia Darthou " O “canto do cisne” é o último testemunho de um homem, a última obra de um artista, a declaração final de um poeta antes de morrer. Essa expressão tem sua origem na Antiguidade, com o filósofo Platão, que põe em palavras os últimos instantes da vida de Sócrates, por meio do diálogo Fédon. Condenado à morte pela cidade de Atenas em 399 a.C., sob a acusação de “corromper a juventude e introduzir novos deuses”, Sócrates foi chamado por seus discípulos para tomar a palavra.
O grande filósofo, com 70 anos de idade, teria declarado, antes de tomar o veneno mortal – a tristemente famosa cicuta –, que ele desejava realmente responder uma última vez, pois não se sentia invadido por pensamentos sombrios. Sócrates se compara aos cisnes que lançam um último canto antes de sua morte: “Quando sentem a hora da morte se aproximar, essas aves, que durante a vida já cantavam, exibem então o canto mais esplêndido, o mais belo; eles estão felizes de ir ao encontro do deus do qual são os servidores. (...) Eu, pessoalmente, não acredito que eles cantem de tristeza; acredito, ao contrário, que, sendo as aves de Apolo, os cisnes possuam um dom divinatório e, como pressentem as alegrias que gozariam no Hades, cantam, nesse dia, mais alegremente do que nunca”.
A metáfora já se encontrava em 1604 em Otelo, de Shakespeare, quando Emília, sua heroína trágica, no momento da morte, grita: “Ouça! Você pode me ouvir? Vou fazer como o cisne e morrer cantando...”.
Othello, The Moor of Venice, 1604

No início do século XIX, o editor de Schubert deu o título O canto do cisne a uma coletânea póstuma de 14 Lieder de tonalidade bastante melancólica, pois ele os considerava o testamento musical do artista. Quanto a Tchekhov, ele escolheu esse mesmo título para sua peça publicada em 1886. Ele coloca em cena o personagem de Svetlovidov, corroído pela doença e pela nostalgia, propondo uma última interpretação magistral dos papéis principais de sua vida para encerrar a carreira de ator.
Essa expressão, que permite imaginar as últimas palavras ou os últimos instantes de criação artística, se apossou em seguida de outros universos; ela foi retomada particularmente pelos jornalistas para qualificar as reformas de um homem político em fim de mandato ou a última invenção tecnológica de uma empresa ultrapassada pelos concorrentes."[2]

O Lago dos Cisnes

Companhia: The Royal Swedish Ballet [3]
O canto do cisne é uma lenda que se originou dessa crença de que todo cisne branco é mudo,  e só canta quando  pressente sua morte.
É  uma metáfora que pode ser entendida como a última performance,  a última obra ou  a última atuação  majestosa de alguém, que por definição,  já se subentende que é, ou se tornará um herói ou uma  personalidade que marcará a história.
Acreditava-se que os cisnes brancos eram   mudos  ,mas  antes de morrer cantam sua última linda e triste canção.Como se fosse possível atingir o  último desejo.
O desejo está sempre em obra, sem término e sem fim e, na mesma medida, a narrativa do inconsciente. "Livia G.Roza
 No entanto, esta crença foi refutada,mas a metáfora permanece pela  força do seu simbolismo.
Quem já não sofreu a dor e o  poder da transformação do(re)nascimento ? Todo Nascimento grita, diz Livia Garcia Roza.. Não é suave o movimento que se faz quando atravessamos a via de uma dor existencial, a qual possui duas saídas.A morte ou o (re)nascimento do Ser que vive em nós diariamente gritando para existir.
Abandonando um pouco a história , o discurso poético e psicanalítico, a visão da epigênese muito me atrai quando se fala de transformação,mudança e existência. A vida possui leis que devem ser conhecidas e respeitadas para que a tal "felicidade" subjetiva aconteça.
A teoria da epigênese explicada pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.)  a partir da    observação de um embrião de galinha Ela foi criada    se opondo á mentalidade causalista e determinista da vida. Ele acredita que um organismo que  gradualmente vai se transformando e adquirindo  forma á partir de de seu amorfismo ,assim como  gerado por uma "embrião amorfo" ,ou seja,  "Caos gerando a estrela" 2 .
O filósofo considerava os pais como os "princípios geradores" e que cada organismo, individualmente, começa de novo 3 . Assim, a epigênese acredita que o organismo não esta formado no ovo fertilizado, mas sim, que ele cresce progressivamente a partir de alterações profundas que ocorrem durante a embriogênese." [4]
Baseado nessa premissa  que considero adequada ao tema , a vida é cíclica e passível de transformação, nascimento e renascimento .Ser vítima da existência ou destino é enganoso. Ser fiel si mesmo é viver estes ciclos e respeitá-los como processo de (re)nascimento. Dentro de cada existência ha muitas epigêneses , se não reformulamos e nos transformamos acontece o impasse.Abandonemos a visão linear a causalista  avancemos para a não conformidade  e aceitemos o caos que faz nascer um novo dia.
 "Oh Cisne.Canta tua dor.Expõe teu desalento e consternação das noites que ficarão nas memória dos que te amaram . Nenhuma  desesperança ou  desolação será poupada. A languidez e a  melancolia de teus olhos  já se ajustaram ás tuas melodias de  luto e pesar. Tens que cantar antes de ir.Não há como explicar Apenas anuncias tua ida demonstrando teu fim .Figura de uma nova vida.Porque terminas Dizes que não serás mais mudo mas  tua fala
significa  tua morte cantada.Não podes  morrer o que nunca existiu . A Palavra que faltou dizer nascerá agora de teu pranto, e então viverás.
O não dito em tua mudez se manifestará agora demonstrando nascimento do novo ser.Nada acabou .Tua vida  grita para nascer e este canto é tudo que tens. Os sons apresentando teu nascimento, explicando tuas notas mais altas,manifestando tuas formas mais sublimes, dizendo tudo que não foi dito antes de tua morte. Se apresente, então. Fala agora quem tu és.Revela o mistério de teu silêncio   mantido com teus  acordes mais  altos.Compõe  o teu arranjo  ordenado disposto em dó maior .Que dor é esta? Porque partes assim depois de tanto silêncio.Fica para nascer.Ajusta outras combinações.Encontre outra ordem. Descomponha tua missão e faça
outra obra de arte desdobrada em outros acordes que nos acorde e nos devolva a paz. Cria tua história Germina e brota deste silêncio já que ele se  findou.Deixa emanar tua essência e não desista de romper esta manhã.
Desponta nessa manhã que insistes em deixar. Abra.Apareça. Desabroche.Desponta Que surja uma nova lenda " Rosangela Brunet,In: "O Cisne Branco :Canto e (Re) nascimento" 
BALLET DE L’OPÉRA NATIONAL DE PARIS
"ORPHEUS AND EURYDICE",2006
Um Exemplo do último canto do Cisne .Espero que gostem
"Por exemplo, a coleção de canções de Franz Schubert, publicada no ano de sua morte, 1828, é conhecida como a Schwanengesang (que em alemão significa "canção do cisne"). Isto traz a conotação de que o compositor estava prevendo sua morte iminente e usando suas últimas forças em um magnífico trabalho final"


Referência: 

[1]http://pt.wikipedia.org/wiki/Can%C3%A7%C3%A3o_do_cisne
[2]Sonia Darthou é mestre de conferências da Universidade de Évry-Val-d’Essonne:http://www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/historia_das_palavras_canto_do_cisne.html
[3] "O Lago do Cisne": Companhia: The Royal Swedish Ballet
Ano: 2002. Bailarinos Principais: Nathalie Nordquist com Odette/Odila,Anders Nordstrôm como Príncipe Siegfried
[4]http://pt.wikipedia.org/wiki/Epig%C3%A9nese

segunda-feira, 2 de junho de 2014

" A verdadeira percepção, vai alem da ótica."

 Percepção e Realidade - Cognição
Obra de Salvador Dali 
Algumas predisposições dominam inteiramente a consciência do percebedor.

Nossa percepção não identifica o mundo exterior como ele é na realidade, e sim como as transformações, efetuadas pelos nossos órgãos dos sentidos nos permitem reconhecê-lo. Assim é que transformamos fótons em imagens, vibrações em sons e ruídos e reações químicas em cheiros e gostos específicos. Na verdade, o universo é incolor, inodoro, insípido e silencioso, excluindo-se a possibilidade que temos de percebê-lo de outra forma.
Para a moderna neurociência, o real conceito de percepção começou a brotar, quando Weber e Fechner descobriram que o sistema sensorial extrai quatro atributos básicos de um estímulo: modalidade, intensidade, tempo e localização.
O ser humano se espalha pela Terra em muitas localidades geográficas, em diversas culturas e sociedades. Acompanhando essa diversidade existem também variações nos mundos percebidos pelas pessoas, há diferenças na maneira pela qual os mesmos objetos são percebidos em diferentes sistemas culturais.
Uma criança que vive em nossos centros urbanos, por exemplo, pode distinguir sem hesitação um grande número de diferentes marcas de carros ao presenciar o trânsito das ruas, enquanto uma criança que vive em regiões mais rurais e distantes desses grandes centros não veria senão maiores diferenças entre as marcas e modelos observando o movimento da mesma rua. Por outro lado, uma criança urbana ficaria maravilhada diante da facilidade com que seus colegas rurais reconhecem diferentes modelos de ninhos de aves e de sua capacidade para distinguir as menores variações nos tipos de árvores.

Sensopercepção

Hoje não mais se admite, como acontecia no passado, que o nosso universo perceptivo resulte do encontro entre um cérebro simples e as propriedades físicas de um estímulo. Na verdade, as percepções diferem, qualitativamente, das características físicas do estímulo, porque o cérebro extrai dele informações e as interpretam em função de experiências anteriores com as quais ela se associe. Nós experimentamos ondas eletromagnéticas, não como ondas, mas como cores e as identificamos pautados em experiências anteriores.
Experimentamos vibrações mas como sons, substâncias químicas dissolvidas em ar ou água como cheiros e gostos específicos. Cores, tons, cheiros e gostos são construções da mente, à partir de experiências
Obra de René Magritte 
sensoriais. Eles não existem, como tais, fora do nosso cérebro.
Assim, já se pode responder a uma das questões tradicionais dos filósofos: Há som, quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver alguém para ouvir ? Não, a queda da árvore gera vibrações e o som só ocorre se elas forem percebidas por um ser vivo capaz de identificar tais vibrações como estímulos sonoros.
A peculiaridade da resposta de cada órgão sensorial é devida à área neurológica onde terminam as vias aferentes provindas do receptor periférico. O sistema sensorial começa a operar quando um estímulo, via de regra, ambiental, é detectado por um neurônio sensitivo, o primeiro receptor sensorial. Este converte a expressão física do estímulo (luz, som, calor, pressão, paladar, cheiro ) em potenciais de ação, que o transformam em sinais elétricos. Daí ele é conduzido a uma área de processamento primário, onde se elaboram as características iniciais da informação: cor, forma, distância, tonalidade, etc, de acordo com a natureza do estímulo original.
Em seguida, a informação, já elaborada, é transmitida aos centros de processamento secundário do tálamo. Se a informação é originada por estímulos olfativos, ela vai ser processada no bulbo olfatório e depois segue para a parte média do lobo temporal. Nos centros talâmicos, à informação se incorpora à outras, de origem límbica ou cortical, relacionadas com experiências passadas similares.
Finalmente, já bastante modificada, esta informação é enviada ao seu centro cortical específico. A esse nível, a natureza e a importância do que foi detectado são determinados por um processo de identificação consciente a que denominamos percepção.

 O que percebemos? 

Na realidade, perguntas distintas podem ser feitas sobre essa questão: o que percebemos e o que sentimos. Para percebermos o mundo ao redor teremos de nos valer dos nossos sistemas sensoriais. Cada sistema é nomeado de acordo com o tipo da informação: visão, audição, tato, paladar, olfato e gravidade. Esta última ligada à sensação de equilíbrio. Portanto, vamos falar antes da Sensação e depois da Percepção.

Sensação

Em seu significado preciso, a sensação é um fenômeno psíquico elementar que resulta da ação de estímulos externos sobre os nossos órgãos dos sentidos. Entre o estado psicológico atual e o estímulo exterior há um fator causal e determinante ao qual designamos sensação, portanto, deve haver uma concordância entre as sensações e os estímulos que as produzem.
As sensações podem ser classificadas em três grupos principais: externas, internas e especiais. As sensações externas são aquelas que refletem as propriedades e aspectos de tudo, humanamente perceptível, que se encontra no mundo exterior. Para tal nos valemos dos órgãos dos sentidos; sensações visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis. A resposta específica (sensação) de cada órgão dos sentidos aos estímulos que
Obra de Salvador Dali. 
agem sobre eles é conseqüência da adaptação desse órgão a esse tipo determinado de estímulo.
As sensações internas refletem os movimentos de partes isoladas do nosso corpo e o estado dos órgãos internos. Ao conjunto dessas sensações se denomina sensibilidade geral. Discretos receptores sensitivos, captam estímulos proprioceptivos, que indicam a posição do corpo e de suas partes, enquanto outros, que recebem estímulos denominados cinestésicos, são responsáveis pela monitorização dos movimentos, auxiliando-nos a realizar outras atividades cinéticas, segura e coordenadamente. Os receptores dessas sensações se acham localizados nos músculos, nos tendões e na superfície dos diferentes órgãos internos. Portanto, esse grupo engloba três tipos de sensações: motoras, de equilíbrio e orgânicas.
As sensações motoras nos orientam sobre os movimentos dos membros e do nosso corpo. As sensações de equilíbrio provêm da parte interna do ouvido e indicam a posição do corpo e da cabeça. As sensações orgânicas são, de fato, as proprioceptivas, e se originam nos órgãos internos: estômago, intestinos, pulmões etc. Seus receptores estão localizados na face interna desses órgãos. Outros sensores sutis são capazes de
A sensação especial se manifesta sob a forma de sensibilidade para a fome, sede, fadiga, de mal-estar ou bem-estar. Essas sensações internas vagas e indiferenciadas que nos dão a sensibilidade de bem-estar, mal-estar, etc., têm o nome de cenestesia.
No processo do conhecimento e do auto-conhecimento objetivo as sensações ocupam o primeiro grau. São as sensações que nos relacionam com nosso próprio organismo, com o mundo exterior e com as coisas que nos rodeiam. O conhecimento do mundo exterior resulta das sensações dele captadas e quanto mais desenvolvidos forem os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso do animal, mais delicadas e mais variadas serão as suas sensações.


Unidade dos Sentidos 

Para maior eficiência dos sentidos, os vários órgãos devem funcionar integradamente. A percepção do mundo objectual não depende exclusivamente do aparelho sensorial específico, através do qual os objetos são apreendidos, isto é, não depende exclusivamente do sentido da visão, ou da audição, o do tato, etc. Geralmente não é apenas um sentido que atua na percepção dos objetos, além disso, os sentidos funcionam juntos e se completam. O gosto de uma comida depende muito do funcionamento conjunto dos receptores do sabor e do aroma. É por isso que a comida parece insípida quando nosso nariz está entupido.
Uma determinada qualidade perceptual, como por exemplo a grandeza, pode ser a mesma para vários sentidos. Dessa forma, um objeto pode ser visto grande, soar grande, dar a impressão de grande ao tato e,
Obra de Salvador Dali. 
talvez, até cheirar grande. Os estímulos devem ser localizados de maneira idêntica, através dos olhos, dos ouvidos e das mãos, objetos podem ser vistos, ouvidos e sentidos em movimento simultaneamente. A tendência de integração, cooperação e concordância dos vários sentidos é tanta que, as vezes, apesar das
discrepâncias na situação física real, nosso sistema sensorial "dá um jeito" para que a situação se acomode. Quando vemos uma fita de cinema, por exemplo, ouvimos as vozes como vindo diretamente dos lábios em movimento dos autores, embora, na realidade, o som provenha dos alto-falantes colocados em lugares inteiramente diferentes. Basicamente, é através da ação cooperativa dos sentidos que conseguimos um quadro consistente, útil e realista do ambiente físico que nos cerca. As impressões dos vários sentidos são, de certa maneira, combinadas ou organizadas para apresentar um quadro mais ou menos estável da realidade à nossa volta.

Percepção

Ainda que dois seres humanos dividam a mesma arquitetura biológica e genética, talvez aquilo que um deles percebe como uma cor ou cheiro, não seja exatamente igual à cor e cheiro que o outro percebe. Nós damos o mesmo nome a esta percepção mas, com certeza, não sabemos se elas relacionam à realidade do mundo externo exatamente da mesma maneira que a realidade percebida por nosso semelhante. Talvez nunca saberemos.O termo percepção designa o ato pelo qual tomamos conhecimento de um objeto do meio exterior. A maior parte de nossas percepções conscientes provém do meio externo, pois as sensações dos órgãos internos não são conscientes na maioria das vezes e desempenham papel limitado na elaboração do conhecimento do mundo. Trata-se, a percepção, da apreensão de uma situação objetiva baseada em sensações, acompanhada de representações e freqüentemente de juízos.
A percepção, ao contrário da sensação, não é uma fotografia dos objetos do mundo determinada exclusivamente pelas qualidades objetivas do estímulo. Na percepção, acrescentamos aos estímulos elementos da memória, do raciocínio, do juízo e do afeto, portanto, acoplamos às qualidades objetivas dos sentidos outros elementos subjetivos e próprios de cada indivíduo.
A sensação visual de um objeto arredondado, vermelho e com parte de seu corpo enegrecido, somente será percebido como uma maçã podre se a pessoa souber, antecipadamente, o que é uma maçã, e, dentro deste conhecimento, souber ainda que maçãs apodrecem e, quando apodrecem, adquirem certas características perfeitamente compatíveis com o estímulo sentido.
Poderíamos, a título de simplificação e a grosso modo, considerar que as sensações seriam determinadas por fatores exclusivamente neurofisiológicos, enquanto as percepções seriam determinadas por fatores psicológicos. Entretanto, nem isso podemos dizer. Ocorre que, em determinados estados emocionais, até as sensações podem estar comprometidas. É o que acontece, por exemplo, nos estados hístero-ansiosos com profundas alterações nas sensações corpóreas: anestesias, parestesias, hipoestesias, etc. Desta forma o mais correto seria considerar que as sensações, nas pessoas normais, envolvem predominantemente elementos neurofisiológicos e as percepções, envolvem predominantemente elementos psicológicos.
A percepção consiste na apreensão de uma totalidade e sua organização consciente não é uma simples adição de estímulos locais e temporais captados pelos órgãos dos sentidos. Nossa experiência (consciência) do mundo revela que não temos apenas sensações isoladas dele, ao contrário, o que chega à consciência são configurações globais, dinâmicas e perfeitamente integradas de sensações. Embora as sensações não nos ofereçam, em si mesmas, o conhecimento do mundo, elas representam os elementos necessários ao conhecimento sem os quais não existiriam percepções.
A percepção se relaciona diretamente com a forma da realidade apreendida, enquanto a sensação se relacionaria à fragmentos esparsos dessa mesma realidade. Ao ouvirmos notas musicais, por exemplo, estaríamos captando fragmentos mas, à partir do momento em que captamos uma sucessão e seqüência dessas notas ao longo de uma melodia, estaríamos captando a forma musical.

Há na verdade três percepções:

a percepção anterior à realidade consciente; 
a percepção que se transforma na realidade consciente; 
a percepção posterior à realidade consciente.

A percepção anterior à realidade consciente é a percepção despojada de toda e qualquer subjetividade, é a objetividade pura. Ela é anterior a toda e qualquer interpretação, anterior a toda e qualquer compreensão e anterior a toda e qualquer significação.
A percepção anterior à realidade permite a experiência da própria percepção em estado puro. Ela é radicalmente exterior ao sujeito, é a percepção do mundo exterior objetivo por excelência. É uma sensação vazia de subjetividade.
A percepção que se transforma na realidade consciente é a percepção que já remete à uma subjetividade ou à um significado consciente real. Ela não se permite circunscrever apenas ao mundo exterior e passa a pertencer ao mundo interior do sujeito. Trata-se da ponte que une o objeto ao sujeito (o mundo objectual ao sujeito), tal como uma porta que introduz o mundo exterior para dentro da subjetividade. Entretanto, esta percepção que se transforma na realidade consciente é somente uma porta de entrada, e é sempre ao mesmo tempo uma passagem do objeto ao sujeito, é tanto a porta quanto o trânsito através dela, e sempre no sentido que conduz da percepção à subjetividade.
A percepção posterior à realidade consciente é a percepção que não contém propriamente uma nova subjetividade mas toca nela à partir de estímulos atuais. Ela reforça a subjetividade pré-existente e, à partir dela, constrói novos elementos subjetivos.
Digamos que, enquanto a sensação oferece à pessoa o fundamental da realidade, na percepção esse fundamental se organiza de acordo com estruturas específicas, conferindo originalidade pessoal à realidade apreendida. A partir da percepção que se transforma na realidade consciente, o sujeito passa a oferecer às suas sensações um determinado fundo pessoal sobre o qual se assentarão as demais futuras sensações. Dessa forma, o objeto sensível está sempre se relacionando com esse fundo perceptivo individual e existirá sempre uma apreciável diferença subjetiva entre o objeto em si e o fundo pessoal sobre o qual ele se faz representar.
As formações psíquicas advindas do ato perceptivo compõem as configurações conscientes da realidade e essas configurações contém mais do que a simples soma do fundamental sentido. A percepção proporciona dados sobre o fisicamente sentido, porém esses dados variam de acordo com as condições do fundo pessoal e a forma percebida passa a transcender o objeto simplesmente sentido.
Como veremos adiante, a percepção transcendente, ou seja, a forma da realidade apreendida, pode ser modificada em conseqüência de condições pessoais momentâneas. Dependendo da fadiga, da ansiedade ou do afeto, por exemplo, os estímulos externos podem ser captados como sensações agradáveis ou desagradáveis, assim como também se alteram pela ação de determinadas substâncias químicas ou em determinadas doenças orgânicas.
Em toda percepção existe um componente afetivo que contribui para a imagem representada. Algumas impressões podem ser captadas mais intensamente que outras, dependendo da atenção (interesse afetivo), dependendo da atitude pensada, do estado de ânimo e da situação emocional de quem percebe. A seleção das impressões sensoriais apreendidas depende de uma série de processos ativos que transforma a percepção numa função anímica por excelência.
No ato perceptivo se distinguem dois componentes fundamentais: a captação sensorial e a integração significativa, a qual nos permite o conhecimento consciente do objeto captado. Portanto, as percepções serão subjetivas por existirem em nossa consciência, e objetivas pelo conteúdo que estimula a sensação.
Alterações da Sensopercepção
A capacidade da pessoa perceber a realidade à sua volta e que se faz através dos cinco sentido, pode sofrer alterações sob duas bases distintas; uma base estritamente orgânica, referente à integridade do sistema sensorial e cujas vias pertencem à neurofisiologia e; uma base psíquica compreendida pelos elementos emocionais envolvidos na consciência da realidade. Há autores que preferem considerar verdadeiros distúrbios da sensopercepção somente aqueles possuidores de uma base orgânica. De fato, para a integridade da sensação há necessidade de três elementos:

1- receptores periféricos suficientemente íntegros para receber os estímulos provenientes do ambiente; 
2- integridade dos nervos periféricos aferentes que conduzem estes estímulos periféricos ao SNC e; 
3- integridade dos centros corticais no sistema nervoso central que recebem estes estímulos procedentes do exterior e processa-os em linguagem cognitiva.

1. - Alterações na Intensidade das Sensações

As alterações na intensidade das sensações das sensações referem-se ao aumento e à diminuição do número e da intensidade dos estímulos procedentes dos diversos campos da sensibilidade.

1.1 - Hiperestesia
Hiperestesia sensorial é o aumento da intensidade das sensações. A hiperestesia se acompanha, em geral, de exaltação dos reflexos tendinosos, maior excitabilidade da sensibilidade fisiológica e aceleração do ritmo dos processos psíquicos. Nos estados degrande ansiedade, de fadiga ou esgotamento, por exemplo, onde a capacidade adaptativa está comprometida, a audição e o tato podem estar aumentados. A hiperestesia sensorial é freqüente nos pacientes afetivos, nos neuróticos, nos estados de excitação maníaca, no hipertiroidismo, no tétano, na raiva (hidrofobia), nos acessos de enxaqueca e, ocasionalmente, em alguns casos de epilepsia.

1.2 - Hipoestesia

Hipoestesia sensorial é a diminuição da sensibilidade. Na maioria dos estados de depressão pode ser observada diminuição da sensibilidade aos estímulos sensoriais, embora a propriocepção possa estar aumentada. Nesses casos há diminuição dos reflexos tendinosos, elevação da sensibilidade fisiológica e lentidão dos processos psíquicos.

Pode haver diminuição da sensibilidade sensorial em função de fatores emocionais, como no caso citado acima das depressões, também em situações neurológicas, como o estupor, nas síndromes que se acompanham de obnubilação da consciência, nos estados infecciosos e pós-infecciosas e em períodos pós-trauma.
A Anestesia diz respeito à abolição de todas as formas de sensibilidade. Observa-se anestesia, geralmente, em afecções neurológicas focais e em seccionamentos de nervos periféricos aferentes. Na psiquiatria observamos anestesias regionais em pacientes conversivos. Nesses casos, as alterações da sensibilidade, tomando por base sua topografia e qualidade das alterações não obedecem os dermátomos neurofisiológicos nem as vias normais da sensibilidade.

2. - Alterações na síntese perceptiva - AGNOSIAS

A síntese das sensações de forma a constituir percepções conscientes dá-se nas zonas corticais do SNC. A anestesia, surdez ou cegueira podem resultar da lesão de um órgão sensorial periférico, do nervo aferente ou da zona cortical do SNC onde se projetam essas sensações determinando o desaparecimento delas.

Nos casos onde estão conservadas a integridade das vias nervosas aferentes e existem lesões corticais na vizinhança da área de projeção, nas chamadas áreas para-sensoriais, mantém-se a integridade das sensações elementares, porém, há alteração do ato perceptivo. Nesses casos, fala-se de AGNOSIA.

Assim sendo, Agnosia não é uma alteração exclusiva das sensações nem exclusiva da capacidade central de perceber objetos externos, mas uma alteração intermediária entre as sensações e a percepção. Em alguns casos, observa-se a perda da intensidade e da extensão das sensações, permanecendo inalteradas as sensações elementares, em outros há integridade e extensão, mas perda da capacidade de reconhecimento dos objetos.

2.1 - Agnosia Visual

As agnosias visuais podem ser de objetos, de formas, de cor e de espaço. Nos dois primeiros casos, o paciente se mostra incapacitado para identificar o objeto ou a forma deste, em virtude de se encontrar alterada a integração das sensações elementares. A sensação óptica nesses casos se constitui muito mais em contornos, superfícies e cores, luzes e sombras, do que na individualização do objeto em si. Com freqüência não se destacam bem entre si, carecem de definição clara e patente e de relação nítida com o que se acha próximo a eles no espaço óptico. Lesões do lobo occipital na região da cissura calcariana também podem produzir defeitos sensoriais fisiológicos.

A agnosia visual é, entre esses transtornos, a melhor conhecida em sua origem. Nesses casos as lesões neurológicas responsáveis quase sempre são bilaterais e afetam asáreas occipitais 18 e 19, contíguas à área 17 onde terminam as projeções visuais (áreas para-sensoriais).

2.2 - Agnosia Tátil

Agnosia Tátil se refere à incapacidade para reconhecer objetos mediante o sentido do tato, apesar da sensibilidade se encontrar conservada no fundamental. O transtorno recai sobre as qualidades dos objetos. O enfermo perde a possibilidade de discriminar as diferenças de intensidade e extensão das sensações táteis.

2.3 - Agnosia Auditiva

Agnosia Auditiva é quando o paciente ouve sons e ruídos, porém não consegue identificá-los, não os compreende.

Ambiente, Circunstâncias e Personalidade
Essas comparações antropológicas do funcionamento perceptual entre diferentes culturas nos fazem supor que as diferenças na percepção nas propriedades dos objetos físicos fundamentam-se nos diferentes de nível de aprendizagem e diferentes experiências passadas com esses objetos, assim como em diferenças na capacidade para identificar tais objetos, embora essas diferenças não se fundamentem em diferenças mais profundas no processo geral de funcionamento da percepção.

Fatores Culturais

Os valores culturais atribuídos aos objetos, às relações e aos acontecimentos, também podem desempenhar um papel significativo na maneira pela qual os objetos são percebidos. Os habitantes das ilhas Trobriand (Nova Guiné), por exemplo, apegavam-se a uma crença básica, segundo a qual uma criança não poderia jamais ser fisicamente semelhante à sua mãe ou a seus irmãos e irmãs mas apenas ao seu pai. Mesmo quando, para um estranho, havia uma notável semelhança física entre dois irmãos, os nativos eram incapazes (ou não queriam ser capazes) de descobrir qualquer semelhança. Além disso, havia uma tendência inversa para exagerar o menor grau de semelhança facial entre o pai e os filhos.

Como existe considerável amplitude quanto aos aspectos de um objeto que a pessoa pode focalizar e acentuar, também podem existir notáveis diferenças a respeito desses aspectos entre várias culturas. As experiências perceptuais que se tem ao olhar um borrão de tinta, por exemplo, são descritas de maneiras bem diferentes, por pessoas de diferentes sociedades. Essas diferenças, na ênfase perceptual, podem ser interpretadas como reflexos dos valores culturais desses povos.

Personalidade e o Mundo Percebido

Ao falarmos de diferenças de personalidade estamos falando das variações de fenótipo (a pessoa aqui e agora) e englobam variações na constituição biológica, na capacidade sensorial e cerebral, na idade e na experiência, no contexto geográfico e cultural. A singular constituição da pessoa, suas habilidades específicas, seus motivos, seus valores e seus traços constituem sua personalidade. Há diferenças significativas na percepção do mundo, associadas a diferenças de personalidade. Na realidade, uma das maneiras pelas quais se tentam descrever e classificar as pessoas, sob o ponto de vista personal, é através do estudo de sua maneira de perceber o mundo.

Circunstâncias

A experiência com um objeto também leva a mudanças significativas na maneira pela qual este é percebido: seu reconhecimento se torna mais fácil, o objeto é organizado perceptivamente de maneira diferente, aparecem novas propriedades atreladas à ele... Na realidade, nossas capacidades sensoriais, capacidades para descobrir os estímulos e distingui-los uns dos outros, pode ser aperfeiçoada com a prática. As mudanças na percepção são aspectos essenciais no processo da aprendizagem.
Há um conjunto cada vez maior de pesquisas sobre relações entre as características da personalidade e a maneira de perceber o estímulo físico. É de observação corrente, por exemplo, que nossa percepção das coisas pode ser alterada pelo nosso conhecimento, pela nossa motivação, por nosso estado emocional e por outras condições fisiológicas. Estes estados influenciam tanto a sensibilidade a objetos, como as propriedades percebidas neles. 


Dependendo da motivação afetiva, por exemplo, as imagens percebidas podem ter representações diferentes (um cálice ou duas pessoas frente a frente... preparando-se para um beijo, se encarando, re refletindo...). 
A compreensão científica dos processos de motivação e emoção abrange o estudo da maneira pela qual os estados de motivação influem na percepção. O alimento, por exemplo, é notado mais rapidamente pelo faminto do que pelo saciado e, além disso, parece também mais apetitoso ao faminto; uma mulher pode ser percebida pelo homem de uma determinada maneira antes do ato sexual e de outra, bem diferente, depois do mesmo ato; a pessoa amedrontada tem uma consciência mais nítida de cada pequeno ruído, na casa solitária, enfim, dependendo da motivação as percepções podem ser modificadas.
Há também influências fisiológicas nas percepções, encontradas, por exemplo, em estados excepcionais associados à doença, à gravidez, à menstruação, etc. Na mulher grávida, por exemplo, a capacidade para perceber os aromas é diferente.
A experimentação científica concorda haver influências impressionantes na percepção, produzidas por drogas e pelo álcool. A maconha, por exemplo, pode fazer com que as cores sejam vistas com um brilho incrível. O sentido do tempo fica deformado. O alcoolismo agudo e crônico pode ser acompanhado por períodos em que ocorrem experiências perceptuais apavorantes, tais como as de ver ratos sanguessugas no quarto, ou sentir vermes que perfuram a pele. Ainda seja obscura a classificação desses fenômenos, não pode haver dúvida de que esses estados estão também associados a variações marcantes na percepção.

Fatores pessoais e percepção

A organização perceptual muitas vezes reflete os fatores pessoais do percebedor, tais como suas necessidades, emoções, atitudes e valores. A extensão em que isso ocorre depende do despertar, por esses fatores centrais, das predisposições adequadas.

NECESSIDADES. Quanto mais forte a necessidade de uma pessoa, mais fortemente estará perceptualmente predisposta para determinados aspectos significativos à essa necessidade no campo perceptual. Muitos estudos experimentais foram feitos a respeito desse fato aparentemente óbvio. Palavras incompletas (por ex., car__, re___, etc.) são mais comumente completadas como palavras referentes a alimento (por ex., carne, refeição e não carro ou reflexo) por pessoas com fome, do que por pessoas alimentadas. Também sujeitos com mais fome, ao olhar para imagens pouco estruturadas projetadas numa tela, tendem a ver mais objetos de alimentação do que os sujeitos com menos fome.

EMOÇÕES. O estado emocional da pessoa pode provocar uma predisposição que influi nos processos de percepção e de pensamento. Por exemplo, as crianças de um acampamento de verão julgaram as características de fisionomias em retratos de várias pessoas antes e depois de assistirem um filme assustador de assassinatos; os julgamentos feitos depois do filme mostraram maior proporção de características de maldade em algumas fisionomias de fotos do que quando as viram antes do filme.

Valores e Atitudes

Uma pessoa tem tendência para estar predisposta a perceber de acordo com seus valores éticos, morais, culturais e suas atitudes. Um teste que consta da projeção rápida de uma lista de palavras mostra maior facilidade para percepção de algumas palavras atreladas à valores da pessoa que as reconhecem. Há tendências nítidas para o reconhecimento mais rápido nas palavras relacionadas com os valores do indivíduo. Por exemplo, a palavra "sagrado" era mais rapidamente reconhecida por pessoas que apresentavam elevado valor religioso do que por pessoas com outros valores predominantes. Além disso, existia tendência para percepção distorcida de palavras estimuladoras dos valores da pessoa, por exemplo, havia maiores tendências em reconhecer palavra "scared" (atemorizado) pelas pessoas religiosas como se fosse a palavra "sacred" (sagrado).

Todavia, é complexo e difícil afastar as variáveis de tais experimentos, pelo fato das palavras mais valorizadas serem também aquelas que, provavelmente, também são as que mais freqüentemente aparecem na experiência da pessoa.

Portanto, há certas predisposições perceptuais determinadas pelo desejo, vontade ou necessidade da pessoa que variam quanto a saliência, especificidade, duração, relação com outras predisposições.

Algumas predisposições dominam inteiramente a consciência do percebedor. Se alguém está insistentemente em busca de chave perdida numa gaveta em desordem, tem uma saliente predisposição para ver a chave entre as coisas esparsas da gaveta. Outras predisposições são menos salientes. Ao procurar a chave, a pessoa pode encontrar imediatamente uma caneta que procurava há muitos dias, embora possa não observar outros objetos. Nesse caso, a predisposição para a chave era a mais saliente, a predisposição para a caneta a menos saliente, e não existia predisposição para outros objetos.

As predisposições variam quanto ao seu grau de especificidade ou generalidade. A pessoa pode estar a procura de uma chave específica para sua garage, ou pode estar em busca de qualquer tipo de chave que possa ser usada como peso de papel, por exemplo.

As predisposições diferem também quanto à sua duração. Algumas são extremamente rápidas e outras mais duradouras. A mãe, por exemplo, está predisposta durante 24 horas por dia, para ouvir o choro de seu nenê, e pode ouvi-lo mesmo quando em meio a outros ruídos ou quando outras pessoas não conseguem ouvi-lo.

Alterações na Representação

Os dois principais Distúrbios da Sensopercepção tratados aqui serão as Ilusões e asAlucinações Em relação às Ilusões parece haver um consenso acerca de seu estudo pertencer ao campo da sensopercepção, entretanto, quanto às Alucinações, alguns autores preferem vê-las como Distúrbios da Representação. Por razões didáticas aceitamos ambas como transtornos da sensopercepção.

1 - ILUSÕES

Segundo Bleuler, as ilusões são percepções reais falsificadas e estudadas sob o título engano dos sentidos. Trata-se, na realidade, da interpretação distorcida de um objeto real, uma falsificação da percepção de um objeto que, de fato, existe. É uma percepção enganosa de um objeto real.

Nesta caricatura do processo de percepção nossos sentidos são simplesmente enganados por alguma variável circunstancial (iluminação, distância, efeitos ópticos, etc.) ou deixam-se superar por alguma emoção. É o caso, por exemplo, de um ruído qualquer, parecer-nos passos misteriosos, das manchas num papel serem percebidas como símbolos religiosos, de um barulho indefinido soar-nos como alguém nos chamando e assim por diante. Sem dúvida, tais acontecimentos estão impregnados pelo medo, pela necessidade religiosa, pela saudade ou por qualquer outro tipo de emoção.

Por si só a ilusão não constitui um estado mórbido, mas pode denotar um estado emocional mais ou menos intenso; desde pequenas oscilações do normal até situações patológicas. Os enganos da ilusão podem afetar os cincos sentidos.

Organicamente a desfiguração de objetos pode surgir como um incômodo sintoma de certas epilepsias de lobo temporal. Nestes casos as pessoas, por exemplo, podem adquirir a configuração de monstros, demônios, caveiras, etc. As Ilusões podem acontecer em qualquer doença mental, entretanto, elas são mais freqüentes nas alterações da tonalidade afetiva. Podem estar presentes na Psicose Maníaco Depressiva, em determinadas neuroses ou ainda, em ocorrências fortuitas do cotidiano emocional de quem atravessa momentos de forte tensão. Tudo isso deve sugerir que o contacto com a realidade, a impressão que elaboramos do mundo à nossa volta é sempre decorrente da integridade do aparelho psíquico, mais do que uma simples conseqüência da normalidade fisiológica.

2 - ALUCINAÇÕES

Alucinação é a percepção real de um objeto inexistente, ou seja, são percepções sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado, portanto, será real para a pessoa que está alucinando.

Sendo a percepção da alucinação de origem interna, emancipada de todas variáveis que podem acompanhar os estímulos ambientais (iluminação, acuidade sensorial, etc.), um objeto alucinado muitas vezes é percebido mais nitidamente que os objetos reais de fato.

Tudo que pode ser percebido pode também ser alucinado e isso ocorre, imaginativamente, com maior liberdade de associações de formas e objetos. Naalucinação, por exemplo, um leão pode aparecer de asas, ou um caracol que cavalga um ouriço. O indivíduo que alucina pode ter percebido isoladamente cada umas das formas e, mentalmente, combinado umas com as outras.

As alucinações podem manifestar-se também através de qualquer um dos cinco sentidos, sendo as mais freqüentes as auditivas e visuais. O fenômeno alucinatório tem conotação muito mais mórbida que a Ilusão, sendo normalmente associado à estados psicóticos que ultrapassam a simplicidade de um engano dos sentidos. Na Alucinação o envolvimento psíquico é muito mais contundente que nos estados necessários à Ilusão.

Segundo o modelo organodinâmico, as alucinações podem surgir quando fracassam os mecanismos de integração das estruturas psíquicas com os sistemas perceptivos e sensitivo. Trata-se de uma desestruturação do campo da consciência e do próprio ser consciente, cujas necessidades subjetivas superam a realidade objetiva.

Por causa disso há necessidade de construção de uma nova realidade, a qual, defensivamente, se constitui de alucinações várias com o propósito de atender um psiquismo exigente. As alucinações com estas características, ou seja, aquelas originadas de um dinamismo psíquico desestruturado, porém, não necessariamente psicótico, têm sido consideradas por alguns como uma espécie de Mecanismo de Defesa do Ego extremamente patológico.

A partir da idéia de Alucinações como um Mecanismo de Defesa extremamente patológico, autores mais ousados acreditam que, de um modo geral, as alucinações seriam uma espécie de defesa do ser social ante uma cultura esquizofrenizante; uma tentativa de criação de um mundo próprio de sons e imagens que enriqueceriam a personalidade. Esse malabarismo ideológico tem se mostrado apenas um alinhavo retórico ficcioso de conteúdo pouco científico e muito duvidoso.

A loucura, com suas alucinações, sempre existiu em todas as épocas e em todos os lugares na civilização humana, fato que deveria sugerir, então, nunca ter existido uma cultura não-esquizofrenizante.

O fenômeno alucinatório, sem nenhuma sombra de dúvida, é um acontecimento extremamente mórbido, doentio, patológico, alienante e causador de grandes sofrimento tanto para quem alucina quanto para aqueles que com ele convivem. Tal ocorrência jamais poder ser entendida como algo benéfico e produtor do crescimento da personalidade. Em se tratando de um tipo de Mecanismo de Defesa da personalidade extremamente patológico, por se tratar de algo "extremamente patológico", poderíamos suspeitar do enorme grau de desestruturação psíquica do ser que alucina.

As alucinações não podem ser consideradas patognomônicas desta ou daquela psicopatia, não são exclusivas de nenhum transtorno mental específico, porém, de um modo geral, estão estatisticamente mais associadas às ocorrências psicóticas, notadamente à Esquizofrenia. Para o iniciante na lide com a Doença Mental, tem sido incontrolável a tendência em argumentar com o paciente que alucina, através de elementos da lógica, num esforço racional para demover do paciente este distúrbio. A possibilidade de se suprimir uma alucinação através da argumentação sensata é decididamente nula e, caso isso aconteça, não estaremos diante de uma alucinação genuína, mas de um engano sensorial. A alucinação verdadeira é irremovível pela lógica, daí o fato de ser considerada REAL para a pessoa que alucina.

Segundo a visão de Jung, aliás muito interessante, na doença mental o inconsciente começa a sobrepor-se à consciência. Nessa situação rompem-se as barreiras de contenção e as alucinações apresentam claramente à consciência uma parte do conteúdo inconsciente. Assim sendo, as alucinações (como também os delírios) não surgiriam de processos conscientes, mas sim, inconscientes, cujos fragmentos brotariam na consciência tal qual no sonho, ou seja, dissociados. Isso nos leva a afirmação metafórica de que a loucura pode ser entendida como um sonhar acordado, ou, por outro lado, que o sonho é uma espécie de loucura dos lúcidos. A Doença Mental, para Jung, faria acionar um mecanismo previamente existente e que funciona normalmente nos sonhos.

A psicopatologia, honestamente, não pode descartar esta possibilidade junguiana, a do sonhar acordado para a loucura, tal como uma espécie de ebulição e erupção do material inconsciente traduzindo-se em alucinações na consciência. Entretanto, somente uma ocorrência francamente patológica seria capaz de produzir tamanha revolução do inconsciente, ao ponto de perder-se o contacto com a realidade e não saber mais onde termina o sonho e começa o real. Apesar destas reflexões psicodinâmicas atenderem satisfatoriamente nossa compreensão do fenômeno, é bom termos sempre em mente outras considerações fisiopatológicas, como é o caso das alterações neuromoleculares, atualmente relacionadas solidamente à ocorrência dos sintomas alucinatórios.

2.1 - Alucinações Auditivas

Como as mais freqüentes, podem aparecer sob forma de Alucinações Auditivas Elementares, quando a percepção diz respeito a sons inespecíficos, tais como chiados, zumbidos, ruídos de sinos, roncos, assobios, etc. Em se tratando de patologia mais séria, aparecem como Alucinações Auditivas Complexas, onde se percebem vozes bem definidas. Essas vozes podem ter as mais variadas características: diálogos entre mais de um interlocutor, comentários sobre atos do paciente, críticas sobre a pessoa que alucina, podem ainda, por outro lado, proferir injúrias e difamações, comunicar informações fantásticas, sonorizar o pensamento do próprio paciente ou de terceiros. Tais vozes ouvidas podem ser provenientes, na idéia do doente, do além, do sobrenatural, dos demônios ou de Deus.

O fenômeno de perceber uma voz que não existe (percepção de objeto inexistente) é aAlucinação propriamente dita e, interpretá-la como sendo a voz do demônio, de Deus, dos espíritos mortos ou uma audição telepática já faz parte do delírio. Este, freqüentemente, acompanha o fenômeno alucinatório. Ouvir vozes faz parte da sensopercepção e atribuir a elas algum significado faz parte do pensamento, cujos distúrbios veremos adiante.

Algumas vezes as vozes alucinadas podem determinar ordens ao paciente, o qual as obedece mesmo contra sua vontade. Diante desta situação, de obediência compulsório às ordens ditadas por vozes alucinadas, chamamos de Automatismo Mental. Esta situação oferece alguma periculosidade, já que, quase sempre, as ordens proferidas são eticamente condenáveis ou socialmente desaconselháveis.

Normalmente, a Alucinação Auditiva é recebida pelo paciente com muita ansiedade e contrariedade pois, na maioria das vezes, o conteúdo de tais vozes é desabonador, acusatório, infame e caluniador. Quando elas ditam antecipadamente as atitudes do paciente falamos em Sonorização do Pensamento, como se ele pensasse em voz alta ou como se alguma voz estivesse permanentemente comentando todos seus atos: " lá vai ele lavar as mãos", "lá vai ele ligar a televisão" e assim por diante.

2.2 - Alucinações Visuais

São percepções visuais, como vimos, de objetos que não existem, tão claras e intensas que dificilmente são removíveis pela argumentação lógica. Mesmo o paciente referindo ter visto apenas vultos, tais vultos são muito fielmente percebidos, portanto são reais para a pessoa que os percebe. Tal qual nas Alucinações Auditivas, aqui também elas podem ser consideradas Elementares, quando o objeto alucinado não tem uma forma específica: clarões, chamas, raios, vultos, sombras, etc. Serão Complexas quando as formas se definem em figuras nítidas: pessoas, monstros, demônios, animais, santos, anjos, bruxas.

Há determinadas ocasiões onde o transtorno visual alucinatório adquire a consistência de uma cena, uma situação como, por exemplo, ver uma carruagem passando pela paciente e dela descer um príncipe. Neste caso falamos em Alucinações Oniróides, como se transcorresse num sonhar acordado. No Delirium Tremens do alcoolista, por exemplo, as Alucinações Visuais tem uma temática predominantemente de bichos e animais peçonhentos (cobras, aranhas, percevejos, jacarés, lagartos) e, neste caso, damos o sugestivo nome de Zoopsias, promovedoras de grande ansiedade e apreensão.

Nas situações onde o paciente se vê fora de seu próprio corpo falamos em Alucinações Autoscópicas e, quando ele consegue ver cenas e objetos fora de seu campo sensorial, como enxergar do lado de fora da parede, teremos as Alucinações Extracampinas.

O conteúdo das alucinações é extremamente variável, porém, guarda sempre uma íntima relação com a bagagem cultural do paciente que alucina. Não é possível alucinar com alguma coisa que não faça parte do mundo psíquico do paciente. Um físico nuclear pode alucinar com um certo brilho atômico a revestir seus inimigos, enquanto um cidadão menos diferenciado, com um espírito do morto a rondar sua casa, ambos porém, independentemente do nível sócio-cultural têm a mesma probabilidade de alucinar. A sofisticação e exuberância do material alucinado dependerá da bagagem cultural de quem alucina mas não interfere na valorização semiológica do fenômeno.

2.3 - Alucinações Táteis

A percepção de estímulos táteis sem que exista o objeto correspondente é observada principalmente nas psicoses tóxicas e nas psicoses delirantes crônicas, como veremos adiante. Nestes casos, principalmente no Delirium Tremens ou na dependência de cocaína, o paciente sente-se picado por pequenos animais, insetos esquisitos, vermes que caminham sobre a pele, pancadas, alfinetadas, queimaduras, estranhos carrapatos que penetraram em algum orifício fisiológico, etc. Não são raros os casos de alucinação tátil que se caracteriza pela sensação de ter-se as pernas puxadas à noite ou estrangulamento, sufocação ou opressão antes de conciliar o sono.

Quando esta percepção falseada diz respeito aos órgãos internos ou ao esquema corporal falamos em Alucinações Cenestésicas. Nestes casos os doentes sentem como se tivessem seu fígado revirado, esvaziado seu pulmão, seus intestinos arrancados, o cérebro apodrecido, o coração rasgado, e assim por diante. AsAlucinações Cenestésicas devem ser diferenciadas das Alucinações Cinestésicas que não dizem respeito à sensação tátil, mas sim aos movimentos (cine-movimento). Nas cinestesias os pacientes percebem as paredes movendo-se ou eles próprios movendo-se no espaço.

Um paciente delirante crônico sentia que seu cérebro estava infestado de germes, os quais, esporadicamente, escorriam-lhe pelo nariz. Neste caso, trata-se de umaAlucinação Tátil Cenestésica. Outro queixava-se de inúmeros percevejos que furavam-lhe a pele o tempo todo. Era um portador de Delirium Tremens, e, inclusive, mostrava os insetos que conseguia apanhar para o médico (o qual, evidentemente, não os via). Trata-se de Alucinações Táteis puras. Outro, já idoso, que sabia ter seus pulmões corroídos por vermes provenientes de carne suína, tossia seguidamente e vivia submetendo-se a freqüentes exames de raios X. Neste último caso, uma Alucinação Cenestésica pura.

2.d - Alucinações Gustativas e Olfativas

Normalmente, as Alucinações Olfativas e Gustativas estão associadas e são raras. Estados delirantes cujo tema diz respeito à putrefação, o gosto e os odores podem ser muito desagradáveis e são percebidos, como é típico de todas alucinações, sem que exista o objeto correspondente ao gosto e ao cheiro.

Algumas auras epilépticas determinam o aparecimento de Alucinações Gustativas e/ou Olfativas. Em geral os gostos alucinados aparentam ser de sangue, terra, catarro ou qualquer outra coisa desagradável; os odores podem ser desde perfumes exóticos até de fezes.

Portanto, como vimos, em termos de percepção da realidade, deve ser evidente o envolvimento das estruturas neurológicas necessárias, primeiramente à sensação e, em seguida, à integração e organização destas impressões apreendidas da realidade objetiva. Isso tudo se faz no sentido de favorecer a construção do conhecimento do mundo e do próprio indivíduo. No entretanto, essa função totalizadora e integradora das sensações que formam e constroem a percepção individual da realidade, envolve mecanismos subjetivos muito além da objetividade neurofisiológica da sensação.

Referência
Ballone GJ - Percepção e Realidade in. PsiqWeb, Internet, disponível emhttp://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005
http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=206