No que se refere ao poder, direito e verdade....

Por Rosangela Brunet
"Ouvi de um eminente crítico acadêmico a observação de que eu sou um triste sintoma do fracasso de uma classe intelectual em tempos de crise. A inferência é, suponho, que o professor e seus colegas são alegres sintomas de êxito. Os benfeitores da humanidade merecem as honras e a comemoração devidas. Construamos um Panteão para os professores. Deveria localizar-se entre as ruínas de uma das cidades destruídas da Europa ou do Japão, e acima da entrada eu inscreveria, em letras de seis ou sete pés de altura, estas simples palavras: "Consagrado à Memória dos Educadores do Mundo"Aldous Huxley [5]
Embora o homem seja responsável pela formação cultural, a sociedade depois de formada determina o que é politicamente correto,bonito e adequado, em função da teia que vai tecendo nas suas relações políticas e econômicas .
"...para assinalar simplesmente, não o próprio mecanismo da relação entre poder, direito e verdade, mas a intensidade da relação e sua constância, digamos isto: somos forçados a produzir a verdade pelo poder que exige essa verdade e que necessita dela para funcionar, temos de dizer a verdade, somos coagidos, somos condenados a confessar a verdade ou encontrá-la. (Foucault, 1999:29)
Esta arbitrária determinação promove uma aprendizagem destituída de espontaneidade estimulando um comportamento como educados cidadãos opressores.Eles pregam e ditam como é necessário se comportar , pois assim obedecemos a cada tirania conceitual formada por arrogantes construtores do saber. Temos, então que ser como eles desejam, á fim de sermos inseridos no grupo com suas formas pré estabelecidas e padronizadas de comportamentos considerados "corretos socialmente".Do contrário, a exclusão e a marginalização é certa.Nessa relação, as regras devem ser seguidas a despeito de qualquer circunstancia e as custas de nossas individualidade e liberdade de Ser o que deveríamos .O sentimento do outro não é levado em conta.Então, eu pergunto: quem é o violento ai?
"No que se refere ao poder, direito e verdade, sob a análise de Foucault, existe um triângulo em que cada item mencionado (poder, direito e verdade) se encontra nos seus vértices. Nesse triângulo, o filósofo vem demonstrar o poder como direito, pelas formas que a sociedade se coloca e se movimenta, ou seja, se há o rei, há também os súditos, se há leis que operam, há também os que a determinam e os que devem obediência. O poder como verdade vem se instituir, ora pelos discursos a que lhe é obrigada a produzir, ora pelos movimentos dos quais se tornam vitimados pela própria organização que a acomete e, por vezes, sem a devida consciência e reflexão Nessa perspectiva, pode-se entender a partir do autor por poder uma ação sobre ações. Foucault discorre que as relações de poder postas, seja pelas instituições, escolas, prisões, quartéis, foram marcadas pela disciplina: “mas a disciplina traz consigo uma maneira específica de punir, que é apenas um modelo reduzido do tribunal” (Foucault, 2008:149). É pela disciplina que as relações de poder se tornam mais facilmente observáveis, pois é por meio da disciplina que estabelecem as relações: opressor-oprimido, mandante-mandatário, persuasivo-persuadido, e tantas quantas forem as relações que exprimam comando e comandados. As relações de poder, direito e verdade, entre os setores mencionados, são tão complexas,tácitas, intrínsecas e interdependentes que, por vezes, encontram-se discursos de verdades e direitos desenhados pelo interesse individual, o que pode ser chamado de relação de força, “(...) tais forças estão distribuídas difusamente por todo tecido social” (Veiga-Neto, 2003:73)” (Veiga-Neto, 2003:73)[6]
Além das Escolas, prisões e quarteis , uma das melhores ferramentas neste processo de relação opressor x oprimido é a mídia. Os discursos impostos  são lindamente divulgados através de emissoras de TV comprometidas politicamente com o sistema .
"Não ser ninguém-a-não-ser-você-mesmo, num mundo que faz todo o possível, noite e dia, para transformá-lo em outra pessoa – significa travar a batalha mais dura que um ser humano pode enfrentar; e, essencialmente, jamais parar de lutar" E. E. Cummings
Há um movimento ideológico e econômico que tem interesse em nos tornar uma massa unificada anulando a individualidade e desrespeitando nossas características pessoais.Tentam nos convencer dia e noite, de forma sistemática que somos livres para pensar e responsáveis por nossas escolhas.Mas isso é um ledo engano. O que vemos não é liberdade.Por exemplo, por trás dos comerciais há uma teoria comportamental para manipular o consumidor .A mídia é controlada pelo sistema. Os Jornais só divulgam o que interessa. Há uma crise democrática no que se refere a mídia , em função do seu comprometimento econômico e político.Eles determinam o que a gente deve pensar, acreditar, ser, comprar, etc. Vemos um controle ideológico e econômico dos poderosos que precisam que o sujeito não pense , mas acredite que é livre para pensar e fazer escolhas .
Obra de Piet Mondrian 
"...os discursos e falas massivas da mídia se projetam como intérpretes e vigas de sustentação do ideário privatista do neoliberalismo e variações associadas. Incutem e celebram a tirania do dinheiro, a competição e o lucro, propagando valores e modos de vida que transferem para o mercado a regulação das demandas coletivas, como se isso fosse possível. Ao mesmo tempo, procuram neutralizar o pensamento crítico e as expressões de dissenso, reduzindo espaços para ideias alternativas e contestadoras, ainda que estas continuem se manifestando, resistindo e reinventando-se.(...) Os megagrupos midiáticos detêm a propriedade dos meios de produção, a infraestrutura tecnológica e as bases logísticas, como parte de um sistema que rege habilmente os processos de produção material e imaterial. Além de planejar e coordenar atividades correlatas, esse sistema exerce interferência crucial na circulação de informações, interpretações e crenças indispensáveis à consolidação de consensos sociais,...Na essência, as políticas de geração de conteúdos almejam a maximização de lucros, dentro das conveniências estratégicas das instâncias de emissão.Bem sabemos que existem respostas, interações e assimilações diferenciadas por parte do público consumidor dos produtos e mensagens midiáticos. Entretanto, em face da concentração transnacional das chamadas indústrias culturais, a possibilidade de interferência do público (ou de frações dele) nas programações depende não somente da capacidade criativa e reativa dos indivíduos, como também de direitos coletivos e controles sociais sobre a produção e a circulação de informações e entretenimento. "[3]
Obra de Mondrian, 1965
Obra de Mondrian Inspirou Coleção de Yves Saint Laurent

O dinheiro tem sido a "mola mestre" das relações políticas e sociais, ainda que não estejamos o tempo todo conscientes disso.É preciso muito trabalho, fé e vigilância para se livrar dessa teia .É um sistema que precisa manter o controle da nossa vida para poder se sustentar .
Os imperativos da moda, do consumo, do utilitarismo e do capital não deixam lugar para o ínfimo, o desútil, o íntimo, o desver, o falho, a falta, a fala. Tudo isso é, no entanto, o verdadeiro capital para o sujeito: a expressão de sua singularidade e de seus nadas” [1]
Quem não tem dinheiro é uma pessoa com muitos limites sociais .A segregação social ,a falta de dinheiro tira o acesso á qualidade de vida e convence as pessoas que elas que são responsáveis por isso. Antes os escravos , apesar de cativos conheciam seus direitos e tinham consciência de que não eram livres. Atualmente somos escravos e não sabemos. O cara acorda 6h da manhã , sai de casa ás 7h , e só chega ás 7h da noite exausto e estressado, e ainda tem que ficar grato e feliz porque tem um emprego. Só vê os filhos nos fins de semana, e muitas vezes para conseguir aquela promoção tem que fazer hora extra ou trabalhar nos fins de semana.
A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros onde os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga.Um sistema de escravatura, onde graças ao consumo e ao divertimento , os escravos terão amor à sua escravidão" Aldous Huxley
O mercado precisa de pessoas que produzem , e para isso você precisa ser saudável e feliz. A realidade exige que você não incomode ninguém com seus problemas pessoais.Você não pode pedir licença porque seu filho ficou doente, não pode ficar doente. Depressão é sinônimo de demissão e fraqueza . Quem não produz esta á margem da sociedade. Por isso, eles preferem rotular e marginalizar. É como se fosse uma doença contagiosa. Ninguém tem mais tempo para família, e nem para os relacionamentos afetivos ou amizades. É tudo muito rápido, e as relações se tornaram líquidas. O "arauto do apelo moral da sociedade contemporânea tem sido o consumismo e o mercado ." [2]
 Quem define a as regras morais e sociais, quem determina o que é bom, o que é útil, o que é funcional é o sistema capitalista , cujo foco é a produtividade e o consumismo .A sociedade do excesso alimenta o materialismo , que por sua vez serve de resposta ás exigência existenciais. Seus produtos são tamponamentos para o vazio existencial de cada indivíduo , e depois que esse indivíduo se vicia nesses produtos, eles são estigmatizados pelo próprio sistema. Por exemplo, aquele indivíduo agora é chamado de compulsivo em compras, ou viciados em drogas, aquele outro tem síndrome de ansiedade, o outro é deprimido porque nunca esta feliz. Como disse Renato Dias Martino, um psicanalista; "é tarefa cabeluda ser normal numa sociedade desajustada"
"A indústria da propaganda e do slogan cria na população a vinculação entre a mercadoria e a felicidade(...) se elaboram tendências "culturais" padronizadas para determinados grupos sociais, exigindo simultaneamente pouca reflexão e grande capacidade de assimilação das tendências projetadas a cada estação. Como o "homem-massa" segue afoitamente as palavras de ordem de slogans e os mandamentos seculares dos ícones sociais explorados pela publicidade (instrumento por excelência do processo massificador da sociedade), sua mente se torna um grotesco depositário de ideias heteróclitas, perdendo assim qualquer autonomia nas suas escolhas. Vive-se, por conseguinte, conforme a "moralidade do impessoal", pois agir de forma destacada da coletividade anônima é algo ofensivo para o falso pudor da moderna civilização das massas; esta, em vez de promover o refinamento intelectual e cultural do indivíduo, se esforça acima de tudo por anular as próprias noções de singularidade e originalidade, criando blocos humanos desprovidos de personalidade, para que se possa assim melhor controlá-los." Renato Nunes Bittencourt
Vivemos numa sociedade onde o consumo material de bens tem determinado a utilidade e o valor dos indivíduos .O que permanece é o material, pois não se tem mais tempo para o essencial. Pois ser produtivo,motivado, feliz e saudável é o que importa para as empresas. Mas isso ,sem levar em conta a realidade pessoal de cada um.Temos que ser aquilo que eles determinam .Do contrário somos marginalizados.O esvaziamento de valores deu lugar aos robozinhos que produzem sem questionar.É um preço altíssimo que se paga pela "evolução"
Não sou comunista, nem estou aqui defendendo nenhuma ideologia.Minha reflexão é contra a tirania que enfrentamos todos os dias .Temos que ser aquilo que o sistema determina. Isso me incomoda. Para ilustrar melhor o que quero dizer tem um trecho de Karl Marx que gostaria de citar: "Quanto menos comes, bebes, compras livros, vais ao teatro e ao café, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. «És» menos, mas «tens» mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça."
Enfim para terminar esta reflexão e deixo este texto de Simone Weil: "A submissão do maior número ao menor, esse fato fundamental de quase toda organização social, não deixa de assombrar todos os que refletem um pouco. Na natureza, observamos os pesos mais pesados prevalecerem sobre os menos pesados, as raças mais prolíficas sobrepujarem as outras. Entre os homens, essas relações tão claras parecem invertidas. Decerto, sabemos por uma experiência cotidiana que o homem não é um simples fragmento da natureza e o que nele existe de mais elevado - a vontade, a inteligência, a fé – produz todos os dias espécies de milagre. Mas não é disso que se trata aqui. A necessidade impiedosa que manteve e mantém de joelhos massas de escravos, massas de pobres, massas de subordinados, nada tem de espiritual; ela é análoga a tudo o que existe de brutal na natureza. Como se, na balança social, o grama excedesse o quilo"[4]
Zygmunt Bauman é um dos filósofos mais influentes dos dias de hoje.Nesse vídeo ele nos completa finaliza minha reflexão. Sua investigação , discurso e refelxão atravessa o tema : nossa forma como viver nessa sociedade líquida , com pressa constante , sem experimentar nada com profundidade, e consequentemente mudando de escolhas por incapacidade de suportar aquilo que e essencial. Nesse contexto o advento dos transtornos de Estresse vem aumentando na vida pós-moderna. Bauman sintetiza de forma brilhante o complexo conceito de Vida Líquida .Convido vocês a assistirem seu vídeo abaixo:


Referências :[1] O que responde o psicanalista? Ética e clínica
[2] Maria Rita Kehl,In:Café Filosófico
[3] 
 Renato Nunes Bittencourt,In: Mídia,Poder e Contra Poder
[4]- Simone Weil: Meditação sobre a obediência e a liberdade
[5]Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo
[6
Isabella Maria nunes Ferreirinha e Tânia regina raitz(In As relações de poder em Michel Foucault: reflexões teóricas)

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