Relações Afetivas

Por Rosangela Brunet

Se a gente não tivesse feito tanta coisa,se não tivesse dito tanta coisa,se não tivesse inventado tanto podia ter vivido um amor Grand' Hotel.
Se a gente não fizesse tudo tão depressa,se não dissesse tudo tão depressa,se não tivesse exagerado a dose,podia ter vivido um grande amor. Um dia um caminhão atropelou a paixão .Sem teus carinhos e tua atenção .O nosso amor se transformou em "Bom Dia"... " Kid Abelha

 Somos seres relacionais e apesar de termos nascido sozinhos, ao longo da vida vamos estabelecendo vínculos, e alguns se tornam tão vitais que seu rompimento pode se tornar uma fonte de profunda tristeza podendo evoluir para uma depressão .
"Um relacionamento é uma intercessão:Um na vida do outro e não um contendo o outro"Tereza Cristina Martins.
Apesar de estarmos mais modernos , e vivermos numa sociedade altamente evoluída tecnologicamente , ainda nos escapa o saber viver uma relação afetiva plena , ainda estamos desenhando o projeto de um modelo de convivência com o outro sem nos tornamos reféns . Há gatilhos que ainda detonam nossas lembranças mais escuras e sombrias, nos deixando,algumas vezes, na mão do outro, ou até mesmo desejando o outro como objeto de posse. 
O mundo moderno esta longe de aprender a experiência do luto necessário.Estamos evitando viver a dor e o sofrimento que é tão essencial a construção da felicidade e realização. Haja visto a necessidade do imediatismo tão cultuado em complacente acordo com a superficialidade dos "Amores líquidos".
Ninguém tem mais tempo de cultuar o presente, de investir nas necessidades legítimas, de se abandonar em suas ousadas aventuras de ser o que se verdadeiramente é. A dificuldade de virar página ainda se sustenta na busca de não abandonar o passado, "mudar o disco" e largar a velha canção ainda é um desafio. "Sair pra vida e tomar a cidade" depois de um vínculo rompido oscila entre o imediatismo prazeroso e a depressão pela incapacidade de elaborar do luto.A ansiedade esta tomando o lugar do prazer pelo simples e pelo verdadeiro. Ainda se paga preços altíssimos para se obter o afeto de alguém .Sabe-se que no fundo tudo que precisamos mais é sermos amados,mesmo que esse amor venha disfarçado de carro importado, de mulheres bonitas e um status social alto.No final do túnel a luz que acende é aquela que nos faz descansar no colo de quem a gente ama. Falei "descansar no colo"? Não foi ato falho.É a nossa mais confortável emoção e desejo inconsciente, porque esse afeto que nos assombra e nos desmonta todo, a todo custo esta relacionado com nossas primeiras experiência afetivas: O colo da mãe, sua atenção seu toque. Ainda que pareça uma teoria psicológica barata essa é a base de todos os nossos relacionamentos:Nossos pais. Ainda que a gente complexifique tudo,ainda que a gente explore todas as teorias,a base dos nossos afetos é a nossa relação maternal/paternal.Dessa matriz reproduzimos nossos futuros ,e muitas vezes fatídicos, vínculos.
Não vou me aprofundar neste tema. Apenas me utilizarei desse principio básico para desenvolver minha reflexão, e tentar discutir sobre essa questão que me inquieta. Porque ainda há tanta fragilidade nas relações afetivas? Porque é tão difícil se relacionar de forma íntima?Porque sofremos tanto num rompimento amoroso?
Jamais conseguiria responder tudo isso...mas tem algumas coisas que me ajudam e me acalmam nessas incertezas. Algumas "verdades" benditas que aprendi coma experiência ás duras penas.Muitas vezes a teoria não nos ensinam tanto quanto a prática .Eu li uma frase que dizia..."na juventude a gente aprende, na fase adulta a gente entende" Uma desse aprendizado é a respeito da necessidade que o indivíduo tem de aprender a viver numa relação de intimidade.Isso é uma prática desafiadoras em nossa época. Essa dificuldade é muito bem retratada num texto da Martha Medeiros: "Mantenha-se atrás da faixa amarela, não chegue muito perto, não acerque-se de meus traumas, não invada meus mistérios, não atrite-se com o meu passado, não tente entender nada: é proibido tocar no sagrado de cada um"
A intimidade é uma terra pouco habitada porque ela exige muito de nós. Nos cabe ali nos desnudar inteiros diante de um "estranho" que um dia pode nos abandonar. E é ai que se trava verdadeiras batalhas que pode se desaguar nos mares da depressão e desespero.
Em alguns casos há os que não temem a intimidade , e são abandonados sem certezas e respostas claras. Desse pode nascer os futuros amantes decepcionados e despreparados para o novo amor.
Há aqueles que não se desnudam jamais. Casos claro de nunca terem vivido nessa terra cálida e sólida do afeto maternal seguro,dedicado e constante.
Esses são os que enxergam os monstros em jardins floridos porque não aprenderam a descansar .Quem não viveu a segurança do colo e da presença dificilmente conseguirá experimentar a segurança de uma relação. Raramente conseguirá sonhar,sair do chão, pois a solidão em sua infância foi solo de desesperança e não o permitiu que houvesse estrelinhas e nuvens cor de rosa em seus jardim de infância. 
Mas há uma terceira categoria oriunda desses desacerto que mais me chama a atenção. É o sonhador compulsivo, o eterno apaixonado. Aquele cujos pés não podem tocar o chão. O sofrimento da realidade lhe foi como um bombardeio em Chernobyl, vivendo um desastre que reverbera adentrando seu futuro. São amantes que não sabem amar porque não podem viver novamente sua tragédia , não poderiam sobreviver ao enfrentamento da "mesma" ironia do abandono , e vivem pra sempre reproduzindo seus sofrimentos. 
Há uma lista de frentes explicativas que eu poderia conduzir neste tema, mas esta última para mim é a mais delicada. É neste palco que as grandes tragédias das relações estreiam, é nesta ring que as violências domésticas travam as maiores batalhas; é neste campo que se concentram as grandes decepções amorosas. 
Há alguns textos legais que ajudam a gente entender como conduzir uma relação saudável.Mas acho que ainda estamos engatinhando nessa jornada, pois essa não é uma caminhada teórica, mas sim histórica, pessoal e subjetiva de cada indivíduo que foi amado ou não.Indivíduo que agora pode amar ou não.Uma relação a dois é uma jornada de perguntas e respostas diárias que apostamos na sorte do passado, e na reconstrução presente que duas pessoas , que podem ou não estarem dispostas a pagar o preço de um futuro incerto.
E para conviver com o incerto é mister que a gente se ame muito, que haja autoconhecimento construído pela autoestima. E isso é material de estudos profundo ,individual e constante. Isso é tema de vida e existência. Isso não é para todos. Isso se aplica aos corajosos, e aos que se colocam humildes diante do inesperado que a vida nos presenteia.
Deixo para vocês um poema de Carlos Drumond de Andrade para que a poesia celebre esse encontro de sermos todos os dias:
"É preciso abrir todas as portas que fecham o coração. Quebrar barreiras construídas ao longo do tempo, por amores do passado que foram em vão. É preciso muita renúncia em ser e mudança no pensar. É preciso não esquecer que ninguém vem perfeito para nós. É preciso ver o outro com os olhos da alma e se deixar cativar. É preciso renunciar ao que não agrada ao seu amor, para que se moldem um ao outro como se molda uma escultura, aparando as arestas que podem machucar. É como lapidar um diamante bruto para fazê-lo brilhar. E quando decidir que chegou a sua hora de amar, lembre-se que é preciso haver identificação de almas, de gostos, de gestos, de pele, no modo de sentir e de pensar. É preciso ver a luz iluminar a aura, dando uma chance para que o amor te encontre na suavidade morna de uma noite calma... É preciso se entregar de corpo e alma. É preciso ter dentro do um sonho, que se acalenta no desejo de amar e de ser
amada. É preciso conhecer no outro o ser tão procurado. É preciso conquistar e se deixar seduzir, entrar no jogo da sedução e deixar fluir. Amar com emoção para se saber sentir a sensação do momento em que o amor te devora. E quando você estiver vivendo no clímax dessa paixão, que sinta que essa foi a melhor de suas escolhas, que foi seu grande desafio e o passo mais acertado de todos os caminhos de sua vida trilhados. Mas se assim não for, que nunca te arrependas pelo amor dado. Faz parte da vida arriscar-se por um sonho. Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado. Mas, antes de tudo, que você saiba que tem aliado, ele se chama tempo, seu melhor amigo. Só ele pode dar todas as certezas do amanhã: a certeza que realmente você amou, a certeza que realmente você foi amada!... "

Sugestão: Três Vídeos da Etrevista sobre Relação Afetiva: Fale Mais sobre Isso :http://www.youtube.com/watch?v=6hY_adbC2To&feature=youtu.be

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