quinta-feira, 4 de junho de 2015

Crise e Psicologia

Por Renato Bandola


Toda crise é um conflito, mas nem todo conflito se mostra como uma crise. Um conflito pressupõe que haja oposições psicológicas divergentes de igual valor que se equilibram gerando um impasse. Tais conflitos podem ou não gerar alguma neurose ou a incapacidade do indivíduo em administrar-se.
O conflito da consciência é o dia-a-dia de lutas e decisões que devemos tomar, as vezes tendo sucesso, as vezes fracasso em um jogo de estabilidade-instabilidade. Um conflito neurótico provoca uma confusão psíquica de pensamentos e afetos que desestabiliza o sujeito, passando este a ser um mero joguete de impulsos de ordem inconsciente. Pensamentos intrusivos, reações emocionais explosivas e comportamentos inadequados a atitude convencional da pessoa. Tais conflitos variam desde uma neurose até um quadro psicótico ou esquizofrênico onde não há uma autonomia do ego. Assim a pessoa começa a não responder por si beirando a doença mental.
Já a crise é um conflito de ordem mais profunda e ampla o qual não conseguimos lançar luz sobre o mesmo sem desembocar em uma tensão que também é coletiva. As crises se dão em momentos históricos de transição, como afirma o sociólogo Zigmunt Bauman (2004) vivemos em tempos líquidos, onde qualquer lugar seguro perde sua natureza pois é apenas temporário.
Podemos utilizar como metáfora a reorganização das camadas tectônicas da Terra, que para se reorganizarem provocam desastres naturais como erupções vulcânicas, enchentes e Tsunamis dizimando tudo que há pela frente. Se compreendermos o conflito coletivo sob o viés psicológico, não há certo e errado no que tange a uma lei absoluta que gere os conflitos, mas há um movimento que transcende os conceitos de bom e mau sendo estes primeiros algo dispensável para a compreensão da realidade. Compreender a crise psicologicamente é considerar a alma como natureza.
Assim, desde Jung (2008) podemos compreender que a mesma natureza que permeia nosso entorno externo está também em nossa psique ou na forma como estamos-no-mundo. A Vida psicológica pressupõe crises que também são naturais. Os vulcões de nossa alma, os afetos, emoções e estados de espírito que nos possuem. Tais naturezas psicológicas tanto quanto a natureza física pode ser destrutiva ou construtiva. Daí vemos as grandes produções cinematográficas sobre o apocalipse ou armagedom. 
A Crise é incontrolável e incontornável! Ela possui uma força própria do inconsciente coletivo[1] que tem suas raízes em padrões de comportamentos e atitudes arcaicos (arquétipos) e que detém uma força muito maior do que podemos controlar. A aposta psicológica é justamente não controlar mas tentar compreender como tal crise se dá e qual é o real conflito que se estabelece. Ainda na metáfora terrestre, assim como uma força da natureza, nossa alma possui uma profundidade e reorganização própria que redefine crenças políticas, atitudes e governos. Desta feita a crise também pressupõe o nascimento de uma nova atitude e modo de ser que revoluciona não só atitudes individuais, mas também uma época.
Se formos pensar na crise política do Brasil, podemos arriscar que poucas são as atitudes observadas, ódio recíproco, medo e revolta. Assim é o início de toda situação belicosa onde movimentos se organizam entrando em guerras civis ou até em conflitos bélicos. Tal interpretação seria equivocada se a atitude mais vista nas redes sociais e nas mídias não fosse o extremismo ideológico-religioso. No Brasil a coisa não seria diferente!
“O Mundo é aquilo que imaginamos. Só uma pessoa infantil julgaria que o mundo é realmente aquilo que pensamos. A imagem do mudo é uma projeção do mudo do Self, assim como este é uma introjeção do mundo” (JUNG, 2008).
A partir desta frase a subjetividade dentro do campo psicológico de compreensão do mundo, passa a ganhar destaque. Não há verdades absolutas, ou a única verdade absoluta possível é a transitoriedade e a incapacidade de definir a realidade. Desta feita não falamos sobre a Verdade, mas sim sobre interpretações acerca da realidade que se tornam sempre uma dentre várias possibilidades como dizem os hermeneutas.
Tanto a política como nossas atitudes sociais e públicas carecem da consideração de nossa dimensão subjetiva. Toda política que desconsidera os interesses individuais não lidando com estes últimos está destinada ao fracasso ou a corrupção. Política não pode mais ser olhada de forma “objetiva” pois a própria noção de objetivo necessita da consideração constante de seu oposto, o subjetivo.
obra+Salvador-Dali
Uma política que ingenuamente se propõe objetiva pode inconscientemente estar negando as oposições naturais a partir de um jogo emocional e melindroso. Há interesses opostos sempre, porém, isso não significa que meus interesses devem ser desconsiderados, mas há nisso tudo muito da questão de “até que ponto eu estou disposto a abrir mão de privilégios para favorecer meus próprios interesses no diálogo com os interesses do outro?”.
Até aqui partimos do princípio de que todos agem de forma ética e sob a insígnia de uma ideologia, ledo engano. O que vemos são subjetividades alienadas se utilizando da política de uma forma inconsciente (sombria) elegendo bodes expiatórios para justificar superfaturamentos ou desvios de caráter.
A crise que vivemos é muito mais ético-individual do que político-social. Uma ética do indivíduo pressupõe pensar em até que ponto conhecemos efetivamente os nossos reais desejos e nossas reais facetas? Envolve o questionamento dos “serás”. “Será que sou efetivamente consciente de minhas intenções? Será que sou cem por cento objetivo em minhas ações? Como os outros sentem minha presença?”.
Todas essas questões perpassam uma lógica que não é aparentemente social, mas psicológica que justifica e ratifica o social. A não consideração disso gera um olhar de desconfiança com relação aos outros, vendo-os e produzindo-os (pois o olha já cria segundo a intenção do observador) como inimigos de nossas “justas intenções”. O que faz com que as intenções do outro também não sejam justas? Segundo um parâmetro psicológico, só o fato de tais concepções existirem, já justifica tal ponto de vista.
A grande questão em voga talvez seja a atitude compreensiva ou social. Realizar uma política pressupõe que haja primeiramente uma ética das relações, a consideração absoluta do outro enquanto alteridade. Aqui se insere a ideia de Anima (alma), a experiência objetiva de contato com o outro, o campo relacional por natureza. Jung (1976) descreveu a Anima/animus como a contraparte absoluta da personalidade consciente, o não-eu, representado nos sonhos e imagens como o guia ou ponte que nos liga a dimensão mais íntima do psiquismo e consequentemente ao outro como ele é. Quando dizemos por exemplo que algo é íntimo, colocamos em questão um tabu, algo que não deve ser dito por ser uma verdade significativa a qual o indivíduo não pode se separar. Considerar esta nossa dimensão é considerar igualmente o outro como um portador de verdade significativa.
Assim, como havia dito logo acima, a política atualmente se move sob a lógica da exterioridade pública, mas deve possuir sua motivação na interioridade íntima para que sua ação seja efetiva ou gere uma atitude de intimidade-exteriorizante. Isso significa que para que consigamos acreditar nas atitudes do outro tornando-as efetiva, suas ações devem necessariamente possuir esse “quê” de veracidade. 
Consequentemente deixamos de procurar na figura política e pública um messias ou salvador denotando uma Verdade absoluta. Passamos a olhar com o sentir e atestar por nós mesmos a nossa própria verdade em diálogo dialético com esta suposta verdade que se propõe efetiva. A consideração da própria verdade (visão de mundo e de sociedade) requer que consigamos esvaziar as imagens, quebrar os ídolos da Verdade o qual projetamos no outro. 
Não quero dizer aqui para todos serem ateus ou protestantes, para não mais acreditarem nas imagens religiosas. Isso é algo que vai além, pois requer que consideremos o sagrado como uma força arquetípica que se deixada a “deus dará”, sem a consideração consciente, faz com que a figura do “messias” – que não deixa de existir enquanto experiência psicológica - passe a agir inconscientemente projetado na figura humana do político. Exatamente como em uma das facções do Materialismo Histórico de Marx que se propõe objetivo negando a religiosidade como ópio e alienação, mas sacralizando inconscientemente um Estado que terá de criar um novo paraíso, a sociedade comunista.

A crise contemporânea revela que não temos mais um messias, nada pode nos salvar ou salvar nossa alma, pois simplesmente é a alma que precisa nos salvar. Somente a partir da psique (alma) podemos acessar nossa verdade e só a partir da mesma podemos salvar os outros de nossas exigências de salvação. Do que queremos ser salvos senão da própria fantasia onipotente de vitimização que elege inconscientemente um opressor? Tais questões envolvem mais perguntas do que respostas.

[1] Dimensão psicológico-Histórica de todos os padrões de Ser-humanos juntamente com a estrutura cerebral atualizados em cada organismo que nasce. Os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência pois são potenciais universais de consciência. Universais por existirem na forma de mitos e lendas de todas culturas e povos (JUNG, 2008). A crise coletiva advém justamente da alienação dos potenciais individuais.

Fonte: http://vidapsiquica.tumblr.com/post/117171763717/crise-e-psicologia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido. Rio de Janeiro. Zahar. 2004.
JUNG, Carl Gustav. Fundamentos de Psicologia Analítica. Petrópolis. Vozes. 2008.
JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Rio de Janeiro. Zahar. 1976.

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